China

O mistério dos milionários chineses

Governo concentra nova etapa de sua campanha anticorrupção contra altos executivos

Guo Guangchang, em abril de 2015, em Nova York.
Guo Guangchang, em abril de 2015, em Nova York.Michael Nagle (Bloomberg)

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As fotos que circulavam nas redes sociais e que mostravam um homem com óculos escoltado pela polícia, no aeroporto de Xangai, provocaram rumores de uma nova captura na campanha contra a corrupção na China. Na noite de 10 de dezembro, o conglomerado Fosun confirmava à revista Caixin que seu presidente, Guo Guangchang, estava “incomunicável”. Um dos homens mais ricos da China havia entrado em um buraco negro que engoliu este ano dezenas de altos executivos no país.

Guo parece ter sido um dos sortudos. Quatro dias depois, e após o grupo Fosun ter confirmado que seu chefe "cooperava" com as autoridades judiciárias em uma investigação, reaparecia em uma reunião da empresa. Na sexta-feira, 18 de dezembro, uma outra revista de economia, Caijing, mostrava o executivo em Nova York, em um almoço de trabalho, aparentemente livre das investigações da temida Comissão Central de Inspeção Disciplinar (CCID), o braço policial do Partido Comunista que conduz a campanha anticorrupção comandada pelo presidente Xi Jinping.

Os inspetores da Comissão utilizam o procedimento conhecido como "shuanggui", ou detenção extrajudicial, amplamente condenado por organizações de direitos humanos. Os membros do Partido Comunista suspeitos de corrupção — ou qualquer outro delito — ficam detidos em local desconhecido, sem contato com parentes e submetidos a interrogatórios durante um período que pode durar dias, meses ou mesmo anos.

O presidente do Fosun não é o único poderoso que tem despertado a atenção da CCID. A revista Hurun, a Forbes chinesa, calcula que, desde 1999, foram abertas investigações contra 35 (cerca de 1%) dos 3.000 milionários incluídos em suas listas dos mais ricos do país.

A novidade é a intensidade com a qual a campanha anticorrupção do presidente Xi Jinping é dirigida contra os setores financeiro e empresarial. Anteriormente, em seus dois primeiros anos, as investigações eram focadas no setor de petróleo e funcionários públicos. Em 2014, cerca de 71.000 pessoas foram afastadas, segundo números da Comissão.

Mas, desde o início deste ano, a polícia está seguindo o rastro do dinheiro. Em janeiro, foram anunciadas investigações contra altos executivos de dois bancos, o Pequim e o Minsheng, este último aparentemente por suas relações com um alto oficial no mandato do presidente Hu Jintao. Desde que entraram no buraco negro do "shuanggui", não se ouviu falar mais deles.

"A raiz do problema está na conivência entre a política e o mundo empresarial" em um país onde a economia ainda sofre forte intervenção do Estado, destaca Hu Xingdou, professor do Instituto de Tecnologia de Pequim. "Sem o apoio dos políticos, para um empresário é quase impossível se tornar um grande bilionário".

Segundo a CCID, até o final de outubro, oito equipes de inspeção foram enviadas a 14 instituições financeiras. Entre janeiro de 2014 e junho de 2015, de acordo com a promotoria chinesa, 877 pessoas do setor foram investigadas por abuso de poder e corrupção. Desse total, 75% trabalhavam em bancos, e 25% em seguros e corretoras. Metade das pessoas investigadas era suspeita de oferecer ou aceitar subornos.

O número de casos notificados aumentou radicalmente desde meados deste ano, quando as bolsas chinesas registraram fortes quedas que atingiram os mercados de ações ao redor do mundo, e testaram a capacidade de resposta do Governo chinês.

Desde então, funcionários de agências reguladoras, banqueiros e chefes de corretoras de ações perderam seus cargos. Até mesmo o "George Soros da China", Xu Xiang, do fundo Zexi, que está nas mãos de investigadores desde 1o de novembro após uma perseguição digna de Hollywood pelas estradas de sua cidade natal, Ningbo, na costa chinesa.

Aparentemente, a mensagem que o Governo quer mandar é que está disposto a derrubar qualquer um que interfira no cumprimento de seu plano para mudar o modelo econômico. E o setor financeiro e empresas estatais são duas áreas onde há muitos grupos poderosos que podem causar problemas.

"Combater a corrupção no setor empresarial vai ajudar a melhorar o clima de investimento. Todas as empresas nacionais e estrangeiras que cumpram a lei darão sua aprovação à campanha, porque na hora de fazer negócio e investir são beneficiadas por um clima imparcial, sensato e de acordo com a lei", afirmou Liu Jianchao, vice-ministro do Escritório Nacional para a Prevenção da Corrupção, em uma conferência de imprensa esta semana.

"Vendo o que está acontecendo, é provável que algumas pessoas entrem em pânico no curto prazo", diz o professor Hu. "No longo prazo, será uma oportunidade para limpar o setor empresarial e permitir um desenvolvimento mais saudável da economia de mercado."

Ricos sob suspeita (ou mortos)

Uma das empresas mais afetadas pelas investigações anticorrupção tem sido a corretora CITIC Securities. Seu presidente, Cheng Boming, está preso desde setembro sob suspeita de envolvimento em operações com informação privilegiada no mercado de ações. Dois outros altos executivos, Jun Chen e Jianlin Yan, estão desaparecidos desde o início de setembro. No total, pelo menos uma dezena de executivos da empresa passou pelas mãos dos inspetores.

Mao Xiaofeng, que comandava o Mingsheng Bank, caiu nas garras da CCID em janeiro, em um caso que o vinculava a Ling Jihua, homem de confiança do então presidente Hu Jintao, acusado de corrupção. Depois que o caso foi divulgado pela mídia chinesa, o mais jovem presidente de um banco chinês — tem 43 anos —renunciou.

Yim Fung, presidente da divisão de Hong Kong da Guotai Junan International, outra grande corretora, encontra-se "incomunicável" desde 18 de novembro.

O presidente do Banco Agrícola da China, Zhang Yun, renunciou ao cargo no início de dezembro, depois de ser investigado pelas autoridades por suspeita de corrupção em novembro.

O caso mais misterioso é o do empresário Xu Ming, cujo depoimento ajudou a condenar por corrupção Bo Xilai, uma das maiores estrelas do Partido Comunista. Preso por corrupção, Xu deveria ser libertado em dezembro. Mas, um mês antes, foi encontrado morto em sua cela devido a um ataque do coração, segundo autoridades chinesas. Seus familiares, de acordo com a mídia chinesa, afirmaram que Xu gozava de excelente saúde antes de falecer.

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