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ENTREVISTA | Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú-Unibanco

“Estamos vivendo uma dupla crise econômica: a nossa e a internacional”

Economista diz que solução para retomada do crescimento brasileiro ainda é a reforma fiscal

Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú-Unibanco.
Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú-Unibanco.

O maior banco privado do país, o Itaú-Unibanco, chegou a estimar na semana passada uma queda de até 5% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil neste ano. Apesar do presidente do banco, Roberto Setubal, ter ressaltado que a estimativa era muito negativa para o momento, a projeção confirma o cenário adverso que o país atravessa e o perigo que a economia brasileira corre de mergulhar em sua pior recessão.

Em entrevista ao El PAÍS, o economista-chefe do Itaú-Unibanco, Ilan Goldfajn, deixou claro que os desafios enfrentados no ano passado para tentar retomar o caminho do crescimento do Brasil são os mesmos de agora. Não há fórmula mágica: é preciso resolver o nosso problema fiscal/político. Otimista, Goldfajn acredita que a inflação no país já possui as condições necessárias para ceder ainda neste ano e aposta em uma recuperação do Brasil em 2017.

Pergunta. O ano que passou foi de péssimas notícias para a economia brasileira. Quais são as perspectivas para 2016?

R. Não é um momento de certezas já que o Brasil está no meio de uma recessão, que tem obviamente causas internas, mas também efeitos externos de uma crise internacional razoável. Todos estão sofrendo uma crise, mas o Brasil está enfrentando uma crise dupla. Para este ano, a estimativa é que a queda do PIB (Produto Interno Bruto) chegue no mesmo patamar do ano passado, uma retração em torno de 4%. Será a pior recessão desde que temos conhecimento dos dados econômicos, é uma queda bem importante.

P. O Itaú-Unibanco chegou a falar em uma queda de 5%, o que assustou o mercado, mas depois o dado foi revisado...

R. Na verdade, sempre trabalhamos com a projeção de menos 4%, mas fazemos simulações de retração de 2,5% a 5%. Porém, o que esperamos mesmo é a queda de 4%.

P. Qual o tamanho do impacto dos fatores externos para a nossa debilitada economia? De que maneira a desaceleração da economia chinesa pode prejudicar ainda mais o país?

R. A desaceleração do mundo, a queda dos valores das commodities, o crescimento baixo já estão acontecendo e, hoje, o Brasil precisa se ajustar a uma renda menor e a uma venda menor. Depois dos ciclos de alta, agora veio a queda. A situação da China claramente piora o quadro: é ruim para todo mundo, mas tem um efeito maior para o Brasil que está mais vulnerável.

P. Nos últimos dias estamos vendo sinais de fraqueza da economia mundial e volatilidade no sistema financeiro na Europa. Acredita na reedição da crise de 2008?

R. Acho que há um exagero do mercado, no final, vamos ver que os mercados vão se acalmar. Há um nervosismo de não saber o quanto os países irão crescer, o que acontecerá com o Brasil. Estou vendo mercados com dificuldades em vários lugares, no entanto, não vejo nenhuma evidência que suporte esse nervosismo todo.

P. Para 2007, o banco já projeta uma leve recuperação de crescimento de 0,7%. O que precisa ser feito para alcançar essa retomada?

R. O principal é resolver o nosso problema fiscal/político. Temos uma questão fiscal, nossa dívida não para de subir. Isso tudo em um ambiente político que não apoia as medidas necessárias para resolver esse problema fiscal. A saída é conseguir resolver essas medidas. Isso fará com que o índice de confiança se recupere, que os investidores deixem de cortar investimentos e que os consumidores parem de frear os gastos. A aversão ao risco fiscal precisa ser eliminada. Uma vez que você faz isso, os juros começam a cair, favorecendo a retomada econômica.

P. A impressão que se tem é que estamos lidando com os mesmos desafios do ano passado. De lá pra cá, pouco foi alcançado....

R. Não vejo nenhuma novidade, temos que resolver os mesmos problemas de 2015. É uma incerteza doméstica, dentro de uma incerteza global, que será resolvida quando o Governo conseguir lidar com os problemas internos que são os principais. Não mudaram os problemas enfrentados para concluir as reformas fiscais. No entanto, por mais difícil que seja, essas reformas precisam ser realizadas.

P. E como o senhor avalia o fator do impeachment dentro dessa conjuntura econômica?

R. Toda a incerteza política faz com que o investimento seja adiado e ninguém quer tomar a dianteira. Todo mundo quer saber quem pagará essa conta fiscal, mas ninguém quer arriscar ainda. Se todos ficam acuados, o investimento não sobe e continuamos nessa estagnação. Não quero emitir uma opinião sobre qual o melhor resultado político para esse processo de impeachment. O que precisamos é ter uma resolução rápida para acabar com essa incerteza. Enquanto houver incerteza política e fiscal não vejo uma recuperação. Tem duas formas disso acabar, uma é resolver os problemas internos, o segundo é o cenário externo se alterar completamente e ficar benigno, o que não é o caso.

P. A proposta de se criar um teto para os gastos está na direção correta?

R. A proposta de uma idade mínima para a aposentadoria seria o começo de uma reforma fiscal e depois um limite para os gastos. Os dois são muito importante e caso aprovados vão gerar uma confiança grande.

P. No ano passado, as projeções falavam que a inflação cederia no segundo semestre de 2015, mas não foi o que se comprovou. Por que a inflação não está caindo como esperado? O que mantém o índice alto?

R. Foi uma combinação de fatores. O câmbio não parou de se depreciar, o dólar fechou cotado a 4 reais, o que fez com que a inflação continuasse pressionada. Houve também o impacto do aumento dos preços administrados no início do ano, o que gerou uma inércia. Somado a esses fatores, a recessão começou a bater mais forte ao longo de 2015, em uma crescente. O ano passado começou fraco e foi ficando cada vez mais fraco. Já em 2016, estamos no meio do ajuste fiscal, o câmbio parece estável e não há um ajuste nos preços de administrados tão forte. A lógica e os fundamentos econômicos diriam que se essas três condições são respeitadas - câmbio estável, preços administrados sem altas e a demanda muito fraca- a inflação deveria cair. A estabilidade do câmbio será fundamental neste ano. Se ficar entre 4 reais ou 4,5 reais, a inflação cai. Agora se terminarmos o ano com o dólar cotado a 5 reais, já é outra história. No entanto, no que vai do ano, o comportamento está relativamente estável, perto de 4, um pouco menos.....

P. A projeção do câmbio para o próximo ano é mais perto dos 5 reais, cerca de 4,75....É um patamar mais saudável para alguns setores da economia?

R. Esse câmbio mais forte provocará um ajuste externo forte. Todos os setores que estão ligados ao ajuste externo, como quem exporta e está ganhando com o câmbio melhor. Várias empresas estão se beneficiando, como no setor do agronegócio, que vai continuar bem.

P. E a taxa de desemprego também continuará subindo?

R. Ela sempre segue o PIB, o PIB cai e só depois que as pessoas vão demitindo ou, pelo menos, param de contratar. Então, o índice deve aumentar neste ano. Considerando a taxa de desemprego que contemplam as regiões metropolitanas do país que chegou a 8%, estimamos que ela subirá para 11%.  Já na medida nova, que contempla o Brasil todo, que chegou no ano passado a 10%, acreditamos em um aumento de 13%. Se o PIB não estabilizar, esse índice vai acabar subindo ainda mais. No entanto, a perspectiva é que, no segundo semestre deste ano, ele se estabilize, o que deve fazer com que o desemprego pare de crescer em 2017.

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