Crise na Venezuela

Dançando no convés do Titanic

O Governo da Venezuela tem uma capacidade particular para naturalizar o espanto

Venezuelanos fazem fila em supermercado de Caracas, em 12 de fevereiro.
Venezuelanos fazem fila em supermercado de Caracas, em 12 de fevereiro.FEDERICO PARRA (AFP)

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O barco afunda e a elite dança no convés. Alguns agem assim por negação. Se o Titanic é indestrutível, o país com as maiores reservas de petróleo do mundo não poderia ser menos. Outros dançam por convicção, o capitão jamais abandona o navio. O chavismo também não, não teria para onde ir. É uma predestinação, o resultado de uma história com final conhecido e, agora, próximo.

Faça o leitor uma busca nas redes sociais. Uma palavra é "Venezuela". Combine com outras como, por exemplo, "alimentos". Existem inúmeras fotos de prateleiras vazias e longas filas na porta de algum mercado, entre muitos. Talvez naquele dia houvesse farinha ou leite. É a rotina de enfrentar filas e ter de ir de um lugar para o outro. É o desabastecimento como instrumento de controle social.

Cenas que se repetem, mas se alguém voltar na timeline vai notar diferenças. É que a frequência e a extensão das filas têm aumentado recentemente. Pior ainda, as fotos e vídeos de hoje mostram corridas e violência para se entrar nos mercados, bem como roubos de caminhões e supermercados. A antiga passividade das filas se torna a explosão da angústia coletiva acumulada. Tumultos e saques, os primeiros indicadores da fome.

A próxima palavra é "remédios". As redes estão cheias de súplicas. Faz tempo que não há medicamentos para quimioterapia. Mais recentemente, também se registra a falta de analgésicos e antibióticos. Sugiro ao leitor procurar por "Augmentin". É um composto de espectro amplo, que pode ter uso pediátrico, com base na Amoxicilina, um antibiótico tradicional. Não se consegue na farmácia real nem na virtual. Augmentin é trending topic.

Busque agora por "crime" e qualquer um de seus termos relacionados. Aparecem os tuítes dos usuários na linha 1 do metrô de Caracas. Relatam a entrada de uma gangue no trem, a subsequente interrupção da energia elétrica, o pânico, a correria nos trilhos escuros. Continuam com o roubo e a impunidade posteriores, ao chegar ao local autoridades de segurança que não conseguiram prender os criminosos. Ou que nem tentaram, não há como saber com certeza. Caracas é a cidade mais violenta do planeta.

"Havendo fome, doenças e medo, não é descabido pensar em uma crise de refugiados na Venezuela"

As comparações podem ser odiosas e a estigmatização, inadmissível, mas é impossível não pensar na Síria, uma tragédia humanitária que se desenvolve em câmera lenta aos olhos da comunidade internacional, que fez muito pouco, muito tarde. Uma tragédia que se mede em meio milhão de vítimas e mais de quatro milhões de refugiados.

A Venezuela não está em guerra – convencional, na verdade – mas exibe uma vasta destruição material, uma profunda ruptura do tecido social e uma crise humanitária em surgimento. O número de vítimas do crime é a sua guerra e o regime já provocou uma crise de refugiados no passado, em Táchira, em 2015. Havendo fome, doenças e medo, não é descabido pensar em outra. Quantos serão é a questão, e com qual consequência para a estabilidade da região.

A elite governante nega. Exígua em botes salva-vidas, dança. A oposição tenta dar respostas, mas às vezes também está no modo de negação, sem terminar de entender a magnitude dessa bomba-relógio. Em parte se compreende: como se faz para ser oposição ao chavismo? O governo tem a incrível capacidade de naturalizar o espanto. Age como se as coisas seguissem o seu curso normal. Até emite decretos, em um país que se dissolve e em que os prisioneiros políticos permanecem em suas celas. Não se pode esquecer isso.

Como na Síria, a comunidade internacional continua sem fazer o que é necessário. Luis Almagro tem sido um democrata, é preciso enfatizar, revitalizando uma OEA moribunda e travando sua própria batalha pela liberdade e pelos direitos, mas em solidão quixotesca. Unasul e Celac atuam como uma tela de Maduro, não pela ideologia, mas por medo do efeito dominó da sua queda. A Colômbia, além disso, precisa dele porque Maduro é um dos garantidores do plano de paz. Assim mesmo como soa.

Para piorar, há eleições na Organização das Nações Unidas e talvez ninguém tenha incentivos para incomodar o governo da Venezuela. É a vez da Europa, mas alguns dizem que a ministra das Relações Exteriores colombiana gostaria de ser a primeira mulher Secretária-Geral. O raciocínio pode ser míope, em excesso, mas não por isso é incomum. Acontece que a Venezuela está no Conselho de Segurança. Não paga suas taxas com o organismo, de forma que não pode votar na Assembleia Geral, mas vai passar o ano inteiro no Conselho, sem perder o voto lá e presidindo o colegiado no mês de fevereiro.

Essa sim é uma estranha forma de fazer com que as coisas sigam seu curso normal, dançando no convés da primeira classe enquanto o navio afunda.

@hectorschamis