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Um guia para entender quem é quem no complexo conflito da Síria

Eis as forças que participam do conflito face a um possível cessar-fogo

Guerra en Siria
Combatente do Jaysh al-Islam nas proximidades de Damasco. AFP

Perto de completar cinco anos, com mais de 260.000 mortos, o tabuleiro das alianças no conflito sírio sofreu grandes transformações. A principal facção armada de oposição em 2011, o Exército Livre da Síria, se tornou uma das mais fracas, perdendo militantes em uma progressiva islamização e atomização do grupo rebelde. A crescente interferência de atores externos complica a definição de uma solução militar, além de exigir uma saída política negociada em diferentes níveis: nacional, regional e internacional. As negociações com o Irã marcam um evidente retrocesso na rivalidade Teerã-Riad, cujas consequências ainda estão por vir. Os avanços das Unidades de Proteção Popular curdas contra o Estado Islâmico (EI), apoiadas pelos Estados Unidos, preocupam Ankara, que realiza a sua própria guerra contra os turcos no sul da Turquia. No plano internacional, a Síria se torna o novo tabuleiro de rivalidades na Guerra Fria renovada travada pelos Estados Unidos e Rússia. Ao mesmo tempo, o vertiginoso avanço do EI e sua internacionalização com os atentados em Paris conseguiram reunir sobre o território sírio os atores que se enfrentam em nível internacional em uma nova e prioritária luta contra o terrorismo.

Estes são os atores que participam do conflito sírio, dentre os quais ainda falta definir quais farão parte da relação de negociadores e quem engrossará a dos grupos terroristas, condição para que se imponham uma trégua defendida pelas Nações Unidas e um roteiro para as próximas negociações de Genebra propostas para o final desta semana.

GRUPOS SÍRIOS

Exército Árabe Sírio

O presidente Bashar al-Assad dirige o Exército sírio desde que substituiu seu pai, Hafez al-Assad, na presidência do país em junho de 2000. Conta com algo entre 178.000 e 220.000 membros. Controla as maiores cidades do país, como Damasco, Homs, Latakia, Tartus, Hama e parte de Alepo, assim como as estradas que conectam umas às outras.

Forças Nacionais de Defesa

Criadas pelo Governo sírio em 2012, são consideradas um braço do Exército sírio integrado por voluntários e soldados da reserva, remunerados e armados pelo Governo sírio. Diferentemente dos Comitês Populares, essas forças atuam nas operações bélicas. Possuem entre 80.000 e 100.000 combatentes.

Comitês Populares

Surgiram durante a guerra civil síria para proteger os bairros nos territórios sob controle do regime de Damasco. Trata-se, geralmente, de moradores armados, treinados e remunerados pelo regime alocados nos controles de passagem erguidos nas áreas onde vivem as minorias cristãs, drusas e alauitas. Eles existem também nas zonas sunitas.

ALIADOS REGIONAIS

Hezbolá (Partido de Deus)

Combatentes pró-regime, nas proximidades de El Bab, na província de Alepo, ao norte do país.
Combatentes pró-regime, nas proximidades de El Bab, na província de Alepo, ao norte do país. AFP

É um partido-milícia xiita libanês criado inicialmente com apoio sírio durante a guerra civil libanesa em 1982 para enfrentar as tropas israelenses. Posteriormente, passou a ser financiado e apoiado pelo Irã e dirigido por Hassan Nasrallah. Em suas fileiras, combatem de 8.000 a 10.000 milicianos. Tem forte presença na faixa ocidental que faz fronteira com o Líbano, em Alepo, em Latakia, na periferia de Damasco e no sul do país.

Partido Social Nacionalista Sírio (SSNP)

Partido secular fundado em 1932 no Líbano, com ramificações na Síria e no Iraque. Ideologicamente, defende a unidade da Grande Síria. Conta com algo entre 6.000 e 8.000 homens na frente de batalha da faixa ocidental da fronteira com o Líbano, em Alepo, em Latakia e no sul do país.

República Islâmica do Irã

Firme aliado de Damasco, presta apoio econômico e militar, fornecendo armamentos a Damasco. Também contaria com vários milhares de homens da Guarda Republicana iraniana no terreno, sob a forma de apoio tático e militar. Estes coordenariam também a seção iraquiana que combate na Síria ao lado das tropas regulares.

Os grupos insurrectos, especialmente os islamistas e jihadistas, recebem financiamento dos países do Golfo, principalmente do Catar e da Arábia Saudita. A Turquia se mostrou essencial para o transporte e a logística desses grupos até que células terroristas começaram a atuar no seu território.

