MWC 2016

Nem só de telefones móveis vive o Mobile

Congresso mundial de telefonia compensa escassez de novidades nos ‘smartphones’ com outros itens

“Você percebe que isto não é sobre telefones?”. Uma tela exibe esse slogan em um pátio aberto entre dois pavilhões da Feira de Barcelona. Ele serve para ajudar a entender, no confuso emaranhado de equipamentos que invadiram o Mobile World Congress (MWC), que este evento confia o seu futuro à tecnologia no seu sentido mais amplo.

Realidade virtual: já está aqui, mas ainda é muito cara

A feira CES de Las Vegas fez o anúncio há cerca de um mês, e o MWC confirma: este será o ano em que, finalmente, a realidade virtual deixa a fase de protótipo e entra nos catálogos de venda. Se a Oculus Rift deixou claro que os capacetes serão um produto caro e reservado para os viciados em jogos, a segunda estreia mais aguardada fez aumentar a percepção de que a realidade virtual ainda é um capricho: a HTC apresentou seus óculos VIVE, que custarão 799 dólares (cerca de 3.100 reais) e exigirão um bom equipamento de base. Mais modestos, mas também menos exuberantes que os capacetes, são os óculos criados pela LG. Os coreanos enriquecem o ecossistema da realidade virtual com uma câmera manipulável com apenas uma mão e que grava em 360 graus. Nesse caso, seu uso é doméstico, enquanto que o da Samsung, com uma câmera que grava em 4K, e o da Nokia, com uma hidra que capta os sons de todos os ângulos, foram pensados para os produtores de conteúdo profissionais.

Apresentação do novo Samsung S7 com óculos de realidade virtual.
Apresentação do novo Samsung S7 com óculos de realidade virtual.Gianluca Battista

Vídeo em alta e ‘streaming’ cidadão

O Mobile reuniu mais de 10.000 pessoas que, por causa das greves no transporte e dos engarrafamentos, chegaram esgotadas e confusas ao espaço de exposições de L’Hospitalet, em Barcelona. Do olimpo dos gurus, Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, abençoou a realidade virtual, constatou que o vídeo continuará sendo o conteúdo mais consumido nas redes sociais e filosofou sobre o poder que um simples mortal poderá ter de emitir um vídeo em streaming, e assim roubando esse poder das redes de televisão. O vídeo ao vivo se tornou o novo atributo do homo netizens, esse sujeito que já não está apenas conectado na Internet, mas que também a alimenta permanentemente com conteúdo.

Uso da gravação ao vivo no MWC.
Uso da gravação ao vivo no MWC.Massimiliano Minocri

O modular surpreende mais do que o submergível

A Samsung montou uma loja pop-up em plena Praça da Catalunha, no centro de Barcelona, desafiando o endereço permanente da Apple. A segunda maior vendedora de celulares do mundo não tem por que se sentir decepcionada: seus Galaxy S7 e S7 Edge dominaram a atenção da mídia no congresso com seus 200 GB de memória, imagem melhorada e a possibilidade de ser levado para debaixo d’água. De maneira imprevista, a LG também atraiu uma boa parte do interesse com seu G5, um celular modular e atualizável. O segredo nestes tempos em que a inovação avança a tropeções poderia ser este: se você não consegue oferecer mais e mais megapixels, se não pode fazer com que a bateria realmente aguente um dia a mais, pelo menos diferencie-se. O LG G5 conseguiu fazer isso, e além disso, já inclui o novo adaptador reversível USB-C, diante dos Galaxy e do Sony Xperia, que ainda resistem à mudança.

Apresentação de um terminal submerso.
Apresentação de um terminal submerso.Gianluca Battista

Os ‘wearables’ chegam aos ouvidos e ao peito

O Mobile é uma fábrica de novos anglicismos: enquanto mal temos uma tradução eficiente para wearables, a tecnologia “vestível”, já é preciso nos acostumarmos com os dispositivos hearable (de ouvir, em inglês), que sussurram informações a nossos ouvidos, além de darem instruções e permitirem algo que parecia tão obsoleto, que é falar ao telefone. Google, Apple, Samsung e Microsoft estão trabalhando nesses aparelhos (dos quais espera-se vender 9 milhões de unidades em 2020, segundo a empresa de análise de mercado CCS Insight). Mas quem se mostrou mais confiante no MWC foi a Sony, com seu Xperia Ear e um assistente virtual, apesar de uma bateria limitada a pouco mais de três horas. Além desses equipamentos, outra tendência são as câmeras que podem ser levadas no peito (venda prevista de 25 milhões de unidades em 2020). A ideia é gravar a vida em tempo real: outro pilar no qual se apoia o streaming como tendência.

Uma mulher prova a microcâmera de um celular que permite ver o interior de seu cabelo.
Uma mulher prova a microcâmera de um celular que permite ver o interior de seu cabelo.LLUIS GENE (AFP)

Internet das Coisas: um ‘boom’ que animará o 5G

Em 2020, haverá 50 bilhões de aparelhos conectados à rede. Na densa mata do Mobile, o mais difícil é saber se um novo gadget da Internet das Coisas é uma flor que desabrocha apenas um dia ou se pode se tornar em um ícone de uma nova tendência para a qual é preciso estarmos atentos. Uma coisa é clara: a explosão de dispositivos terá o tamanho que a conectividade permitir. É preciso melhorar as redes e, sobretudo, reduzir a latência, o oposto da fluidez na transmissão de dados. Não se soube durante o Mobile qual será a data prevista da chegada do 5G ao mercado, em 2020, mas ao menos Telefónica, Nokia, Samsung, Intel, Vodafone, Ericsson e Huawei já exibem novos projetos. Zuckerberg mencionou o assunto em seus momentos mais altruístas. “O 5G vai bem, mas é preciso levar a Internet a todo o mundo”.

Stand Ericsson sobre tecnologia 5G
Stand Ericsson sobre tecnologia 5GMassimiliano Minocri

Conectividade ao volante, novidades de segunda mão

Chegar mais rapidamente de casa ao trabalho, apesar de o carro não ser seu. Mark Fields, diretor-executivo da Ford, confirmou que, nas grandes cidades, a posse de um carro continuará relegada ao sentido prático: o que importa é se deslocar mesmo que o veículo não seja de quem o dirige (ou sequer tenha um motorista humano). Entre as aplicações práticas apresentadas no congresso, chamam a atenção os sensores da Fujitsu que vigiam os olhos do condutor e detectam quando ele afasta o olhar da rua. Há também um aplicativo para emprestar as chaves (digitais) do carro a um amigo através do celular. No entanto, não foi apresentado nada que não tenha sido visto antes. Está claro que o MWC não vive só de celulares, mas em termos de tecnologia para carros, é um congresso coadjuvante.

Exemplo de como funciona o carro conectado.
Exemplo de como funciona o carro conectado.Massimiliano Minocri

Arquivado Em: