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Hollande e Castro dão novo passo nas relações bilaterais

Presidente cubano faz sua primeira visita oficial a um grande país europeu

Raul Castro e François Hollande, em maio em Havana.
Raul Castro e François Hollande, em maio em Havana. AFP/Getty Images

O presidente de Cuba, Raúl Castro, já está em Paris. Chegou no sábado à capital francesa, em estadia particular, e nesta segunda-feira começa uma visita oficial considerada histórica pelas duas partes. É a primeira vez em 21 anos que a França recebe um presidente cubano. Atualmente, com os embargos comerciais caindo um por um, Castro e o presidente da França, François Hollande, mostram sua determinação de aproveitar as vantagens trazidas aos dois países pela abertura econômica da ilha. O perdão parcial da dívida cubana por parte da França, sua principal credora, acelera o processo.

Raúl Castro retribui esta semana a visita ao socialista François Hollande, que foi o primeiro mandatário ocidental a ir a Havana, em maio de 2015, depois do acordo de normalização de relações assinado com os Estados Unidos. “O embargo e o isolamento de Havana não deram resultado”, é a explicação do Eliseu, sede da Presidência da França. “As trocas bilaterais oferecem uma oportunidade.” O Governo francês privilegia sua relação com Cuba porque valoriza também sua enorme influência no resto da América Latina.

Em maio, Hollande e Castro combinaram renegociar a dívida do país caribenho. A partir de então, a França lutou no seio do Clube de Paris (que agrupa 16 países ricos credores de dívida oficial, não privada) para conseguir isso, e o acordo foi assinado em meados de dezembro.

A dívida de Havana com o Clube chega a quase 48 bilhões de reais, dos quais cerca de 18 bilhões de reais correspondem à França. Pelo acordo, são cancelados perto de 35 bilhões de reais em juros vencidos (Cuba deixou de pagar em 1986), e Havana se compromete a pagar o principal (perto de 11 bilhões de reais) em 18 anos. Parte da dívida pendente com a França (1,5 bilhão de reais) será empregada em programas conjuntos de desenvolvimento na ilha. Paris está acelerando a operacionalização em Cuba da Agência Francesa de Desenvolvimento para poder implantá-los.

Independentemente do acordo com o Clube de Paris, no início de novembro a Espanha também renegociou a dívida de Cuba (quase 820 milhões de reais), perdoando a totalidade dos juros e parte do principal. Havana pagará em 10 anos o que restou.

Esses acordos permitem o retorno à ilha dos operadores estrangeiros, embora muitos não a tenham deixado. A presença do capital francês em Cuba não tem o mesmo nível do espanhol, mas o estreitamento das relações bilaterais e o vigor das empresas gálicas podem multiplicar de forma notável as trocas comerciais. Paris tem como exemplo de boa cooperação a já veterana associação da Pernod-Ricard com o rum Havana Club.

Entre as maiores firmas francesas que atuam na ilha estão também Accor, Bouygues, Total, Alstom, Air France e Alcatel-Lucent. Essa última instalou o cabo submarino de fibra ótica que une Venezuela e Cuba. Além disso tudo, ambos países colaboram em pesquisa médica (o ebola, basicamente), e a França tem na ilha duas unidades da Aliança Francesa: uma em Havana e outra em Santiago.

Para Cuba, não há dúvida de que a visita tenha particular importância em relação a sua volta ao cenário internacional. Havana acredita que a visita permitirá a Cuba “ampliar e diversificar suas relações com a França em todas as áreas possíveis: política, economia, comércio, finanças, investimento, cultura e cooperação”, afirmou na semana passada aos meios de comunicação o vice-ministro de Assuntos Exteriores cubano, Rogelio Sierra.

É a primeira visita de Estado de Castro à Europa, caso se exclua sua viagem ao Vaticano, desde que sucedeu a seu irmão Fidel na liderança cubana, em 2006. Fidel Castro visitou a França em 1995, reunindo-se com o então presidente François Mitterrand.

Hollande receberá Raúl Castro nesta segunda-feira sob o Arco de Triunfo, na ponta da Champs-Elysées, já cobertos por bandeiras cubanas.

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