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O “politicamente correto” entra no museu

O Rijksmuseum de Amsterdã irá alterar, este ano, até 300 títulos de obras a fim de evitar palavras consideradas ofensivas, como ‘negro’, ‘anão’, ‘mouro’ e ‘maometano’

“Imagine um quadro com o seguinte título: Franchute [expressão de tom pejorativo usada na Espanha para designar um francês] em traje de gala. Ou então: Gabacho [o mesmo significado] montando um cavalo. Soaria ofensivo, não é? Pois o que procuramos evitar são termos desse tipo que não combinam mais com a nossa sociedade. Principalmente no caso de obras do período colonial”, afirma Martine Gosselink, responsável pelo departamento de História do Rijksmuseum de Amsterdã. Ela coordena um ambicioso projeto que pretende excluir palavras (até 23) como negro, grosso, índio, anão, esquimó, mouro e maometano, consideradas pejorativas. Ela admite que a execução de seu plano não é nada fácil, pois a busca de palavras alternativas implica obter termos precisos para definir os membros das inúmeras populações aborígenes que entraram na história da arte apenas como índios, sem distinção de sua tribo de origem. Ou então como negros, desprovidos de qualquer atribuição de identidade para além de seu grupo étnico. Mas o museu nacional holandês, que conta em seu acervo com 1 milhão de obras, 250.000 das quais já digitalizadas, espera alterar até meados deste ano os títulos considerados ofensivos de pelo menos 300 desenhos, gravuras e pinturas.

‘Jovenzinha negra” (1895-1922), quadro a óleo do pintor holandês Simon Maris Ver galeria de fotos
‘Jovenzinha negra” (1895-1922), quadro a óleo do pintor holandês Simon Maris

Há títulos fáceis de adaptar à linguagem atual, como Jovenzinha Negra (1895-1922), um quadro a óleo do pintor holandês Simon Maris (1873-1935). No site do Rijksmuseum, a obra já aparece como Mulher jovem com leque. Outros representam um autêntico desafio para os especialistas consultados, de linguistas a grupos étnicos e membros do público em geral. Em outra pintura, Retrato de Margaretha van Raephorst (1668), do holandês Johannes Mijtens (1614-1670), a dama em questão aparece com um jovem servente negro. A legenda original descrevia o rapaz como um neger (negro). Mas como em holandês e em inglês esse termo é tido como pejorativo, o personagem é agora apresentado como um servente zwart ou black nos dois idiomas, respectivamente [ambos também podem ser traduzidos como “negro”, em português].

“As obras sobre as quais estamos trabalhando retratam personagens ou situações no Brasil, no Suriname [antiga colônia holandesa] e na Indonésia. Em um caso concreto, a situação é singular. Os descendentes de um grupo de escravos não querem que mudemos nada. Seus antepassados eram originários de Angola e de Gana, mas foram levados para o Suriname. Em um determinado momento da era colonial, fugiram para a selva. Por isso, o grupo agora deseja que continuemos lembrando deles com a terminologia tradicional. Em holandês, é bosneger, algo como “um negro do mato”. Apesar de ser um termo considerado ofensivo desde os anos setenta, os descendentes têm orgulho de conservá-lo porque recorda o gesto de escapar da escravidão e se estabelecer por conta própria”, explica Gosselink.

Contra a linguagem traiçoeira

Rut de las Heras Bretín

A linguagem é traiçoeira e às vezes dizemos coisas que não queremos. As instituições públicas têm de ter um especial cuidado no uso de alguns termos que podem ferir sensibilidades. Assim, por exemplo, palavras tão difundidas como esquimó devem ser evitadas. “Para eles esquimó é pejorativo, significa refeitório de carne crua. Usam inuit — que significa pessoa —, e é como se autodenominam. Isto é similar ao que ocorre com os jíbaros, que em alguns locais é sinônimo de selvagem e que agrupa várias culturas, os shuar são os mais conhecidos”, esclarece Patricia Alonso, conservadora do Museu Nacional de Antropologia. É neste centro onde se encontraram situações similares às do Rijksmuseum. O museu prepara uma renovação da coleção para 2016, tanto de conteúdos como de desenho, mas até agora o controle de uso da linguagem, tanto neste museu como em outros, dependia da sensibilidade dos trabalhadores. Assim, Alonso explica como retirou o painel introdutório das salas dedicadas à coleção que procede da América, gabava o papel dos Reis Católicos com respeito aos nativos do Novo Continente. Ou em uma vitrine dedicada ao cristianismo na América, a informação elogiava o comportamento dos missionários. Alonso manteve todas as peças expostas mas mudou o texto.