ALIADOS INTERNACIONAIS

Federação da Rússia

Moscou se mostrou um aliado consistente do Governo de Damasco desde o início do conflito, em 2011, mantendo um apoio político e diplomático que remonta à Guerra Fria. Trata-se do principal fornecedor de armas para o Exército sírio. Segundo os especialistas, o país conta com milhares de homens no terreno, entre especialistas, conselheiros e militares uniformizados. Desde setembro do ano passado, sua força aérea vem bombardeando posições do EI e de outras facções insurrectas em território sírio ao lado do Exército regular. Contaria com uma presença militar aérea em Damasco, Homs, Latakia e, mais recentemente, em Hassake. Além da presença marítima na localidade litorânea de Tartus.

APOIOS DAS MINORIAS DA SÍRIA

Unidades de Proteção Popular curdas (YPG, na sigla em curdo)

Milícia armada que atua sob o comando do Comitê Supremo Curdo na região de Rojava (Curdistão sírio, ao norte do país, na fronteira com Turquia e Iraque). Trata-se de um movimento de esquerda conhecido pela ampla participação de mulheres, tanto no partido quanto no seu braço armado.

Recebe treinamento militar e armamentos do Partido dos Trabalhadores do Curdistão da Turquia (PKK), assim como dos Estados Unidos. Apesar dos crescentes enfrentamentos com o Exército sírio, colaborou com ele na luta contra o EI em regiões como Hassake, no nordeste do país. Compõe a principal força das Forças Democráticas Sírias, criadas em outubro do ano passado para expulsar o EI e que reúnem também combatentes árabes sunitas e cristãos, bem como assírios e turcomanos. São também aliados do Conselho Militar Assírio, criado em 2013 para proteger áreas assírias de Hassake contra os jihadistas.

Contam com algo entre 40.000 e 50.000 combatentes. Desde outubro de 2014, cerca de 400 combatentes internacionais teriam se somado ao YPG, na brigada internacional Os Leões de Rojava.

Palestinos

A Síria conta com uma população de entre 400.000 e 500.000 palestinos. A grande maioria apoia o Governo de Damasco, gozando de status e direitos quase idênticos aos dos cidadãos sírios.

Frente Popular para a Libertação da Palestina – Comando Geral (FPLP-CG)

Criada em 1968 sob a liderança de Ahmed Jibril, possui um braço armado que combate nos campos de refugiados palestinos ao lado do regime sírio. Comanda a luta no campo de Yarmouk, na periferia sul de Damasco. Os palestinos da Síria formam um ramo especial do Exército sírio denominado Exército de Libertação da Palestina, que combate junto às tropas regulares.

Aknaf Bait al-Maqdis

Um sírio anda de bicicleta no bairro de Hazeh, região leste da capital, Damasco.
Um sírio anda de bicicleta no bairro de Hazeh, região leste da capital, Damasco. AFP

Milícia insurgente palestina que inicialmente lutou contra o Exército sírio e a FPLP-CG em Yarmouk, para mais tarde somar-se a estes últimos contra a investida da Al Qaeda e do Estado Islâmico (EI).

Drusos

A Síria tem uma população drusa de meio milhão de pessoas, principalmente na província de Sueida, no sul do país. Assim como os cristãos, a maioria dos líderes religiosos apoia o Governo de Damasco. O xeque Walid al-Balous foi o único que levantou a voz contra os rebeldes e também contra as forças do regime, propondo uma terceira via. Foi assassinado em 2015 em um atentado com carro-bomba.

GRUPOS INSURGENTES

Divididos em uma variedade de organizações, controlariam entre 10% e 25% do território sírio.

Exército Livre da Síria (ELS)

Um grupo de oficiais desertores do Exército regular, com o coronel Riad al-Asaad no comando, proclamou a criação do ELS em 29 de julho de 2011. Após cerca de cinco anos de conflito, o ELS deixou de ser a primeira força de oposição armada. Seus combatentes passaram a integrar outras facções insurgentes num processo de islamização motivado pelo financiamento estrangeiro, sobretudo de países do Golfo. Restariam 27 facções sob o comando do general Abdul-Ilah al-Bashir. Entre elas, destaca-se a Frente Sul, formada por 29 brigadas presentes em Deraa, epicentro das revoltas sírias, e em Quneitra.

Ahrar al-Sham (Homens Livres do Levante)

Coalizão de vários grupos islamistas e salafistas liderada por Abu Yahia al-Hamawi e uma das principais forças armadas insurgentes. Entre 10.000 e 20.000 milicianos lutam em suas fileiras. Têm uma forte presença e controlam zonas de Idlib, onde lideram a coalizão da Frente da Conquista com seus aliados da Al Qaeda.

Jaysh al-Islam (Exército do Islã)

Reunião de vários grupos islamistas e salafistas. É a principal força de oposição na periferia de Damasco. Combate tanto as tropas do regime como as do ELS. Após o recente assassinato de seu líder Zahran Alloush, o comando passou para Mohammed Alloush. Possui entre 20.000 e 25.000 combatentes. Entre seus bastiões, destacam-se Duma e Guta Oriental, na periferia de Damasco.

