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As prioridades de 11 cubanos em relação ao congresso do Partido Comunista

EL PAÍS escuta diversas vozes sobre a importante reunião do partido

Um cartaz pró-revolução em Havana.
Um cartaz pró-revolução em Havana. EFE

De sábado até terça-feira o Partido Comunista de Cuba realiza seu VII Congresso. Em pleno restabelecimento de relações com os EUA, mas com a demora da abertura de mercado, se espera que o partido único reforce ações de liberalização como o empreendimento privado e o investimento estrangeiro, enquanto é visto como certo que não será esboçado nenhum horizonte de democratização política. O EL PAÍS consultou as prioridades de um grupo diversificado de cubanos sobre o evento.

Cira Romero, 70 anos, ensaísta

1. Economia. É o assunto principal, pois tudo ou quase tudo em meu país depende de seu avanço ou retrocesso, desde a sobrevivência diária até problemas éticos. Se progredir será um alívio, se encolher ou ficar para trás será um desastre.

2. Eficiência. Suprimir o excesso de burocracia que reina nos níveis de decisão, especialmente em negociações com capital estrangeiro.

3. Mercado de trabalho. É desejável eliminar a fórmula de proibir as empresas estrangeiras de selecionar elas mesmas o pessoal com quem querem trabalhar.

Cira Romero é especialista em Literatura cubana e vive em Havana.

Carlos Alzugaray, 72 anos, diplomata

1. Pequenas e medias empresas. Um pronunciamento a favor da existência das pequenas e medias empresas. Esta é a reforma essencial para tornar a economia mais eficiente.

2. Nova Constituição. Convocar a elaboração de uma nova constituição, não só porque a existente está superada pelas mudanças econômicas, mas porque a aposentadoria da geração histórica tornará imprescindível um modelo institucional que garanta que os dirigentes respondam ao povo e trabalhem tendo como base regras democráticas claras.

3. Reforma eleitoral. Os princípios que regem as eleições municipais (nomeação direta dos candidatos pela população e um mínimo de dois candidatos para cada cargo) devem ser aplicados às eleições provinciais e nacionais. Isso combinado com uma ampliação dos espaços de debate público e a ratificação da regra de no máximo dois mandatos.

Carlos Alzugaray trabalhou em embaixadas cubanas dos anos sessenta aos noventa. É membro do PC desde 1981 e vive em Havana.

David Vázquez, 26 anos, jornalista

1. Modelo. A nova realidade obriga uma aceleração nas mudanças, mas para onde vamos? Qual é o modelo? O que utilizaremos das melhores práticas do capitalismo? Como serão protegidas as conquistas sociais e culturais?

2. Identidade. A abertura econômica e o restabelecimento de relações com os Estados Unidos colocam em risco alguns elementos da nacionalidade e da cultura. Como a Revolução preservará o melhor dessa cultura? Durante anos tentou-se retirar as práticas de mercado de dentro da cultura. Como protegermos esses avanços?

3. Internet. Falta a clareza de que é uma ferramenta extremadamente útil para o desenvolvimento em todas as esferas de um país e que pode fortalecer a participação da população.

David Vázquez é diretor do portal sobre tecnologia e sociedade Cachivache Media e vive em Havana.

Odette Casamayor, 43 anos, acadêmica

1. Eleições. Reconhecer a diversidade de expressão e de filiação política como condição prévia para a convocação de eleições livres.

2. Cotas. É adequado criar um sistema proporcional à composição da população que garanta a igualdade de acesso e oportunidades. Também penalizar as expressões públicas que discriminam gênero, orientação sexual e raça. Dessa forma se evita a divulgação de frases como “Negro, você é sueco?”, manchete de uma crítica contra Obama publicada no jornal Tribuna de la Habana.

3. Expatriados. As draconianas regulamentações atuais devem ser eliminadas e o custo dos trâmites de viagem e passaporte deve ser reduzido – um dos mais caros do mundo – impostos pelo Estado cubano.

Odette Casamayor-Cisneros é escritora e professora de Literatura e Cultura Latino-americanas na Universidade Connecticut. Vive em West Hartford, Connecticut (Estados Unidos).

