Coreia do Norte desafia a comunidade mundial com míssil

País lança foguete de longo alcance e provoca sérias reações do Conselho de Segurança da ONU

O míssil, no momento do lançamento.

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Depois de vários dias de advertências, a Coreia do Norte lançou neste domingo um foguete de longo alcance, que o país diz poder colocar um satélite no espaço, mas que outras nações consideram ser um teste encoberto de um míssil balístico. Em um anúncio pela televisão, a apresentadora norte-coreana Ri Chun Hui declarou que o lançamento tinha sido um sucesso e o satélite de observação Kwangmyongsong (“Estrela brilhante”) permaneceu em órbita.

Trata-se da segunda ocasião em que a Coreia do Norte consegue lançar um foguete de longa distância, depois do teste do foguete Unha-3 em abril de 2012. O êxito aproxima o país um pouco mais de sua meta de contar com mísseis de longo alcance que lhe permitam alcançar território dos Estados Unidos, que consideram seu grande inimigo.

O lançamento ocorre apenas um mês depois de o regime norte-coreano realizar seu quarto ensaio nuclear, em 6 de janeiro, no qual garantiu que havia detonado pela primeira vez uma bomba de hidrogênio. Essa declaração foi posta em questão por numerosos especialistas, que consideram que a força da explosão não corresponde à de uma bomba termonuclear.

Condenação ocidental

O secretário geral da OTAN, Jens, Stoltenberg, condenou o lançamento de um foguete de longo alcance pela Coreia do Norte e pediu que os norte-coreanos se abstenham de novas ações que possam ser vistas como provocações. Stoltenberg reafirmou em um comunicado sua "firme condenação" ao lançamento do foguete que, lembrou, foi feito pouco tempo depois do ensaio nuclear do dia 6 de janeiro. "A OTAN continua pedindo às autoridades norte-coreanas que cumpram com suas obrigações com o Direito internacional e que não ameacem ou conduzam lançamentos fazendo uso de tecnologia de mísseis balísticos", acrescentou Stoltenberg.

Somou-se também à condenação a alta representante da UE, Federica Mogherini, que acusou a Coreia do Norte de ameaçar com suas ações a paz internacional.

Na Alemanha, o ministro de Assuntos Exteriores, Frank-Walter Steinmeier, também se somou às críticas: "Condeno contundentemente o lançamento de um míssil balístico por parte da Coreia do Norte. O país ignorou de novo as advertências da comunidade internacional".

Por sua vez, os ministros de Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, e de Reino Unido, Philip Hammond, mantiveram conversas com seu homólogo japonês, Fumio Kishida, para comentar o lançamento do míssil intercontinental por parte da Coreia do Norte.

O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, e o chefe da diplomacia chinesa, Wang Yi, haviam se reunido na última semana de janeiro em Pequim para buscar um acordo sobre a imposição de sanções internacionais em sinal de condenação a essa prova nuclear. O encontro, de mais de quatro horas, terminou sem que ambas as partes conseguissem aproximar posições.

O lançamento deste domingo teve lugar às 9 horas (22h30 de sábado em Brasília), aparentemente a partir das instalações que a Agência de Desenvolvimento Aeroespacial da Coreia [do Norte] tem em Sohae, no oeste do país. As imagens que a televisão norte-coreana transmitiu mostram o lançamento de um foguete branco de três estágios enquanto o líder supremo do país, Kim Jong-un, supervisiona a operação do centro de comando e é ovacionado por seus assessores. Outras fotografias o mostram olhando o sobrevoo do foguete e apontando para o céu.

Em um comunicado distribuído pela agência norte-coreana de notícias, a KCNA, a entidade aeroespacial confirmou o “completo êxito do lançamento do Kwangmyongsong-4, fruto orgulhoso da política do Partido dos Trabalhadores da Coreia [do Norte] de conceder grande importância à ciência e à tecnologia”. O satélite, segundo Pyongyang, completa uma órbita polar da Terra a cada 94 minutos.