Jaysh al-Fatah (Exército da Conquista)

Aliança operacional entre diversas facções insurgentes que inclui moderados do ELS, islamistas como Ahrar al-Sham e jihadistas como Al Nusra. Foi criado em março de 2015 na província de Idlib para coordenar as operações, com apoio logístico e envios de armas fornecidos pela Turquia, Catar e Arábia Saudita.

Combatentes do Estado Islâmico em Deir al Zor.
Combatentes do Estado Islâmico em Deir al Zor. AP

Frente al-Nusra

Braço local da Al Qaeda na Síria. Presente nas listas de grupos terroristas dos Estados Unidos e da ONU, posiciona-se sobretudo no noroeste sírio após ter sido expulso por seu rival ideológico, EI, na parte oriental do país.

Estado Islâmico (EI)

Em 30 meses, o EI havia conseguido conquistar entre 50% e 55% do território sírio, boa parte dele em zona desértica, na faixa oriental do país, praticamente despovoada. O atual grupo terrorista sofreu uma mutação desde que foi criado no Iraque como Jama’at al-Tawhid wal Jihad (Organização do Monoteísmo e da Jihad) em 1999 e seu posterior crescimento durante a invasão das tropas norte-americanas em 2003. Com a divisão da Al Qaeda, o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL, na sigla em inglês) passou a se chamar Estado Islâmico com a proclamação do califado por Abu Bakr al-Baghdadi, o “califa Ibrahim”, em junho de 2014, em Mossul (norte do Iraque).

O EI desenvolveu um importante aparato de propaganda e captação de recursos baseado em novas tecnologias cujo conteúdo é traduzido a mais de vinte idiomas. Também se nutre de contrabando de petróleo e peças arqueológicas e de extorsão através de taxas. Possui entre 25.000 e 40.000 jihadistas em suas fileiras, dos quais pelo menos 15.000 são estrangeiros de 80 nacionalidades. Cerca de 4.500 provêm da Europa (cerca de 20%, mulheres). O EI controla amplas áreas do noroeste da Síria até o noroeste do Iraque. Também está presente a leste de Alepo e mantém núcleos de simpatizantes em Idlib.

COALIZÃO CONTRA O EI

Os Estados Unidos lideram uma coalizão internacional contra o EI formada por países do Golfo e aliados ocidentais, dos quais nove (Austrália, Bahrein, Canadá, França, Jordânia, Arábia Saudita, Turquia, Emirados Árabes Unidos e Reino Unido) participam dos bombardeios na Síria. Os ataques teriam provocado a morte de cerca de 22.000 jihadistas, segundo dados de Washington, assim como de centenas de civis, embora não haja cifras exatas. Os EUA também teriam formado, treinado e armado cerca de 100 milicianos opositores.

Em setembro passado, a aviação russa lançava a Operação Destruição Total, somando-se aos bombardeios contra objetivos do EI em território sírio e atingindo outros objetivos considerados terroristas por Moscou e Damasco. Os ataques teriam eliminado cerca de 1.000 jihadistas e outros 1.000 combatentes rebeldes, além de centenas de civis.

OPOSIÇÃO AO REGIME SÍRIO

Ataque aéreo da coalizão contra o ISIS.
Ataque aéreo da coalizão contra o ISIS. EFE

Conselho Nacional Sírio (CNS)

Formado seis meses depois do início das revoltas de março de 2011, pretendia constituir-se como o governo alternativo no exílio. A Irmandade Muçulmana síria é uma parte importante do CNS. Tem sua base na Turquia, mas os analistas o consideram desconectado da realidade no terreno e com pouca influência sobre os grupos armados.

Coalizão Nacional para as Forças Sírias Revolucionárias e Opositoras

Foi formada em novembro de 2012, absorvendo o CNS, com o objetivo de criar um governo de transição sírio. O CNS abandonaria a coalizão em protesto contra sua participação nas conversações de Genebra, às quais mais tarde enviou vários de seus membros.

Alto Comitê de Negociações (HNC, na sigla em inglês)

Essa comissão, criada com o patrocínio de Riad, aglutina vários representantes da oposição síria para mediar as negociações de Genebra. Teria entre 30 e 40 membros, incluindo representantes da Coalizão Nacional Síria, veteranos opositores, da Irmandade Muçulmana síria, de grupos islamistas como Jaysh al-Islam e rebeldes como o Exército Livre da Síria.

Oposição interna

O Governo sírio designou uma lista de 38 opositores com quem se deve negociar, incluindo opositores de partidos laicos e democráticos.

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