Justiça obriga Cristina Kirchner a voltar a Buenos Aires para depor

Ex-presidenta deve depor nesta quarta num processo por supostos prejuízos ao Estado

Uma multidão recebeu a ex-presidenta argentina em Buenos Aires. FOTO: REUTERS | VÍDEO: RICARDO CEPPI

Mais informações

O comparecimento de Kirchner aos tribunais tem um alto valor político e simbólico. É a primeira vez que ela é intimada a depor como suspeita em um processo, e será diante do juiz Claudio Bonadío, um dos mais conhecidos da Argentina e muito confrontado com os kirchneristas, a quem a ex-mandatária chegou a definir como “pistoleiro e chantagista”.

Kirchner será a última a depor entre 12 pessoas convocadas. Nesta terça-feira foi a vez do ex-ministro de Economia Axel Kicillof (2013-2015), que apresentou um escrito no qual desvinculou o Estado de qualquer responsabilidade e se negou a responder às perguntas de Bonadío; na semana passada, Alejandro Vanoli, ex-presidente do BCRA, compareceu perante o juiz.

Bonadío investiga uma suposta “fraude contra a administração pública” na qual o Estado teria sido deliberadamente prejudicado pela venda de dólares a um preço inferior ao de mercado. Segundo os denunciantes, o senador macrista Federico Pinedo e o deputado Mario Negri, da União Cívica Radical, o Banco Central vendia aos investidores o chamado “dólar futuro” a 10 pesos, quando os economistas anteviam uma desvalorização, qualquer que fosse o ganhador das eleições presidenciais. Quem comprasse esses “dólares futuro” receberia um valor muito superior à cotação vigente quando os títulos vencessem, em março. O lucro acabou sendo de 50%.

Segundo a denúncia, a manobra causou um forte prejuízo ao Estado, que agora precisa fazer frente aos pagamentos. Desde que Macri tomou posse, em dezembro, 87% das emissões monetárias do BCRA foram destinadas a pagar essas perdas, segundo a acusação.

A defesa tentou sem sucesso afastar Bonadío do caso, como já havia ocorrido em outro processo envolvendo a ex-presidenta, por supostas irregularidades da empresa Hotesur, administradora do hotel de luxo Alto Calafate, propriedade de Kirchner. A Câmara Federal de Recursos ratificou nesta terça-feira a posição do juiz à frente da investigação.

O depoimento de Kirchner será acompanhado diante do tribunal por uma multidão de kirchneristas, que convocaram uma vigília e uma mobilização com o objetivo de demonstrar sua força após meses de letargia. Desde que perdeu o poder, o kirchnerismo sofreu uma cisão na Câmara de Deputados, e no Senado, onde o bloco conserva a maioria, muitos de seus parlamentares – pressionados pelos governadores provinciais, aos quais respondem – votaram a favor de um projeto de lei que autorizou o Governo Macri a se endividar para pagar a fundos abutres, com os quais o Estado tem dívidas atrasadas desde 2001. Paralelamente, há cada vez mais ex-altos funcionários cercados pela Justiça, a começar pelo ex-secretário de Transporte Ricardo Jaime, que está preso.

“Estou tranquila, por que não deveria estar?”, disse Kirchner no avião que a levou à capital. Também parecia despreocupada ao sair para acenar a admiradores da sacada do seu apartamento portenho. Contrariando o que muitos previam, Kirchner recusou-se a disputar outro cargo ao deixar a presidência, e por isso não goza de foro privilegiado. Agora, corre o risco de ser processada, porque Bonadío parece decidido a prosseguir e espera contar com as provas necessárias. Tudo será muito rápido, segundo fontes judiciais.

Além disso, seus problemas judiciais se multiplicam. No sábado passado, um promotor federal pediu para investigá-la, junto com o ex-ministro de Planejamento Federal Julio de Vido, por suposta lavagem de dinheiro. Depois do depoimento de uma testemunha-chave, o promotor Guillermo Marijuán envolveu a ex-presidenta e seu ministro no caso da “rota do dinheiro K”, um processo aberto contra o empresário Lázaro Baez, acusado de enriquecer com a concessão de obras públicas durante o kirchnerismo.

Marijuán revelou nesta terça à imprensa que recebeu ameaças, e uma de suas filhas afirmou nas redes sociais que nem seu pai nem ninguém de sua família tem a intenção de “se suicidar”, numa referência à morte, sob circunstâncias duvidosas, do promotor Alberto Nisman, quatro dias depois de acusar a então mandatária de acobertar terroristas. Transcorridos 14 meses da sua morte, a investigação acaba de passar à Justiça Federal, depois de os juízes arquivarem a denúncia de Nisman contra Kirchner.

Perguntado sobre o regresso da sua antecessora, Mauricio Macri se distanciou e afirmou que durante a ausência dela a equipe de Governo trabalhou com os olhos voltados “para o futuro”.

O mais visto em ...Top 50