Justiça obriga Cristina Kirchner a voltar a Buenos Aires para depor

Ex-presidenta deve depor nesta quarta num processo por supostos prejuízos ao Estado

Uma multidão recebeu a ex-presidenta argentina em Buenos Aires.FOTO: REUTERS | VÍDEO: RICARDO CEPPI

A Justiça obrigou a ex-presidenta argentina Cristina Fernández de Kirchner (2007-2015) a retornar a Buenos Aires, quatro meses depois de deixar o cargo. Kirchner deixou nesta segunda-feira a localidade de El Calafate – que descreve como “seu lugar no mundo” – na Patagônia, rumo à capital argentina. Apesar de ter sido recebida por milhares de seguidores, ela tem poucos motivos para comemorar: nesta quarta, deverá depor no processo que investiga supostas irregularidades nos contratos de dólar futuro operados pelo Banco Central (BCRA) no final de seu mandato, uma das frentes judiciais abertas contra ela.

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O comparecimento de Kirchner aos tribunais tem um alto valor político e simbólico. É a primeira vez que ela é intimada a depor como suspeita em um processo, e será diante do juiz Claudio Bonadío, um dos mais conhecidos da Argentina e muito confrontado com os kirchneristas, a quem a ex-mandatária chegou a definir como “pistoleiro e chantagista”.

Kirchner será a última a depor entre 12 pessoas convocadas. Nesta terça-feira foi a vez do ex-ministro de Economia Axel Kicillof (2013-2015), que apresentou um escrito no qual desvinculou o Estado de qualquer responsabilidade e se negou a responder às perguntas de Bonadío; na semana passada, Alejandro Vanoli, ex-presidente do BCRA, compareceu perante o juiz.

Bonadío investiga uma suposta “fraude contra a administração pública” na qual o Estado teria sido deliberadamente prejudicado pela venda de dólares a um preço inferior ao de mercado. Segundo os denunciantes, o senador macrista Federico Pinedo e o deputado Mario Negri, da União Cívica Radical, o Banco Central vendia aos investidores o chamado “dólar futuro” a 10 pesos, quando os economistas anteviam uma desvalorização, qualquer que fosse o ganhador das eleições presidenciais. Quem comprasse esses “dólares futuro” receberia um valor muito superior à cotação vigente quando os títulos vencessem, em março. O lucro acabou sendo de 50%.

Segundo a denúncia, a manobra causou um forte prejuízo ao Estado, que agora precisa fazer frente aos pagamentos. Desde que Macri tomou posse, em dezembro, 87% das emissões monetárias do BCRA foram destinadas a pagar essas perdas, segundo a acusação.

A defesa tentou sem sucesso afastar Bonadío do caso, como já havia ocorrido em outro processo envolvendo a ex-presidenta, por supostas irregularidades da empresa Hotesur, administradora do hotel de luxo Alto Calafate, propriedade de Kirchner. A Câmara Federal de Recursos ratificou nesta terça-feira a posição do juiz à frente da investigação.

O depoimento de Kirchner será acompanhado diante do tribunal por uma multidão de kirchneristas, que convocaram uma vigília e uma mobilização com o objetivo de demonstrar sua força após meses de letargia. Desde que perdeu o poder, o kirchnerismo sofreu uma cisão na Câmara de Deputados, e no Senado, onde o bloco conserva a maioria, muitos de seus parlamentares – pressionados pelos governadores provinciais, aos quais respondem – votaram a favor de um projeto de lei que autorizou o Governo Macri a se endividar para pagar a fundos abutres, com os quais o Estado tem dívidas atrasadas desde 2001. Paralelamente, há cada vez mais ex-altos funcionários cercados pela Justiça, a começar pelo ex-secretário de Transporte Ricardo Jaime, que está preso.

“Estou tranquila, por que não deveria estar?”, disse Kirchner no avião que a levou à capital. Também parecia despreocupada ao sair para acenar a admiradores da sacada do seu apartamento portenho. Contrariando o que muitos previam, Kirchner recusou-se a disputar outro cargo ao deixar a presidência, e por isso não goza de foro privilegiado. Agora, corre o risco de ser processada, porque Bonadío parece decidido a prosseguir e espera contar com as provas necessárias. Tudo será muito rápido, segundo fontes judiciais.

Além disso, seus problemas judiciais se multiplicam. No sábado passado, um promotor federal pediu para investigá-la, junto com o ex-ministro de Planejamento Federal Julio de Vido, por suposta lavagem de dinheiro. Depois do depoimento de uma testemunha-chave, o promotor Guillermo Marijuán envolveu a ex-presidenta e seu ministro no caso da “rota do dinheiro K”, um processo aberto contra o empresário Lázaro Baez, acusado de enriquecer com a concessão de obras públicas durante o kirchnerismo.

Marijuán revelou nesta terça à imprensa que recebeu ameaças, e uma de suas filhas afirmou nas redes sociais que nem seu pai nem ninguém de sua família tem a intenção de “se suicidar”, numa referência à morte, sob circunstâncias duvidosas, do promotor Alberto Nisman, quatro dias depois de acusar a então mandatária de acobertar terroristas. Transcorridos 14 meses da sua morte, a investigação acaba de passar à Justiça Federal, depois de os juízes arquivarem a denúncia de Nisman contra Kirchner.

Perguntado sobre o regresso da sua antecessora, Mauricio Macri se distanciou e afirmou que durante a ausência dela a equipe de Governo trabalhou com os olhos voltados “para o futuro”.

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