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COLUNA

Anotações sobre um ano difícil

A sensação é de que estivemos cavalgando uma montanha-russa, não em um aprazível parque de diversões, mas à beira de um precipício

Destruição em Bento Rodrigues, Mariana (Minas Gerais), após rompimento de uma barragem da mineradora Samarco.
Destruição em Bento Rodrigues, Mariana (Minas Gerais), após rompimento de uma barragem da mineradora Samarco. AFP

Ano estranho, este que se encerra. A sensação é de que estivemos cavalgando uma montanha-russa, não em um aprazível parque de diversões, mas à beira de um precipício. Se o cenário interno é de crise política e estagnação econômica, o panorama internacional é igualmente desolador. Ao lado de um dos maiores deslocamentos populacionais da História, a civilização ocidental mantém-se, pela primeira vez, sob a ameaça concreta de um “Estado” declaradamente terrorista, sem rosto ou território definido.

Logo no dia 7 de janeiro, extremistas muçulmanos atacaram o jornal satírico Charlie Hebdo, em Paris, matando 12 jornalistas e deixando outros cinco feridos. O que poderia ter sido um evento isolado mostrou-se, dez meses depois, parte de uma ampla ação coordenada pelo autointitulado Estado Islâmico. A série de atentados do dia 13 de novembro, que deixaram um saldo de 130 mortos, desencadeou a declaração de guerra conjunta contra aquele grupo ultrarradical. Por conta dos conflitos no Oriente Médio e fugindo da miséria na Ásia e África, 1,5 milhão de refugiados se dirigiram à Europa, em situação precária. As imagens de corpos recolhidos nas praias e do desespero de migrantes nas fronteiras tornaram-se emblemáticas de 2015.

Se estes acontecimentos, embora trágicos, podem parecer distantes para muitos brasileiros, não nos faltaram motivos de preocupação com os caminhos erráticos que trilhamos ao longo dos últimos 365 dias. No momento mesmo em que assumiu seu segundo mandato como presidente da República, após vencer as eleições com 52% dos votos válidos, a gestão de Dilma Rousseff começou a naufragar, parte por culpa de sua incompetência administrativa e inabilidade política, parte por responsabilidade da classe dirigente nacional, interessada apenas em preservar privilégios obtidos de maneira obscura.

Dilma vivencia um ciclo vicioso: com o aprofundamento da crise econômica – encolhimento de 3,6% do Produto Interno Bruto, desemprego de 9%, inflação de 10% – recorreu ao PMDB para tentar governar, fingindo ignorar que o partido, antes de mais nada, sobrevive desde sua fundação como um grande balcão de negócios. O resultado foi que, ao invés de minimizar o desmoronamento da economia, agravou-o, alimentando uma crise institucional sem precedentes, que culminou com um pedido formal de sua destituição. O vice-presidente Michel Temer reúne-se às claras com membros do PSDB visando a saída de Dilma, tendo, nessa circunstância, como principal aliado o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, envolvido em denúncias de corrupção na Operação Lava-Jato. Diante de tamanho imbróglio, o país segue paralisado.

Aliás, sopra do Judiciário o nosso pouco alento. O desdobramento da Operação Lava-Jato, iniciada em março de 2014, vem colocando na cadeia, pela primeira vez, empresários e homens públicos que acreditávamos imunes à Justiça. Empreiteiros como Marcelo Odebrecht, executivos como Paulo Roberto Costa e Nestor Cerveró, atravessadores como Alberto Yousseff e José Carlos Bumlai, políticos como João Vaccari Neto e o senador Delcídio do Amaral permanecem encarcerados. Suspeita-se que este esquema de corrupção movimentou cerca de R$ 40 bilhões, sendo R$ 10 bilhões apenas em pagamento de propinas.

Se mal ou bem estamos conseguindo enfrentar a corrupção, a negligência no combate ao mosquito Aedes egypti possibilitou a entrada no Brasil do zikavírus, provável causador de microcefalia em bebês, calamidade que já atingiu proporções catastróficas. Até meados de dezembro, haviam sido registrados 2.800 casos da anomalia em todo o país – contra 147 anotados no ano passado. Além disso, trabalha-se com a hipótese de que o zikavírus esteja relacionado com a Síndrome de Guillain-Barré, uma doença neurológica que pode resultar em paralisia muscular. Um balde de gasolina na fogueira do nosso caótico sistema de saúde.

E, como prova de nosso desprezo pelo meio ambiente, no dia 5 de novembro o rompimento de uma barragem da mineradora Samarco, empresa controlada pela Vale e pela BHP Billiton, em Mariana, causou um dos maiores acidentes ecológicos da história do Brasil. Foram 19 mortos, 303 famílias desalojadas, 660 quilômetros de rios contaminados, 120 nascentes soterradas e um incalculável prejuízo para a flora e a fauna e para os ribeirinhos que vivem no vale do Rio Doce, que banha Minas Gerais e Espírito Santo.

Começamos o novo ano com a expectativa de que o saldo seja melhor, embora não haja muitos motivos para acreditarmos nisso. A presidente Dilma Rousseff contabiliza o pior índice de aprovação do curto período de nossa frágil democracia – 70% dos eleitores consultados pelo Ibope desaprovam seu governo – e o comércio apontou este como o pior Natal dos últimos 10 anos. Como o país só começa a funcionar após o término do carnaval, todas as decisões importantes, econômicas ou políticas, permanecerão adiadas pelos próximos 45 dias. E 2016 será curto, pois no segundo semestre ocorrerão os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro e o humor involuntário propiciado pelas eleições para prefeito e vereadores.

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