A conservadora explica que tratam de ter em conta as autodenominações das diferentes culturas, mas não pode ser generalizado porque algumas preferem ser chamadas como são mais conhecidas, é o caso dos Apsaaloke, a quem não importa que lhes denomine Crow, que é mais reconhecível, inclusive têm órgãos de Governo com esta designação. “Estudamos cada caso designadamente, é complicado estabelecer um regulamento”. Assegura que as queixas que recebem por este motivo são excepcionais, como uma que tiveram com respeito ao título de um quadro do século XVIII pintado por José Joaquín Magón, De espanhol e índia nasce mestiça. “Ao visitante incomodava o termo índia”. Alonso argumenta que o título da obra não pode ser mudado e que alguns dos movimentos indígenas de América, tanto do Norte como do Sul, reivindicam esse termo.

Todo este cuidado não só há que ter nos textos de sala; o site, o material didático e a linguagem utilizada nas atividades também têm que o contemplar. O Museu Arqueológico Nacional levou vantagem nisto, já que sua renovação e reabertura em 2014 lhe permitiu fazer uma exaustiva revisão da linguagem. Deu-se especial ênfase às questões de gênero. Em 2010, a Subdireçãoi Geral de Museus Estatais desenvolveu Patrimônio em feminino, um projeto cujo objetivo é que as coleções sejam estudadas e exibidas desde a perspectiva de igualdade de gênero, que a interpretação da história não se faça só vinculada aos homens. Este programa prepara para março sua sexta edição, A memória feminina. Mulheres na história. História de mulheres, em que vão colaborar países como Brasil, Colômbia, Uruguai, Argentina, Portugal, México...

Tanto o Museu do Prado como a Rainha Sofía têm entre seus itinerários vários dedicados a temas de gênero. Na Rainha Sofía esta visita percorre peças da coleção desde a análise da mulher como produtora, receptora e sujeito-objeto da produção artística. O Prado começou esta iniciativa em 2009, quando o Ministério de Cultura assinou um convênio de colaboração com o Instituto de Investigações Feministas da Universidade Complutense de Madri. Através do qual também se revisaram os textos do Museu do Traje. A este respeito o Museu do Prado inaugurará após o verão de 2016 uma exposição dedicada à pintora flamenca Clara Peeters, a primeira desta pinacoteca dedicada exclusivamente a uma mulher.

Outros casos são mais simples. “Esquimó”, por exemplo, é o nome comum para os diferentes povos indígenas das regiões árticas e da Sibéria. Assim que se identifica o grupo étnico ao qual pertencem, o termo pode ser mudado para inuit, yupik, kalaallit, inuvialuit, inupiat, aluutiq, chaplinos, naucanos ou sireniki, suas distintas comunidades. “Primeiramente, é preciso encontrar a origem concreta daquele colono. Não podemos cometer erros. Mas é preciso lembrar também que nenhuma dessas modificações vai apagar a História da nossa base de dados, quando o trabalho estiver concluído. Pouquíssimos artistas deram títulos a suas obras, e as inscrições se devem, em geral, aos restauradores que trabalharam nelas. É o que acontece aqui e em outros museus. Nossos novos títulos já aparecem em exposições e catálogos, e vão acompanhar os artigos no acervo. De outra maneira, estaríamos falsificando a História, e não se trata disso”, destaca Evelin Sint Nicholaas, restauradora do Rijksmuseum, responsável por adaptar as obras à linguagem atual.

Em outros famosos centros da arte mundial, a reação varia. O Museu Britânico afirma, por e-mail, que “neste momento não planeja modificar o título de nenhuma de suas obras”. A National Gallery, em Londres, por outro lado diz que “revisa constantemente o título e as descrições” do conteúdo de seu acervo. Ressalta ainda que “fará as mudanças que considerar necessárias, atendendo a diferentes motivos”. A National Portrait Gallery, também em Londres, descreve como “muito interessante a iniciativa do Rijksmuseum, mas que o mesmo não pode ser aplicado a nossos retratos, que costumam ser titulados com o nome do modelo”. Apesar de o exemplo holandês não ter repercutido no Reino unido, há títulos que foram modificados ao longo do tempo por razões semelhantes. Cabeça de Negro (1827), um retrato de John Simpson (1782-1847) foi exposto sucessivamente com este nome ou como Estudo da Cabeça Masculina (O Escravo Cativo). Agora se chama Cabeça de Homem e está exposto na Tate Britain.

Salas como o Museu Real para a África Central, nos arredores de Bruxelas, acreditam que essas mudanças sejam essenciais. Fechada para reforma até meados de 2016, é a última instituição colonial de sua categoria no mundo, e seu trabalho agora consiste em colaborar com a África. “Há expressões que já não são mais usadas. Além disso, em nosso vocabulário cotidiano evitamos certas palavras ofensivas. A língua está viva e evolui, e nós já adaptamos a terminologia. É preciso pensar no presente, mas sobretudo no futuro. Por isso dialogamos com representantes da diáspora africana”, afirma Guido Gryseels, diretor do museu.

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