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Uma pequena ‘idade do gelo’ pode ter mudado a história da Antiguidade

Nos séculos VI e VII, a temperatura caiu até 4ºC no verão, afetando civilizações na Europa e Ásia

Mural mostrando o cerco de Constantinopla, em 626, pelos persas e ávaros.
Mural mostrando o cerco de Constantinopla, em 626, pelos persas e ávaros.

A Praga de Justiniano, a invasão da Europa por vários povos das estepes, a queda do segundo império persa, a entrada dos turcos na Anatólia, a união dos três reinos da China, o início da expansão árabe. Todos esses eventos aconteceram entre 540 e 660 da era comum. Agora, um estudo das árvores mostra que durante esse século houve uma idade do gelo em que a temperatura caiu até 4ºC no verão e aquele o frio pode ter marcado a história.

Nos últimos 2.000 anos aconteceram várias anomalias climáticas. Do lado do frio, a mais significativa foi a chamada Pequena Idade do Gelo (PIG), que começou no século XV e terminou em meados do século XIX. Antes, o clima foi particularmente quente desde a época do Império Romano até a chegada do Renascimento. No entanto, nesses 1.500 anos de clima ameno, houve um hiato que, embora mais curto em extensão do que a PIG, experimentou temperaturas ainda mais baixas. Aqueles que o descobriram o chamaram de LALIA, sigla em inglês de Pequena Idade do Gelo da Antiguidade Tardia.

“Foi o esfriamento mais drástico no hemisfério norte nos dois últimos milênios”, diz em um comunicado o pesquisador do Instituto Federal Suíço de Pesquisa, Ulf Büntgen, coautor de uma pesquisa sobre a temperatura nos últimos 20 séculos. Büntgen é dendroclimatologista e usa os padrões de crescimento dos anéis das árvores para inferir a temperatura. Em 2011, publicou na revista Science uma pesquisa sobre o clima do passado com base no que pôde ler nas árvores dos Alpes austríacos. Agora completa aquele trabalho com a informação que arrancou de 660 alerces siberianos (Larix sibirica), a árvore mais abundante no Maciço de Altái, na Ásia Central.

A estimativa de temperatura é baseada no estudo dos anéis de árvores dos Alpes e do Maciço de Altái

Entre as duas fontes de dados há a cerca de 7.600 quilômetros, mas também uma sincronia que imediatamente chamou a atenção de Büntgen e seus colegas. As Larix sibirica só crescem no verão e seu ritmo de crescimento permite que os dendroclimatologistas estimem a temperatura estival. Para validar suas estimativas do passado, os cientistas usaram a evolução dos anéis no presente, quando já havia bons registros de temperatura.

Com dados de Altái e os anteriores dos Alpes, os cientistas foram capazes de determinar a evolução das temperaturas de verão nestes 2.000 anos dentro de um projeto ainda maior, que há alguns dias mostrou como as últimas décadas foram as mais quentes desde os tempos dos romanos.

O estudo atual, publicado na revista Nature Geoscience, se detém mais no frio do que no calor. Nas árvores de Altái, os climatologistas descobriram que os verões mais frios foram os de 172 e 1821, com temperaturas 4,6ºC abaixo da média do final do século XX. As duas datas coincidem com erupções vulcânicas intensas.

Mas o que chama a atenção no gráfico elaborado pelos autores do estudo é a queda acentuada e sustentada das temperaturas a partir de 536. Assim, a década entre 540 e 550 foi a mais fria em Altái e a segunda mais fria nos Alpes. Além disso, a partir dessa data e até por volta de 1660, ocorreram 13 das 20 décadas mais frias de todo o período estudado.

Gráfico da evolução da temperatura durante LAILA (azul) nos Alpes e Altai. Abaixo, a correlação de eventos históricos.
Gráfico da evolução da temperatura durante LAILA (azul) nos Alpes e Altai. Abaixo, a correlação de eventos históricos.

A origem da LALIA não está inscrita nas árvores, mas no gelo. Um estudo publicado na revista Nature no ano passado determinou as erupções vulcânicas dos últimos 2,5 bilhões de anos medindo as cinzas vulcânicas presas em cilindros de gelo extraídos nos dois polos. Uma das mais intensas ocorreu em 536. Foi seguida por outra, quatro anos mais tarde, no que é hoje El Salvador. E ainda houve uma terceira, cuja localização é desconhecida, em 447. As duas primeiras criaram, de acordo com registros no gelo, verdadeiros invernos vulcânicos, com uma capacidade de refletir a radiação solar ainda maior que a da erupção do vulcão Tambora em 1815.

A sucessão de erupções vulcânicas, de acordo com os autores, foi reforçada pelas correntes oceânicas, pela expansão do gelo e pela coincidência no século VI de um mínimo solar. O resultado foi uma queda acentuada das temperaturas. Na verdade, essas décadas registraram um grande declínio nas terras dedicadas à agricultura e pastagem.

A erupção sucessiva de três vulcões causou a pequena idade do gelo

Na segunda parte do estudo, Büntgen se cerca de historiadores linguistas e naturalistas para relacionar a LALIA com a história dos seres humanos. É muito sugestivo comprovar como logo após a primeira erupção explodiu uma das maiores epidemias de peste, a praga de Justiniano, no que era então o Império Romano do Oriente. Na Ásia Central, onde os pastos dependem de pequenas variações de temperatura, aconteceram grandes movimentos de populações turcas e rouran que desestabilizaram toda a Eurásia. A leste, elea acabaram com a dinastia Wei e, indiretamente, ajudaram a unificação da China. No oeste, chegaram até Constantinopla, empurrando os povos que encontravam cada vez mais para o oeste.

Durante a LALIA também entrou em declínio o império persa dos sassânidas. Na Península Arábica, as temperaturas mais amenas puderam aumentar o regime de chuvas e, com elas, a disponibilidade de pastos para alimentar os camelos com os quais os árabes se expandiram a partir da Hégira de Maomé.

“Com tantas variáveis, devemos ser cautelosos com a causa ambiental e o efeito político, mas é fascinante ver como as mudanças climáticas se alinham com as grandes convulsões que ocorreram em diferentes regiões”, diz Büntgen. Também deixa claro que a história não pode ser escrita sem levar em conta fenômenos climáticos como a LALIA.

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