Em seu percurso, na direção sul, o foguete sobrevoou espaço aéreo japonês perto da ilha de Okinawa. Segundo o Governo japonês, o primeiro estágio do foguete caiu no mar Amarelo, a cerca de 150 quilômetros da península coreana. Um segundo objeto foi parar no mar do Leste da China, a 250 quilômetros do território coreano, e o segundo estágio do foguete afundou a 2.000 quilômetros do Japão, em águas do Pacífico.

A Coreia do Norte havia anunciado o lançamento do foguete em datas entre 8 e 25 de fevereiro, mas no sábado antecipou as previsões para o período entre 7 e 14 de fevereiro, aparentemente para aproveitar o tempo bom e o céu limpo.

“Esse tipo de lançamento requer boas condições atmosféricas e é melhor aproveitá-las enquanto se dão, em vez de possivelmente perder a oportunidade”, declarou na página da NK News na Internet o diretor de Inteligência desse portal especializado em informação da Coreia do Norte, John Grisafi.

A Coreia do Sul confirmou que o foguete pôs um objeto em órbita, e o Comando Estratégico dos EUA afirma ter detectado a entrada de um míssil no espaço. Para Washington, porém, o lançamento ou o foguete não representem um perigo para si ou seus aliados.

Reunião na ONU

Após o lançamento do foguete norte-coreano, o Conselho de Segurança da ONU se reuniu no domingo, em regime de urgência, para discutir o que aconteceu. O incidente serviu para acelerar a resposta já prometida após o teste nuclear realizado há um mês por Pyongyang, afirmou o correspondente do EL PAÍS Joan Faus de Washington.

Os 15 membros do Conselho de Segurança “condenaram firmemente” o lançamento e prometeram tomar “medidas significativas” em resposta às “sérias e perigosas” violações das resoluções da ONU contra o programa nuclear norte-coreano que proíbem testes secretos de mísseis balísticos, segundo falou a repórteres na sede da ONU em Nova York, o embaixador venezuelano Rafael Darío Ramírez Carreño, que preside o Conselho este mês.

Desde 2006, a ONU adotou quatro resoluções com sanções contra Pyongyang que impõem proibições à venda de armas e o acesso aos mercados financeiros, além de congelar ativos e impedem que determinados funcionários possam viajar. As resoluções não impediram que o país asiático continue fazendo testes nucleares e balísticos.

Ramírez Carreño não deu detalhes sobre as novas medidas além de dizer que uma resolução seria aprovada “rapidamente”. A embaixadora dos EUA na ONU, Samantha Power, comprometeu-se a impulsionar “o mais rápido possível” um “pacote duro e completo” de sanções e confiou que os outros membros do Conselho iam fazer o mesmo.

A questão é a China, um aliado próximo da Coreia do Norte e que, como os EUA, tem poder de veto no Conselho. Depois do teste nuclear de 6 de janeiro, Washington e Pequim negociam uma resolução com sanções contra Pyongyang.

Reação asiática

O primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, qualificou o lançamento deste domingo como “completamente inaceitável”. “Tomaremos medidas decisivas, em cooperação com a comunidade internacional. Também temos intenção de adotar todas as medidas possíveis para garantir a segurança e a tranquilidade do povo japonês”, ressaltou, em uma coletiva de imprensa.

Em Seul, a presidenta Park Geun-hye definiu o teste como uma provocação imperdoável, e seu ministro de Relações Exteriores, Yun Byung-se, afirmou que serão redobrados os esforços para impor sanções contra seu vizinho do norte, informa a Reuters, Kerry reiterou o compromisso de seu país com a defesa da Coreia do Sul e do Japão, e qualificou o lançamento como um desafio inaceitável à paz e segurança.

A China, o grande aliado do regime de Kim, reagiu de maneira muito mais moderada e se limitou a expressar, em um comunicado de seu Ministério de Relações Exteriores que “lamenta” o lançamento.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, qualificou a ação como “profundamente lamentável”. Comandos da defesa da Coreia do Sul e dos EUA anunciaram que começarão conversações formais para posicionar um sistema antimísseis na península coreana, o que a China rejeita taxativamente. O sistema THAAD pode detectar múltiplos mísseis a uma distância de 2.000 quilômetros e colocaria a seu alcance objetivos bem no interior do território chinês.