Entrevista | Armando monteiro, ministro do desenvolvimento

“Se existe uma área que dará boas notícias é a do comércio exterior”

Ministro, que participou da cúpula do Mercosul, diz que a percepção do bloco mudou e aponta para um novo movimento com a UE

Ministro do Desenvolvimento, Armando Monteiro.
Ministro do Desenvolvimento, Armando Monteiro. Wilson Dias (Agência Brasil )

O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Armando Monteiro, se diz tranquilo com a troca de comando do ministério da Fazenda e otimista com as exportações brasileiras, ajudadas pela variação cambial que fez o real perder mais de 50% do seu valor em um ano. Monteiro, que participou da cúpula do Mercosul em Assunção, no Paraguai, vê perspectivas positivas com Maurício Macri na presidência da Argentina.

Pergunta. O Brasil vive hoje uma das piores recessões das últimas décadas em meio a uma crise política e sem muita perspectiva de retomada da atividade...qual a perspectiva de melhora?

Resposta. A economia brasileira sempre surpreende, a crise política é um componente que tem prejudicado muito essa perspectiva de retomada da economia. Porém, como acredito que a crise política tende a ser resolvida em um prazo curto, acho que logo, logo, os próprio s agentes de mercado começam a retomar. A nossa economia tem uma capacidade muito grande de resposta. O problema dessa projeção para 2016 é que tem um fator estatístico, de carregamento. Você saí de um ano com uma forte queda e já transfere um efeito de carregamento, carry over, que tem um efeito grande. Porém, o realinhamento cambial vai ajudar. Todas as projeções indicam que a inflação irá cair, ela deve terminar em 11% e vai cair para 6% ou 6,5% , mas vai ceder. Quando cair, poderemos baixar as taxa de juros e isso trará um efeito positivo na economia. O pior momento de commodities passou. Antevejo uma possibilidade de recuperação de commodities agrícolas, vamos ter uma recuperação na economia já no segundo semestre do próximo ano.

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 P. Você fala em uma resolução da crise política, mas estamos entrando em um processo de impeachment....

 R. Acho que estamos mais próximos de uma de resolução do quadro político. Tenho muita confiança de que tudo aponta para que se afaste o processo de impeachment e que a presidenta possa seguir, já que ela tem um mandato legítimo. E que, a partir de aí, as oposições que estão muito entrincheiradas na tese do impeachment possa pactuar uma agenda de interesse do país, voltada a reformas estruturais e para garantir o ajuste fiscal. Por tanto, acredito que estamos mais perto da resolução da crise política.

P. Como avalia a saída de Joaquim Levy e a chegada de Nelson Barbosa no ministério da Fazenda. Era necessária essa substituição?

R. Prefiro não emitir juízo de valor sobre isso.

P. O ajuste fiscal de Joaquim Levy estava na direção correta?

R. Eu acho que não existe um ajuste fiscal do Levy, tem um do Brasil. Ou seja, o ajuste do Levy foi prejudicado porque a crise política perturbou o ritmo do processo de aprovação de medidas no Congresso. Não foram tempestivamente aprovadas e o processo não teve a amplitude que era prevista, isso afetou. O fato é que o novo ministro vai continuar a perseguir o ajuste. Como acredito que a crise política hoje mostra uma perspectiva de resolução, nós vamos poder completar o ajuste.

P. O dólar mais valorizado pode nos ajudar? Quais as perspectivas da balança comercial?

R. Tivemos um déficit de 4 bilhões de dólares no ano passado e vamos ter este ano um superávit de 17 bilhões. E todas as projeções apontam que, no próximo ano, esse superávit chegue a 35 e 40 bilhões de dólares. Se existe um lado da economia que vai bem é o setor externo. Isso porque combina de um lado uma queda nas importações e do outro o realinhamento cambial, um fator fundamental para inibir as importações e estimular as exportações de manufaturados. Então já estamos vendo um aumento de volume exportado. Eu acho que, se existe uma área que nos vai dar boas notícias em 2016, é a do comércio exterior.

P. Qual a perspectiva do acordo do Mercosul com a União Europeia?

R. Vejo como uma possibilidade extraordinária que o acordo ao final se realize. Acho que as condições estão muito presentes hoje. A percepção do próprio Mercosul mudou em face às mudanças que estão ocorrendo na configuração dos acordos internacionais e da formação dos blocos . Há uma compreensão que o Mercosul precisa realizar um novo movimento, que claramente aponta para a União Europeia pela sua importância e pelo caráter estratégico. Acho que do lado europeu também. O mega acordo do Transpacífico (TTP) é um elemento que motiva e estimula a União Europeia a ter um eixo de integração na América do Sul.

P. O secretário de comércio da Espanha afirmou que a França, por exemplo, ainda tem ressalvas para assinar o acordo...

R. Na última reunião dos ministros do bloco europeu, houve uma manifestação esmagadoramente majoritária na defesa da assinatura do acordo. Há um grupo de países que tem interesses mais defensivos na área agrícola e que ainda está metabolizando a ideia do acordo, o que é natural. O sentimento é que já existe uma clara posição de muitos países que tem peso como Alemanha, a Espanha e o Reino Unido. Não tenho dúvidas que os países que ainda resistem vão ter que acompanhar essa decisão. A troca de ofertas, que é o ponto de partida do acordo, estava prevista para o último trimestre de 2015 e agora se transfere para o primeiro trimestre de 2016.

P. Em que medida a relação comercial do Brasil com a Argentina vai ser alterada com o novo Governo do presidente Maurício Macri ?

R. Todos os sinais são muito bons. Primeiro, o Governo argentino dá sinais que defende uma posição mais liberalizante do comércio, mais abertura. Uma postura muito positiva. Segundo, a curto prazo, Macri já removeu uma série de obstáculos que vinham sendo impostos a essa relação comercial. Aquele mecanismo das DJAI (Declarações de Importação Antecipada Argentina, ou declaración jurada antecipada de importación, em espanhol) já foi revogado e substituído por um mecanismo de licença não automática que se ajusta as normas da OMC. Por outro lado, ele está prometendo regularizar os pagamentos dos exportadores brasileiros, já que havia um acúmulo de créditos dos exportadores brasileiro. É outra notícia muito positiva. E também estão as medidas que irão contribuir para reequilibrar a economia argentina. O que é bom para o comércio e para a saúde do Mercosul.

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