Narcotráfico

Descobrimos as verdadeiras causas dos crimes na Cidade do México. E não é o que você pensa

As gangues de narcotraficantes são apenas parte do problema. A desestruturação familiar é um índice muito mais forte para crimes violentos

Torcedor mexicano tira máscara do narcotraficante 'El Chapo' Guzmán.
Torcedor mexicano tira máscara do narcotraficante 'El Chapo' Guzmán.Orlando Barría (EFE)

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Todo mundo conhece o problema de criminalidade enfrentado pelo México. A captura de Joaquin “Chapo” Guzman é mais um desagradável lembrete da guerra às drogas travada pelo país há mais de uma década. Desde 2006, foram mais de 100 mil mortes, muitas em grandes tiroteios. Algumas fontes estimam que um terço de todos os assassinatos cometidos no país podem estar relacionados ao crime organizado, já que envolvem armas de alta potência, tortura e a utilização de narcomensajes. Ninguém sabe os números exatos.

O problema da violência do país, porém, é mais complexo que as sangrentas disputas entre bandidos rivais em cidades como Juarez, Tampico e Tijuana. De acordo com o Instituto Nacional de Estatística do México, cerca de um quarto de todos os adultos no país foram vítimas de violência em 2014. Um em cada dois disseram que pararam de sair à noite por medo de serem assaltados ou coisa pior. Pelo menos um milhão de mexicanos mudaram de casa para fugir de bairros assolados pela criminalidade.

Na capital, com uma população de 20 milhões de pessoas ainda em expansão, a situação é diferente. Mas algo de novo está acontecendo. A Cidade do México testemunhou um acentuado aumento de criminalidade nos últimos anos. O número de homicídios cresceu mais de 20% em 2015, um nível não atingido desde 1998. Estudos recentes mostram que um terço da população já foi vítima de algum crime e dois terços não confiam na polícia local.

A onda de crimes da Cidade do México está tomando a todos de surpresa. A capital é em geral considerada mais segura que a maioria das demais no país. Apesar dos mais de um bilhão de dólares gastos em segurança pública no ano passado, o problema da violência parece estar piorando. O que todos se perguntam é: o que está provocando essa insegurança crônica na Cidade do México?

As notícias atribuem a crescente criminalidade na capital a brigas entre os cartéis, gangues, milícias e policiais corruptos. Uma revisão crítica do Centro de Investigación y Docencia Económicas (Cide) e do Instituto Igarapé contesta essa visão. O estudo - Where Does This Criminal Violence Come From? - analisa as correlações do crime na cidade. Como se esperava, a violência é hiper-concentrada em bairros muito específicos da cidade. Mais de 50% de todas as investigações policiais ocorreram em apenas 20 dos 76 bairros da cidade. Uma verificação estatística revelou que são 10 os locais mais críticos, quase todos eles dentro do distrito federal, representando mais de um quarto de todos os crimes.

Ainda mais importante, o estudo detecta uma relação muito forte entre áreas de alta criminalidade e o que os criminologistas se referem como "desorganização social" e "anomia institucional". Resumindo, as taxas de criminalidade estão diretamente relacionadas com o subdesenvolvimento, a desigualdade de renda, índices de comparecimento às urnas e, em especial, ao grau de coesão familiar.

Várias implicações para as políticas emergem do estudo. A mais importante é o fato de que as gangues de narcotraficantes são apenas parte do problema. A desestruturação familiar, incluindo o número de famílias chefiadas por mulheres, por exemplo, é um índice muito mais forte para crimes violentos. E a desestruturação familiar está crescendo rapidamente na Cidade do México, o que significa que as autoridades precisam investir mais seriamente em habilidades parentais e assistência à infância.

A grande mensagem da pesquisa é que a prevenção da criminalidade na Cidade do México deve combinar a aplicação da lei com políticas preventivas que consigam frear a desestruturação de famílias e oferecer ajuda direcionada. Legisladores devem evitar a tentação de optar por mais policiamento, a imposição de penas mais rigorosas, e o aumento do número de prisões. Consegue-se obter maiores dividendos em termos de redução de criminalidade com esforços direcionados para melhorar a vida e as oportunidades das famílias trabalhadoras e jovens desassistidos.

Robert Muggah é o diretor de pesquisa do Instituto Igarapé.

Carlos Vilalta é professor de pesquisa e estatística do Centro de Pesquisa e Docência Econômicas, na Cidade do México.