WEG, os ‘estocadores de vento’

Multinacional está driblando a crise investindo na venda de aerogeradores

Complexo Eólico Ventos de Santa Brígida (Pernambuco), da Casa dos Ventos.
Complexo Eólico Ventos de Santa Brígida (Pernambuco), da Casa dos Ventos.ALUÍSIO MOREIRA (SEI / FOTOS PÚBLICAS)

A WEG, empresa brasileira fundada em Jaraguá do Sul, no Estado de Santa Catarina, ganha dinheiro hoje com um assunto que virou piada na boca da presidenta Dilma Rousseff. Em evento da Organização das Nações Unidas, a mandatária afirmou que o Brasil precisa desenvolver uma tecnologia capaz de “estocar vento”. Ainda que o deslize semântico tenha se transformado em viral na internet brasileira, o raciocínio da chefe de Estado não estava de todo errado. A multinacional de equipamentos industriais está driblando a crise brasileira com ajuda do vento.

“Preços altos e dificuldades regulatórias e ambientais para construção de novas usinas hidrelétricas no país criam oportunidades interessantes para a expansão das energias renováveis, como a eólica ou a solar”, destaca Paulo Geraldo Poleza, diretor de relações com investidores da WEG. A venda de aerogeradores da marca ajudou o segmento de energia a responder por 29% das receitas totais da empresa, ou 700 milhões de reais, tornando-se hoje o segundo maior mercado da companhia. Fica atrás apenas de equipamentos eletroeletrônicos industriais, que equivalem a 53,6% das vendas, ou 1,2 bilhão de reais.

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Poleza admite que a companhia espera “um cenário de mediocridade” na economia. Por isso, reforça o foco na energia limpa. A WEG tem apostado na produção de aerogeradores desde 2010, passando a competir com gigantes como a General Electric e a Alstom. O primeiro projeto da área foi entregue em 2014, com a instalação do parque eólico de Ibiapina, no Ceará, onde os ventos favorecem esse setor. “O próximo leilão, que contará com energia eólica e solar em novembro, já tem engatado negócios para a WEG. Isso nos leva a crer que as renováveis serão o propulsor do crescimento da companhia também no segundo semestre” afirma Poleza.

Fundada, inicialmente como Jaraguá Motores, em 1961, pelo eletricista Werner Voigt, o administrador Eggon da Silva (que faleceu este ano aos 85 anos), e o mecânico Geraldo Werninghaus, a WEG – que ganhou esse nome com a união das iniciais dos sócios – não vislumbrava, na época, que se tornaria uma das maiores fabricantes de motores elétricos do mundo, concorrendo com outras gigantes multinacionais como a francesa Schneider Electric, a alemã Siemens e a suíça ABB.

A companhia cresceu investindo em pesquisa, na capacitação da equipe e na diversificação de sua linha de produtos ao longo dos anos. Fabrica uma gama de produtos para o setor industrial, que vão de componentes eletrônicos a tintas especiais e transformadores. Assim, a marca está presente tanto em componentes de eletrodomésticos do dia a dia, quanto em maquinário pesado de grandes indústrias.

Na década de 90, a empresa deu um salto rumo ao exterior, com a instalação de uma filial nos Estados Unidos. Desde então, aproveitou as oportunidades e seguiu um programa de internacionalização da empresa. Atualmente, está presente em mais de 100 países, com 27 escritórios de representação e 33 plantas espalhadas em quatro continentes, incluindo fábricas na Alemanha, México, Portugal, China e África do Sul.

Tamanha variedade de mercados, clientes e produtos ajuda a amortecer o atual impacto da crise econômica brasileira no balanço da companhia. “Mesmo na crise é difícil que todos os segmentos em que atuamos estejam ruins ao mesmo tempo. Essa é uma das vantagens do nosso negócio”, explica Poleza.

O mercado internacional, na verdade, tem ajudado a driblar a economia fraca do Brasil. Isso porque a desvalorização do real cria condições mais favoráveis para a produção da WEG no exterior. Hoje, 55% das receitas líquidas da companhia são auferidas em dólar. A tendência, com as perspectivas de que a moeda americana se mantenha no patamar entre 3 e 4 reais, e que a multinacional inaugure mais fábricas fora do pais, é de que a participação do Brasil no faturamento caia dos atuais 45% para 40% até 2020, segundo estima o diretor financeiro.

Enquanto o setor industrial brasileiro está retraído – a indústria teve queda de 9% em 12 meses até agosto – a WEG continua investindo. Nos próximos meses inaugura duas novas fábricas, uma na China, e outra no México. Ambas as plantas receberam investimentos de cerca de 200 milhões de dólares desde 2014. A cifra alcançará 340 milhões de dólares até 2018.

Além desses parques, a WEG anunciou aquisição da espanhola de painéis elétricos Autrial, que, segundo Poleza, vai garantir “a venda de produtos de automação no mercado europeu”. A empresa também está comprando a alemã KATT, com sede em Horberg, que tem forte na produção de motores de alto giro, uma tecnologia que a multinacional brasileira ainda não dominava. A Autrial é original de Valencia e teve um faturamento de 14 milhões de euros em 2014, o mesmo faturamento da KATT. O valor das aquisições não foi revelado.

Ainda que resuma o atual momento da economia brasileira como “medíocre”, Poleza mantém a projeção de investimentos globais da WEG na casa dos 480 milhões para este ano. Até junho, 202 milhões foram desembolsados, 60% para o mercado local e 40% para as filiais no exterior.

No primeiro semestre de 2015, a receita operacional líquida cresceu 24,3% em relação ao mesmo período do ano anterior, atingindo 4,479 bilhões de reais. Já o lucro registrou aumento de 17%, chegando a 506 milhões de reais. Parte dessa alta é atribuída, contudo, ao câmbio, visto que a maior parte da receita da companhia é apurada em dólar, moeda que se valorizou 15% frente ao real entre janeiro e junho. “Óbvio que o dólar apreciado nos ajuda, pois garante um orçamento adicional em competitividade, em capacidade de expansão. Na combinação do mercado externo e interno, a companhia está bem. Mas no mercado local, com exceção do segmento de energias renováveis, estamos sentindo algumas dificuldades”, pondera Poleza.

Por outro lado, o dólar impacta os custos de produção dos clientes, como as fabricantes de bens de consumo da linha branca (ar condicionado e geladeira, por exemplo). “Está sendo mais difícil vender. Com a deterioração na concessão de crédito, muitos clientes acabam pedindo mais flexibilidade no pagamento”, complementa. O executivo admite que a empresa tem adotado medidas de redução de custos, mas que a crise não está, nem de longe, levando os dirigentes da empresa a cortar postos de trabalho ou fechar fábricas.

“No passado, trabalhávamos com um horizonte de previsibilidade maior, é verdade. Mas mesmo que os clientes posterguem aquisição de equipamentos novos, eles ainda precisam fazer manutenção preventiva das máquinas existentes, o que garante receita mesmo com a crise”, diz Poleza.

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