REUNIÃO DO FMI COM O BANCO MUNDIAL

FMI pede mais munição para salvar a recuperação econômica

A recessão da Rússia e do Brasil, a desaceleração da China, as dúvidas sobre a Europa e o dólar dificultam a reativação econômica

Christine Lagarde, diretora-gerente do FMI.
Christine Lagarde, diretora-gerente do FMI.LUCAS JACKSON (REUTERS)

As coisas não se saíram como o FMI esperava. Depois de uma dura crise de mais de cinco anos, leva pelo menos dois esperando que a recuperação se solidifique, mas esta, longe de fazê-lo, perde vigor, enche-se de dúvidas. “A crise ainda persiste. No entanto, o otimismo está no ar: a etapa de gelo ficou para trás, e o horizonte é mais brilhante. Minha grande esperança é que 2014 se torne importante de outra forma: que seja o ano em que os sete anos de debilidade, em termos econômicos, se transformem em sete anos de bonança”, dizia a diretora-gerente, Christine Lagarde, há quase 30 meses.

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Na semana passada, no tradicional discurso prévio às reuniões de primavera do Fundo, pairava no ar algo muito diferente do otimismo. Lagarde deixou entrever que, uma vez mais, as novas previsões econômicas da instituição sofrerão cortes, acrescidos aos de janeiro, e estes aos de outubro. “O prognóstico global se enfraqueceu em relação aos últimos seis meses, agravado pela desaceleração da China, a queda de preços das matérias-primas e a perspectiva de que as condições financeiras se endureçam para muitos países”, disse.

Em janeiro, o Fundo cortou suas previsões para a economia mundial em dois décimos, até deixar o crescimento de 2016 e 2017 em 3,4% e 3,6%, respectivamente. Manteve os prognósticos para a China, embora tenha dado duas fortes tesouradas na Rússia e Brasil. Aos Estados Unidos restaram também 0,2 ponto porcentual e calculou um avanço de 2,6% em ambos os anos, e a zona do euro melhorou um décimo.

A Espanha piora os maus presságios do Fundo

A Espanha chega às reuniões de primavera de Washington com um desequilíbrio orçamentário pior que o que vaticinava –e contra o qual alertara– o Fundo Monetário Internacional (FMI) e, mais de três meses depois das eleições gerais, com um Governo interino para dar as explicações e um panorama político complexo.

O Fundo não deixou de alertar contra o déficit público da Espanha nos últimos anos e, em cada previsão, deixou claro que iria descumprir a meta de redução da defasagem. Fez isso nas últimas reuniões, as de outubro, realizadas no Peru, quando a situou em 4,4% para 2015 e 3,2% em 2016. Agora se sabe que encerrou o ano passado em 5% do PIB, oito décimos acima do objetivo fixado pela Comissão Europeia.

Em meados do ano também a equipe encarregada de elaborar um documento anual de análises e recomendações, dentro do chamado Artigo IV, pediu medidas adicionais. “Os diretores ressaltaram que manter o ímpeto do crescimento no médio prazo requer consolidação fiscal e reformas firmes”, dizia a carta do conselho executivo que acompanha o relatório.

O chefe da missão do Fundo para a Espanha, Helge Berger, confiava no bom andamento do PIB para melhorar o equilíbrio. “Com um nível de dívida pública perto de 100% do PIB e vulnerável à volatilidade das taxas de juros, a consolidação deverá continuar avançando para canalizar a dívida em uma firme trajetória de baixa. Mas a recuperação facilitará a redução do déficit”, dizia em uma análise. Não foi assim.

E se já faz anos que o FMI pôs a ênfase nos estímulos ao crescimento pela via das políticas fiscal –naqueles países com margem para fazer isso, acrescenta sempre em notas– e monetária, nestas reuniões de primavera está pedindo mais disposição. O Fundo insiste em que sejam levadas adiante as reformas estruturais –na Europa, mais medidas para o emprego, sobretudo entre os jovens; para os exportadores de petróleo, mais diversificação–, mas também uma política fiscal mais favorável ao crescimento econômico.

“A política monetária não pode continuar sendo o alfa e ômega da recuperação. De fato, será muito mais eficaz com apoio de elementos fiscais e estruturais”, ressalta Lagarde.

O órgão com sede em Washington deu apoio a que o Federal Reserve (Fed) elevasse os juros timidamente em dezembro, embora o Banco Central dos EUA deixasse claro que o processo vai ser muito gradual.

Aplaude as taxas negativas

O Fundo aplaude as rodadas de estímulos sem precedentes postas em prática pelo Banco Central Europeu e, em especial, quis dar um respaldo à introdução de taxas negativas nominais por parte tanto do BCE como do Banco do Japão, entre outros. Em março, o eurobanco deixou a taxa da facilidade de depósito (que é a taxa de juros que aplica à liquidez depositada pelas entidades financeiras no BCE) em -0,4% (estava já em território negativo desde junho de 2014), o que lhes encarece ainda mais o depósito e, por tanto, os incentiva a destinarem o dinheiro ao empréstimo a empresas e famílias. O Japão a baixou a -10% em janeiro.

No domingo, o Fundo publicou um relatório que destacava precisamente os efeitos positivos das taxas negativas e defendia seu papel como combustível adicional à já dominante política monetária expansiva. E, claro, insiste também em que as políticas fiscais e as reformas deveriam acompanhar o processo.