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REPORTAGEM

Prince, a eterna ressurreição

Em dezembro do ano passado, o cantor falou pela última vez com EL PAÍS

Lucy, a recepcionista do Country Inn and Suites de Chanhassen, Minnesota, não consegue conter o riso. É a terceira mudança no pedido de táxi em apenas duas horas. “Não se preocupe, você pode mudar mais dez vezes se quiser. É com o Prince”, diz. A primeira modificação do programa havia chegado num lacônico e-mail vindo da Dinamarca, mas desta vez usaram o telefone. Trevor Guy, assistente de Prince, nos comunica que a entrevista com seu chefe ficará afinal para as 19h, e que nos prepararam “um monte de surpresas”.

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Não é que os atrasos sejam surpreendentes. Prince sempre cultivou a imagem que mantém hoje: um gênio brilhante e esquivo, virtuoso em dúzias de instrumentos, que quase não fala e não olha nos olhos de ninguém. Um ser que só pensa na sua arte, a qual só ele pode criar. E a imprensa não se encaixa nessas coordenadas. Em 1982, durante a sua primeira campanha de promoção, do álbum 1999 – que já era o seu quinto lançamento –, concedeu uma só entrevista, e saiu jurando que seria a última. Cumpriu sua palavra durante dois anos e meio. Na década de noventa, um jornalista passou seis dias rondando o Paisley Park, seu estúdio-fortaleza em Minnesota, no Meio Oeste norte-americano, mas acabou falando com Prince apenas por telefone.

Ele parece se divertir brincando de gato e rato. Há cinco jornalistas, de cinco países, espalhados pelos hotéis da região. A convocação para a entrevista foi apressada e vaga, e chegou com apenas dois dias de antecedência: se quiséssemos “nos encontrar” com Prince, era preciso estar às 17h de sábado no Paisley Park. Sem gravador. Só papel e caneta. Ele nos diria depois: “Fiz um brainstorming há duas noites e pensei: ‘Trago alguns jornalistas, lhes digo que não contem nada, e no dia seguinte todo mundo saberá’. Mas adoro os críticos, porque eles me amam. Não estou brincando. Veja, todo mundo nota quando alguém é preguiçoso, e agora, com a Internet, é impossível que um redator seja preguiçoso, porque todos vão apontar. Agora é constrangedor dizer alguma coisa falsa. É melhor dizer a verdade.”

Percorremos 9.000 quilômetros até chegar a Chanhassen, uma cidade de 20.000 habitantes, a cerca de 30 minutos de carro. Aqui as distâncias se medem assim — da cidade formada por Minneapolis e St. Paul, onde Prince Rogers Nelson nasceu, em 1958. Um garoto baixinho, filho de um pianista e de uma vocalista de jazz, ambos negros. Em 2009, a revista Money Magazine elegeu Chanhassen como a segunda melhor cidade para se morar nos EUA. Pessoas bem cuidadas e ruas residenciais simplórias. O que chamam de praça é uma área comercial. Apenas andam pelas calçadas para passear com o cachorro. E, na tarde deste sábado ensolarado de novembro, o termômetro marca três graus. Todo mundo aqui conhece Paisley Park, um complexo formado por três estúdios de gravação e duas salas de espetáculo. A coisa mais emocionante que já aconteceu em 30 anos na cidade. Prince inaugurou o local em 1985, no auge da sua popularidade. Em 1984, ameaçou a Warner de não renovar seu contrato, caso não o deixassem estrelar um filme. Aparecer nas telas de cinema do mundo parecia o caminho para conquistar um público mais diversificado. A multinacional preferiu lhe conceder o capricho em vez de deixá-lo escapar. O resultado foi Purple Rain, sucesso absoluto, com 20 milhões de cópias vendidas e Oscar de melhor trilha sonora original. E sua transformação de um artista negro para todos os públicos. Durante um período foi tão grande quanto Michael Jackson. Qualquer artista reclamaria da longa sombra daquele álbum. Mas ele afirma não se sentir entediado de tocar sempre essas músicas. "Você se cansa de ser aplaudido? Nunca se cansa do aplauso. Nunca se entedia. E você não pode aplaudir algo que não tenha ouvido antes, que não conhece. Se tocasse uma música que você conhece, seria uma experiência para você, na qual está envolvido. Você usa uma parte diferente do cérebro quando ouve algo que não conhece."

