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O Real Madrid de Florentino Pérez

Este clube é incapaz de fazer autocrítica, nem quando os dados são eloquentes

Florentino Pérez no anúncio de segunda-feira.
Florentino Pérez no anúncio de segunda-feira.KIKE PARA

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Este Real Madrid é incapaz de fazer autocrítica, nem mesmo quando os dados são eloquentes: Zinedine Zidane é o 11º técnico em 12 temporadas e meia sob o comando de Florentino Pérez, que levou o time a vencer 7 dos 37 grandes títulos que disputou, incluindo a Copa do Rei que não ganhará neste ano. Será que o grande intrigante dessas turbulências do Real se chama Messi, ou até mesmo Simeone? É paradoxal que a história de Benítez tenha terminado em 4 de janeiro, mesma data em que, um ano antes, o Barça foi derrotado pela Real Sociedad por 1 a 0 com seu astro argentino na sombra, com uma rebelião de proporções incalculáveis à vista. Apoiada em seus firmes princípios esportivos, a entidade azul-grená, também propensa a apontar os imbróglios externos, judiciais ou da Fazenda, soube enxaguar o conflito, reconduziu Luis Enrique, tranquilizou Messi e convocou eleições antecipadas. O Barça acaba de fazer outra temporada fabulosa, a mesma que o Real fechou em 2014, seis meses antes de queimar Carlo Ancelotti porque a equipe estava à deriva, como sugeriu Florentino Pérez. Os jogadores gostavam do italiano, mas não o presidente, para quem a “solução” era Benítez. Sim, Benítez, agora condenado porque havia um “problema”. Que complicação!

O madrilenho não contava com o apoio do núcleo duro do vestiário. Assim, o chefe supremo, que em 2006 deixou o clube de mãos abanando por mimar demais os jogadores, faz a eles agora uma nova concessão. Outro reflexo dos vaivéns deste Real, cujo presidente afirmou em 18 de dezembro: “Zidane não substituirá Benítez”. No adeus a Benítez, Pérez, que não admitiu perguntas, não se desmentiu e só dedicou alguns segundos ao que se foi. E o sucessor nem ao menos mencionou o demitido. Que diabos importa um técnico a mais ou a menos!

Do ponto de vista esportivo, o elenco não tinha um perfil que agradasse a Benítez, nem este jamais foi um técnico que soltasse as rédeas. Ele é daqueles que esmagam, também aos astros. É seu método, e com ele faz carreira. Com a bola em jogo, o Real deixou desde o início a percepção de que os jogadores e o professor não combinavam. Depois da chicotada no clássico, Florentino Pérez pediu que deixassem o treinador trabalhar. Descontada a brincadeira de Cádiz (quando a escalação de Cheryshev rendeu a eliminação da Copa do Rei), nas oito partidas seguintes o time encadeou seis vitórias contra adversários sem grande pujança, uma derrota frente ao expansivo Villarreal e um empate diante do quase sempre cru Valencia, com uma média de 4,1 gols favoráveis e 0,8 contra. Benítez quis se agarrar às estatísticas, o que de nada lhe serviu num clube onde o presidente tem urticária a que lhe recordem as cifras – as esportivas, não as financeiras – da sua gestão. Que arbitrariedade!

Até esta virada de ano, exceto pela Copa do Rei, o Madrid ainda não havia perdido nada na temporada. Não deslumbrava, mas teria tempo de decolar se realmente, desde o ano 2000, houvesse a estrutura de um projeto sólido e definido. Afinal de contas, Benítez já é tão culpado quanto Del Bosque, Queiroz, Camacho, García Remón, Luxemburgo, Pellegrini, Mourinho e Ancelotti. Para não falar de Valdano, Sacchi, Floro e Pardeza. E para não lembrar dos galácticos, dos Pavón, dos Gravensen e dos Cristiano. A única coisa que perdura é o regime presidencialista, sem competidor nas urnas e blindado desde que os estatutos foram alterados. Este é o Real de Florentino. Para o bem, pois algo ficará, e para o mal, pois neste passo...

Com tanta conspiração...

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