Duncan Jones, muito mais que filho de David Bowie

Normalidade foi essencial na carreira do cineasta, que começa 2016 com a superprodução 'Warcraft'

Duncan Jones, com os pais David e Angie, em 1974.
Duncan Jones, com os pais David e Angie, em 1974.REDFERNS

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"Fico triste de dizer que é verdade. Ficarei off-line por um tempo. Envio meu afeto a todos vocês." Às 7h54 da segunda-feira passada, o cineasta Duncan Jones enviou este breve tuíte a seus 200.000 seguidores, acostumados a ler piadas e conversas sobre videogames e Star Wars. A antiga foto de um bebê sobre os ombros do pai acompanhava as palavras. Assim, confirmava que David Jones havia morrido. Para ele, era seu pai, para o resto, um ícone. Muitos simplesmente respondiam: "Não sabia que David Bowie era seu pai." Parecia impossível relacionar a naturalidade de Jones com sua vida familiar disfuncional.

Duncan Zowie Haywood Jones nasceu em 30 de maio de 1971, em Londres. Sua mãe, a modelo Angie Bowie, havia decidido chamá-lo de Zowie, do grego zoe (vida). Seu pai preferia Duncan.

As extravagâncias eram rotina desde o primeiro dia. Em poucas semanas, já tinha uma canção dedicada a ele, Kooks: "Acreditamos em você. Em breve você vai crescer, então se arrisque com este casal de loucos (...) Se ficar, vai ser um pouco louco". Esse amor "louco", que terminou em 1980 com um divórcio tempestuoso. "Angie era como viver com um maçarico", afirmou Bowie, que ganhou a custódia. "Meu filho me odeia e é culpa de David", criticava a mãe no Big Brother britânico, onde agora explora sua fama.

Duncan Jones recebe seu BAFTA.

O casal se conheceu porque compartilhava uma amante. Logo após dar à luz, Angie escapou para uma orgia italiana com sua namorada. Com 13 anos, enquanto Bowie se recuperava, Zowie passou a ser Joey e parou de falar com a mãe. Mas essa loucura nunca lhe afetou. Pelo menos dava essa impressão, quando, em 2010, um cineasta barbudo emocionado e sorriso infantil chamado Duncan Jones recebeu o BAFTA de melhor diretor revelação para o drama de ficção científica O Outro Lado da Lua: "Levei muito tempo para encontrar meu caminho. Finalmente descobri do que gosto". O primeiro a felicitá-lo: David Bowie.

O homem que veio do espaço teve um filho cuja opera prima chegava da Lua. Foi Bowie, amante do gênero, que o obrigou a ler duas horas por noite e o apresentou a escritores como Orwell, Fritz Lang e Phillip K. Dick. Bowie também tentou aproximar o filho da música. "Tentou com bateria, saxofone, guitarra... Insistia, mas não teve jeito", brincou Jones em uma entrevista. Estava mais interessado em concentrar-se em outros mundos. "Minha infância foi estranha", disse ao The New York Times: "A fantasia não parecia algo alheio".

A busca do anonimato chegou na maturidade. Nos anos noventa, mudou para o interior de Ohio, onde se formou em Filosofia, com a qual Duncan permeia seus filmes. Nem seus colegas sabiam de sua famosa ascendência. Ainda hoje não gosta de fotos. "Lembro-me do pânico de sair escondido dos shows."

Escolheu os nomes mais comuns, embora soubesse que desde que decidiu trabalhar com cinema sua família despertaria curiosidade. "Com o tempo, serei julgado por meus méritos. Vão ser necessários vários filmes", reconheceu Jones. Em 2013, lançou Contra o Tempo, um drama sobre viagens no tempo com a estrela Jake Gyllenhaal e 30 milhões de euros (130 milhões de reais no câmbio atual). 2016 parece ser seu momento. Warcraft – O Primeiro Encontro de Dois Mundos (ainda não lançado no Brasil) não é apenas sua maior superprodução (a filmagem demorou quatro meses), mas também é a adaptação de um dos videogames de maior sucesso da história, que vários diretores não conseguiram levar adiante. Em suas mãos está o sucesso de uma das futuras franquias de Hollywood.

A promoção o levará de volta ao primeiro plano depois da “desconexão" forçada. As perguntas serão inevitáveis. Mas, de Bowie, embora estivesse ausente em seus primeiros anos nômades, sempre falava com fascinação. "Vê-lo em Labirinto – A Magia do Tempo ou Absolute Beginners era a Disneyland", lembra. Embora tenha encontrado a vocação em Jogos Vorazes(1999), onde lhe deixaram uma câmera para gravar livremente. Logo se matriculou na escola de cinema de Londres. Seus roteiros de ficção científica não demoraram a cair nas mãos certas.

"Nunca teve que dizer que era o filho de." Por que não usar a música do cantor em O Outro Lado da Lua? "Não havia orçamento", ironizava.

Horas antes da morte de Bowie, Jones tuitava sobre o novo álbum do pai: "Muito orgulhoso! Meu coração bate por você". Era apenas seu pai, normal e "orgulhoso", apoiado em uma vida de criatividade sem limites. Não o ícone eloquente e moderno que todos imaginavam. Assim o revelou em 2014 com o cartão que lhe presenteou no Dia dos Pais: "Você pode não ser o pai mais legal, mas é o melhor". Nem mesmo Ziggy Stardust conseguiu ser bacana o suficiente para o filho.