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Meu PIB caiu! Brasileiros contam como driblam a recessão

Da saída com os amigos ao plano de internet, brasileiros têm passado a tesoura nos gastos mensais

Economia e PIB brasileiros mudam hábitos de consumo
Adriana Canton e o marido Leo mudaram os hábitos de consumo e lazer. Arquivo Pessoal

Com a crise econômica no seu calcanhar, Quitera de Albuquerque, 62 anos, teve de tomar algumas decisões. Não faz mais compras como antes: trocou o que realmente gosta pelo que cabe no bolso. “Mudei as marcas todas, do feijão ao detergente. A carne, por exemplo, compro a pior mesmo, olho o preço mais barato possível”, conta ela que durante 20 anos foi camelô e atualmente trabalha em uma loja de roupas interiores.

Com sua experiência no ramo, a vendedora usa o comércio como termômetro para avaliar a crise. “Está tudo parado, ninguém está comprando, todos apertados”, conta ela na frente de um supermercado popular na região do Largo da Batata, em São Paulo.

O anúncio do tombo de 3,8% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, no ano passado, apenas confirmou o que a população vêm sentindo na pele, a economia vai de mal a pior.  Segundo os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o consumo das famílias caiu pelo quarto trimestre seguido e registrou um recuo de consumo de 4% em relação a 2014.

Com a estagnação, a forte disparada dos preços, a alta do desemprego e um dólar cotado na faixa de 4 reais, driblar os efeitos da crise tem exigido bastante jogo de cintura. Para não terminar o mês no vermelho, a maioria dos brasileiros tem mudado os hábitos para fazer o salário sobrar até o final do mês.

As idas aos salões de beleza, por exemplo, estão se tornando mais escassas entre as brasileiras. Acostumada a ir uma vez por semana fazer as unhas, a headhunter Tatiana Ramos, de 29 anos, que mora em Belo Horizonte, passou a usar o serviço de manicure de 15 em 15 dias. “Às vezes opto por apenas pintar as unhas no salão já que cobram a metade do preço. O resto eu faço em casa antes. Estou esperando mais tempo para pintar e cortar os cabelos também”, conta.

Além de frear os gastos com beleza, Tatiana também diminuiu a frequência dos happy hours com amigos e colegas de trabalho. Ela também tem tentado sair para bares e festas apenas uma vez no fim de semana.

Essa tendência de queda nos gastos com lazer já foi sentida no ano passado pelo setor.  “Os bares e restaurantes são os primeiros a sentir de forma antecipada. Não só pela crise financeira, mas pela psicológica. Com medo das incertezas, a pessoa mais preocupada não quer gastar tanto com diversão”, explica o presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) de São Paulo, Perciaval Maricato. No fim do ano passado, o setor sofreu uma queda de 10% de faturamento, em relação a 2014, segundo Maricato.

A escalada da inflação que fechou o ano passado em 10,67% e o peso no aumento da tarifa de energia elétrica fez a vendedora Quitera tomar outra atitude radical. Vários eletrodomésticos da casa foram fechados no armário. “Quando vi a conta de luz triplicar tive que ser radical. Guardei tudo: ventilador, forno elétrico, minha esteira de corrida e o ferro. Agora meu estilo é esse, meio amarrotado mesmo”, afirma ela, mostrando uma blusa sem passar.

Sem plano de internet e viagem nas férias

A mineira Nathália Machado decidiu não viajar neste ano.
A mineira Nathália Machado decidiu não viajar neste ano. Arquivo Pessoal

A advogada Nathália Machado, de 30 anos, começou 2016 passando a tesoura nos gastos: saiu das aulas de pilates, reduziu as saídas para bares e restaurantes e decidiu adiar os planos de passar as férias com a irmã em Nova York. Neste ano, a advogada resolveu deixar a casa dos pais e alugar uma apartamento para viver sozinha. O problema é que quando começou a planejar a mudança o cenário era outro. “Na época que eu pensei em sair de casa, fiz um plano considerando minha renda mensal média. Mas este ano alguns contratos do escritório foram reduzidos no valor e a inadimplência aumentou muito, o que alterou a minha renda”, conta Nathália que não quis desistir facilmente de um sonho antigo. “Para dar conta, tive que fazer vários ajustes”. Na casa nova, por enquanto, ela não vai assinar um plano de internet de banda larga e as idas à academia talvez deixem de fazer parte da sua rotina. “Não saí ainda porque paguei o plano anual, mas estou pensando se vou renovar quando vencer. Estou cortando no que é possível”, afirma.

A curitibana Andrea Bravaresco e os dois filhos.
A curitibana Andrea Bravaresco e os dois filhos. Arquivo Pessoal.

Pechincha na mensalidade da escola

Com o aperto no orçamento familiar, a curitibana Andrea Bravaresco, de 39 anos, decidiu mudar o plano da TV a cabo para o mais básico. "Em tempos de crise, resolvemos abraçar o Netflix. Hoje a minha prioridade é o estudo dos meus filhos." Por isso mesmo, apesar da dificuldade de pagar as contas, Andrea nem cogitou em mudá-los de escola, mas pechinchou o preço da mensalidade até conseguir um desconto. No colégio do filho de 12 anos, o desconto foi de 25% e no da criança de 2 anos chegou a quase 15%.

Cinema mudou de dia

Adriana Canton, comerciante no Rio de Janeiro, e o marido Leo, que é chef de cozinha, acreditaram por um instante que sairiam ilesos da crise. Afinal de contas, atendem, em suas respectivas áreas, clientes das classes A e AB, onde a recessão demora bem mais a chegar.  Sentiram, porém, a mudança de clima quando os clientes que davam jantares com frequência e contratavam os serviços de Leo diminuíram. “Outros, pedem para mudar o cardápio. De polvo para massa, por exemplo, para diminuir o custo.” Ao mesmo tempo, as vendas na loja de material de artigos para banheiro de Adriana caíram, o que acarretou num corte de funcionários. “Algumas lojas no shopping onde estamos instalados fecharam por causa da recessão.”

A crise no trabalho bateu na vida doméstica do casal. Viagem ao exterior não é mais opção pelo alto custo das passagens aéreas e a desvalorização da nossa moeda. “Optamos por férias perto de casa. Mudamos hábitos, já não saímos com a mesma frequência para jantar, trocamos algumas marcas de produtos, o plano do celular, e até substituí o chuveiro, para uma marca consciente da economia de água e com menos desperdício.” Até o cinema mudou de dia. “Às quartas, é mais barato.”

Com informações de Carla Jiménez

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