Obama: “Acho que Trump não será presidente. Isto aqui não é um ‘reality show’”

Numa rara intervenção na campanha, o presidente critica o pré-candidato do partido republicano

Barack Obama, durante a coletiva de imprensa em Rancho Mirage.

É o tipo de intervenção eleitoral pouco habitual em se tratando de um mandatário no exercício do mandato. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, colocou em dúvida na terça-feira a capacidade de Donald Trump, pré-candidato favorito nas primárias republicanas, para exercer o cargo de presidente. Além disso, criticou a retórica desse partido, evitando ao mesmo tempo se posicionar na disputa interna do seu Partido Democrata, mas sem deixar de opinar.

“Continuo achando que Trump não será presidente”, afirmou Obama em entrevista coletiva na localidade californiana de Rancho Mirage. “A razão é que tenho muita confiança no povo norte-americano. Ser presidente é um trabalho sério. Isto aqui não é apresentar um ‘talk-show’ ou um ‘reality show’”, acrescentou, referindo-se a uma das atividades exercidas pelo magnata no campo do entretenimento televisivo.

Trump ficou em segundo lugar no caucus (assembleia eleitoral) de Iowa, primeira etapa do processo que definirá os candidatos a presidente de cada partido, e venceu a eleição primária de New Hampshire. Ele lidera as pesquisas na Carolina do Sul, que faz sua escolha no próximo sábado, e em Nevada, que vota na semana que vem.

“Não se trata de promoção nem de marketing. É [um trabalho] duro. Tem muita gente contando conosco para que façamos as coisas direito”, afirmou Obama. “Quem ocupar a posição na qual estou agora terá consigo os códigos das armas nucleares, pode ordenar que jovens de 21 anos abram fogo, precisa garantir que o sistema bancário não afunde e frequentemente é responsável não só pelos Estados Unidos da América, mas também por outros 20 países que têm grandes problemas, ou que estão se desintegrando, e olham para nós esperando que façamos alguma coisa”.

Obama falou a jornalistas após a reunião da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), realizada pela primeira vez em território norte-americano. Mas o verdadeiro contexto das suas palavras era a batalha política aberta pela repentina morte de Antonin Scalia, juiz conservador da Suprema Corte, encontrado sem vida num quarto de hotel do Texas no último sábado. Poucas horas depois, os candidatos republicanos e senadores desse partido prometiam bloquear qualquer indicado por Obama para substituí-lo, já que uma pessoa de perfil progressista alteraria o equilíbrio do principal tribunal norte-americano num momento delicado, em que várias decisões do presidente dependem da interpretação da Suprema Corte.

“A Constituição é claríssima sobre o que deve acontecer agora. Quando há uma vaga, o presidente precisa indicar alguém, e o Senado deve considerar essa indicação”, disse Obama. “Historicamente, isso é algo que não foi questionado.” Os republicanos, no entanto, argumentam que existe a tradição de não fazer indicações em anos eleitorais. “Acho engraçado ver gente que se autoproclama intérprete rigoroso da Constituição de repente interpretando uma série de condições que não estão dadas”. O golpe deixa em evidência o pré-candidato republicano Ted Cruz, advogado do Estado do Texas perante a Suprema Corte e que se declara, como Scalia, um originalista, no sentido de aplicar a Constituição em sua literalidade do século XVIII, sem adaptar seu conteúdo aos tempos atuais.

Obama certamente tampouco fez favor algum ao senador Marco Rubio quando recordou que ele foi um dos proponentes de uma reforma migratória integral que o próprio Obama apoiava, mas que nunca conseguiu aprovar na Câmara dos Deputados. “Agora foge dela o mais rapidamente que consegue”, disse o presidente. Rubio passa a campanha toda tentando se defender por esse flanco, já que outros candidatos o acusam de ter mudado de opinião na questão da imigração.

O presidente prometeu nomear alguém “indiscutivelmente qualificado” para a vaga na Suprema Corte. Questionado, negou que a feroz oposição republicana acabará por servir como incentivo para que indique alguém com um claro perfil progressista.

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