Aparentemente, Paisley Park está aqui do lado. Em algum lugar a cinco minutos do hotel — de carro, claro — encontra-se o feudo do último grande excêntrico do rock. Ontem fez um concerto lá, contam. Um desses shows ao vivo inesperados que organiza convocando seus fãs no Twitter. "Vai por períodos. Nos últimos meses, tem feito muito. Cerca de 10 ou 12 ", diz um garçom de um bar da cidade.

Cover de ‘Creep’, do Radiohead, interpretado por Prince no Festival Coachella de 2008. É o único vídeo dele que há no Youtube / YOUTUBE

“Quando todos saíram, fiquei no palco tocando e cantando sozinho por mais três horas. E foi maravilhoso”, disse depois Prince. Entrou no que chama “a zona”. “Não podia parar. É como experimentar o abandono de seu corpo. Como estar sentado entre o público vendo a si mesmo. É isso o que você quer. Transcender. E quando isso acontece...”, faz um gesto com a cabeça e diz, “oh, rapaz...”.

Parece também mais tranquilo e relaxado. Está há um tempo sentado no piano em um dos palcos do Paisley Park. Apareceu de repente e fala de suas teorias sobre a música, a indústria e sua próxima turnê. Uma turnê solo com piano por capitais europeias que suspendeu poucos dias antes de seu início pelos atentados de Paris, que deixaram 130 mortos e três centenas de feridos. As entradas dos shows britânicos já haviam sido colocadas à venda. A atração exercida por Prince é tamanha que em poucas horas a revenda pedia 2.500 euros (9.965 reais) por um ingresso.

De forma nenhuma aparenta os 57 anos que tem. Parece muito mais jovem, talvez 40. Até menos. Mas é possível que esse aspecto se deva à luz tênue que ilumina a sala. Ostenta um penteado afro, e se veste todo de branco com o que parece ser a versão pijama dos quimonos que Elvis usava em Las Vegas. Calça sandálias brancas de plataforma com meias brancas. Uma combinação singular, que quanto mais você olha mais curiosa fica.

E olhar é inevitável, porque estou, literalmente, aos pés de Prince. A entrevista para a qual viajamos às pressas 9.000 quilômetros consiste em sentarmos no palco enquanto ele toca piano. A situação lembra uma dessas pinturas nas quais Cristo fala a discípulos que o escutam enlevados.

Quando todos foram embora, fiquei no palco tocando sozinho por três horas. Não conseguia parar. Isso é o que você quer, transcender. E quando isso acontece... ah, rapaz!"

Antes de passar uma hora nessa incômoda posição, os cinco jornalistas europeus, do Reino Unido, Itália, Holanda, Bélgica e Espanha, nos encontramos de noite diante de uma cerca fechada, em um cruzamento de estradas no meio do nada, que identificamos como a entrada principal de Paisley Park. Não existe sinal visível de ser humano nas proximidades e nenhuma campainha para apertar. Ao fundo enxergamos um grupo de edifícios, um dos quais está iluminado por uma luz roxa. Sua cor fetiche. É tudo muito frio, muito prático. Uma fábrica não é a ideia do covil de um dos mais extravagantes músicos vivos.

Trevor Guy nos recebe na entrada de carga e descarga que leva à sala onde depois veremos Prince. Oferece uma visita guiada pelo que chama de “o país das maravilhas da música”. Os estúdios são enormes. Existe uma sala inteiramente revestida de granito, para a gravação de pianos. Outra às escuras, com estrelas fosforescentes, que chamam de the galaxy room e é usada para meditar. Nas paredes, seus prêmios. Não se vê a estatueta do Oscar, mas no que chamam de escritório de produção está a motocicleta roxa da capa do disco Purple Rain. Um ícone da história do rock. Ao passar por um estúdio mostram como se fosse uma relíquia uma folha abandonada com alguns garranchos, a prova de que esteve trabalhando aqui há pouco tempo. “Não tem noção do tempo. Com ele não existem horários. Está sempre trabalhando. A qualquer hora”.