José Daniel Ferrer, 45 anos, dissidente político

1. Economia. Precisamos de uma reforma que permita retirar nossa pátria da profunda crise fruto das erradas políticas do castrismo, verdadeira liberdade econômica e um marco legal que a proteja e atraia o investimento estrangeiro.

2. Direitos civis. Restabelecer as liberdades fundamentais de expressão, imprensa, associação, reunião e manifestação pacíficas.

3. Eleições. Deve ser criada uma nova Lei Eleitoral que permita eleições livres em 2018, democráticas, plurais, competitivas e justas para que os cubanos possam assumir responsavelmente o caminho que considerarem o melhor.

José Daniel Ferrer é coordenador da União Patriótica de Cuba (UNPACU) e vive em Santiago de Cuba.

Julio César Guanche, 41 anos, acadêmico

1. Debate. Deve existir um reconhecimento crítico pela não divulgação à população dos documentos apresentados ao Congresso e a apresentação do cronograma da reforma constitucional em curso, colocando nas mãos da sociedade a elaboração de propostas.

2. Pobreza. É preciso discutir estratégias para combater a pobreza e a desigualdade.

3. Participação. A transformação do sistema estatal deve ser debatida, assunto sobre o qual os Congressos do PC cubano não se pronunciam a fundo desde 1991 e que precisa de grandes mudanças visado o fortalecimento do poder representativo do Estado.

Julio César Guanche é pesquisador e ensaísta. Vive em Quito (Equador)

Idania del Río, 34 anos, designer

1. Sistema fiscal. É necessário um sistema tributário que permita ao país reter os lucros para investi-los no público, e não que dois ou três ganhem dinheiro sem que isso tenha reflexo na sociedade.

2. Importações. É conveniente a existência de um canal para que o trabalhador possa por conta própria ter acesso a matérias-primas de fora.

3. Internet. Está sendo feito um esforço para que exista banda larga, mas os esforços devem ser duplicados, triplicados para poder trabalhar e comunicar-se com o mundo.

Idania del Río é diretora de criação da confecção Clandestina e vive em Havana.

Sergio Guerra Vilaboy, 66 anos, historiador

1. Transformações. O Congresso dever dar continuidade às positivas e indispensáveis transformações do socialismo cubano para adequá-lo melhor às realidades e complexidades do mundo de hoje, mas sem abandonar as conquistas alcançadas.

2. Estados Unidos. Avaliar o complexo processo aberto rumo à normalização bilateral e sua repercussão no futuro imediato.

3. Substituição. O congresso deve se pronunciar sobre a renovação do alto escalão do governo cubano, pois o próprio presidente Raúl Castro anunciou sua decisão de não continuar no cargo após 2018.

Sergio Guerra Vilaboy é professor de História na Universidade de Havana. É membro do PC desde 1976 e vive em Havana.

Yasmín S. Portales, 36 años, escritora

1. Coletividade. Agora é mais fácil montar uma empresa do que uma cooperativa, e os funcionários no setor privado perdem direitos trabalhistas. Os modelos coletivos devem ter mais apoio.

2. Participação. Nossas regras de participação política são antiquadas, ideológica e tecnologicamente. Para a democracia socialista é imperativo garantir a diversidade de informação, a liberdade de expressão e associação e a interpelação às instituições.

3. Diversidade. As mudanças demográficas de Cuba demandam que outras formas de famílias, transnacionais, homoparentais (mais outras que não conheço, mas existem) sejam reconhecidas em limites flexíveis que protejam todas as pessoas.

Yasmín S. Portales também é ativista LGTB e vive em Havana.

Dagoberto Rodríguez e Marco Castillo, 47 e 44 anos, artistas

1. Pluripartidarismo. Eleições livres e diretas.

2. Economia. É imprescindível uma moeda única e liberdade econômica plena com direito de importação, exportação e investimento ilimitado.

3. Saúde. O Estado esgota seu orçamento em uma assistência de saúde gratuita, mas medíocre. Deve existir uma opção privada tanto em saúde como em educação. Se as pessoas já estão pagando ordenados extras a professores e doutores, por que não torná-lo oficial?

Dagoberto Rodríguez e Marco Castillo formam o Los Carpinteros, grupo de arte contemporânea. Vivem entre Havana e Madri.

Carlos Alzugaray, 72 anos, diplomata

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