Cheira à lavanda. “Temos velas perfumadas 24 horas por dia”, diz Trevor, que se desculpa por não nos mostrar as áreas privadas. “Ele não vive aqui, não posso dizer onde mora porque não sei. Quando não está em Paisley Park, ele some”. Tudo indica que resida habitualmente em Los Angeles desde 2008, após seu segundo divórcio.

Em um corredor, um mural messiânico – no geral tudo tem um inquietante aroma de culto à personalidade – coloca Prince no centro. Do lado direito, seus predecessores: Santana, Hendrix... Larry Graham, baixista, tem um lugar de destaque, ele que converteu Prince à fé das testemunhas de Jeová em 2001.

Sua fé impregna o ambiente. Em Paisley Park não se serve carne e álcool. Suas músicas já não são as incitações ao sexo de seus primeiros anos. Em 1980 editou Dirty Mind, um manifesto de 30 minutos a favor da liberação sexual e da ruptura dos tabus, mas já não quer falar de músicas como Head, na qual aparecia ejaculando no vestido de uma noiva que se dirige ao seu casamento. “Você tem uma cópia desse disco, não? Compus tantas músicas que nem penso nela. Não me sinto atado a uma canção dessa forma. Não poderia avançar se estivesse ligado a uma canção de meu passado. Ser testemunha de Jeová fez com que me esforçasse mais em contar as mesmas coisas de outras maneiras. Me aproximei da verdade. Além disso, os fãs agora são mais velhos, têm família, querem trazer seus filhos. É um bom movimento, você alcança um público maior para que experimente a mesma coisa”.

Retomou seu nome pouco antes de sua conversão. Durante os anos noventa se envolveu em uma disputa legal com sua gravadora. Entre outras coisas, a Warner registrou seu nome e ele decidiu rebatizar-se com um símbolo impronunciável. Agora está em todos os tamanhos possíveis adornando as paredes de Paisley Park.

Prince em 1985, no seu máximo momento de esplendor.
Prince em 1985, no seu máximo momento de esplendor.

Prince é a criação de Prince Roger Nelson. Um prototípico fabricado por ele baseando-se em um modelo teórico também criado por ele. Funcionou tão bem que, sem lançar um disco verdadeiramente de sucesso desde 2006, continua tendo os rendimentos de uma superestrela. Mesmo se definirmos superestrela como um personagem universalmente reconhecido além das fronteiras, raças e gerações, Prince já não se encaixa. Gera notícias e lota estádios, mas mesmo que seu nome seja familiar para os maiores de 30 anos, aqueles capazes de lembrar o que era importante entre 1984 e 1994, quase não existe para a maior parte dos menores de 25. A quem aconselha não assinar contratos com gravadoras. Ele, que assinou o primeiro com 17 anos. “Não sou eu quem deve dizer aos jovens o que fazer, mas é evidente que as empresas já não têm dinheiro. Eu não consegui o que consegui por uma gravadora. Se não assinasse um contrato, continuaria tocando. Tínhamos uma grande banda e tocávamos. E cada vez que tocávamos, o fazíamos melhor. As empresas não me ensinaram nada, eu tinha meus próprios professores”.

Além disso, afirma que falta risco à música atual. “Quando foi a última vez que alguém te assustou? Nos setenta, na época dava medo. Agora não há nada para copiar”.

É curioso, porque construiu seu mito tentando ser um artista que pudesse entrar na sala de qualquer casa. A princípio, evitando ser visto como um artista para o público negro. Algo que ainda considera obstáculo para as relações com a indústria. “Só é preciso olhar para a história. O U2 ama sua gravadora. Mas [a estrela do soul] Sam Cooke morreu por sua culpa”, afirma taxativo quando lhe perguntam se as relações com os selos são mais difíceis no caso dos artistas negros. No início chegou a ocultar sua origem dizendo que a mãe era italiana. Hoje parece ter esquecido disso e ri do caso da ativista pró-direitos dos afro-americanos Rachel Dolezal, que mentiu sobre sua raça. “Essa senhora que afirmava ser negra quando era branca”, diz, e faz um gesto malicioso.

Agora sente que é apreciado, afirma. “Mais respeitado e ouvido que nunca. Hoje posso fazer muito mais coisas.” Depois de testar todo tipo de distribuição para seus álbuns, tem 38 em 37 anos de carreira, acredita ter dado com o segredo: Tidal, a plataforma criada pelo rapper Jay Z para concorrer com o Spotify e a Apple Music. Nela publicou seu último disco, Hit n’Run, em setembro. Somente em formato digital. Ele, que dissera que a Internet havia morrido. “E tinha razão: dê-me um músico que tenha ficado rico com as vendas digitais. No entanto, a Apple se sai bastante bem com isso, não?”

Desce do palco tão logo se despede. A última surpresa nos espera, um concerto em nossa honra. Ele o convocou nesta mesma tarde, mas a sala está transbordando. Diante do palco colocou poltronas e almofadas. O resto está cheio de mesas altas com banquinhos. A ordem é não começar enquanto todo o público não estiver sentado. “Mas por que tenho de sentar-me?”, diz um rapaz na faixa dos vinte anos a um dos porteiros. Está apoiado em uma parede sem incomodar ninguém e, se se agachar, não verá nada. “Porque ele não quer assim”, lhe respondem. E o jovem se acomoda no chão. Há coisas que não se discutem.

Um ás na manga

Diego Manrique

Parafraseando Mario Vargas Llosa, deveríamos perguntar-nos: em que momento se fodeu a carreira de Prince? Digamos que foi em 1993, quando exigiu ser identificado por um símbolo impronunciável. Depois da inevitável gozação, os órgãos da mídia decidiram rebatizá-lo de “o artista antes conhecido como Prince”.

Havia certo método em sua loucura. Alguns sugerem que realmente acreditava que, mudando de nome, anulava o acordo firmado com a Warner Bros. No final, resolveu seus compromissos contratuais lançando cinco álbuns entre 1994 e 1996. Discos comercialmente pouco atraentes, que lembravam o conflito original: a Warner queria espaçar seus lançamentos, dado que suas vendas caíam desde 1989, quando chegou ao número um com a trilha sonora de Batman, graças à força promocional de Hollywood.

Ninguém discute o talento de Prince, capaz de gravar discos inteiros sozinho, tocando todos os instrumentos e até mudando de voz. Sem esquecer seu ecletismo: sem esforço, salta do funk ao rock ou ao pop. Outra questão é que soubesse como prolongar o interesse do grande público, atraído por Purple Rain e os extraordinários álbuns que vieram em seguida.

O problema: seu contrato era oneroso para a Warner, já que incluía financiar seu selo particular, Paisley Park Records, que não produzia sucessos. E Prince se negava a olhar as contas. Existem técnicas para manter a visibilidade, a reputação de um artista cujas vendas passam por um baque. São sutilezas legítimas que, precisamente, as multinacionais dominam.

Pelo contrário, Prince se tornou independente e tomou decisões erradas. Editou muitos discos dos quais poucos se inteiraram (eram vendidos por correio ou por meio de pequenas distribuidoras). Também publicou material vistoso em poderosas empresas –EMI, Arista, Columbia, Universal, e até voltou à Warner!– que esperavam garantir seus serviços a longo prazo. Mas não: para o projeto seguinte, experimentava com outra gravadora. Parece sentir prazer cutucando-as: fez um acordo com a Sony para a distribuição mundial de Planet Earth (2007) em avisar que seriam presenteadas milhões de cópias com o jornal britânico The Mail on Sunday. Extremamente zeloso em seus direitos, seus funcionários patrulham a Internet para evitar que apareça qualquer vídeo ou áudio que não seja oficial. Ameaçou entrar com ações milionárias contra sites que agrupam seus fãs.

As transmissões ao vivo são o ás que esconde na manga. No show business norte-americano se sussurra que Prince costuma ser o promotor dos próprios concertos: aluga espaços e espera que o boca-a-boca funcione. E funciona: os fiéis sabem que suas atuações são imprevisíveis, torrenciais. Assim, sem pagar a intermediários ou fazer publicidade, leva uma fatia maior do bolo do que os seus colegas.

Até torna rentável suas lendárias aparições after show. Antes se tratava de um momento de relaxamento: depois de atuar em um espaço grande, buscava um local pequeno para tocar no capricho. Agora essas atuações íntimas estão anunciadas e tarifadas com entradas de preços astronômicos. Aqui tampouco abre exceções em questões de copyright: quando algum espectador VIP pega o celular, é imediatamente expulso por seu serviço de segurança.

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