Alemanha reforça luta contra Estado Islâmico com o envio de 1.200 soldados

Merkel atende pedidos da França e, sem usar a palavra "guerra", entra num longo confronto

Angela Merkel durante a reunião semanal de Governo em Berlim, nesta terça.
Angela Merkel durante a reunião semanal de Governo em Berlim, nesta terça. Michael Sohn (AP)

A Alemanha faz os últimos preparativos do arcabouço legal que lhe permitirá lançar uma intervenção militar na Síria contra o Estado Islâmico (EI). O Conselho de Ministros apresentou na manhã desta terça-feira uma proposta que há um mês parecia impensável, mas que os atentados de 13 de novembro em Paris tornaram possível. O Governo prepara uma operação que contará com no máximo 1.200 soldados – o que a transformaria na mais importante do Exército alemão no exterior – para tarefas de reconhecimento, segurança e logística. Os efetivos alemães não participarão diretamente dos bombardeios, mas darão cobertura aos ataques aliados.

A Câmara Baixa do Parlamento (Bundestag) ainda precisa aprovar a proposta do Governo, mas este é um passo previsível em virtude da amplíssima maioria parlamentar da grande coalizão entre democratas-cristãos e sociais-democratas. O debate será realizado nesta quarta, e a votação poderia ocorrer no fim de semana.

Com isso,  a Alemanha se vê arrastada a uma guerra que promete ser longa

Com esta medida, o Governo da chanceler (primeira-ministra) Angela Merkel se vê arrastado a uma guerra que promete ser longa. Embora a operação esteja limitada inicialmente a um ano, Andre Wüstner, presidente da associação que representa o Exército alemão, considera que poderia se estender por uma década. A Alemanha já fornece armas e treina os peshmergas (combatentes) curdos do norte do Iraque, mas esta será a primeira intervenção no vespeiro sírio. “A contribuição alemã se destina à luta contra o terrorismo, para apoiar especialmente a França e o Iraque em sua aliança contra o EI”, diz o texto que o Governo usou para explicar a decisão.

Logo após os ataques de Paris, Merkel mostrou respaldo incondicional à França. Pouco depois, Berlim anunciou que enviaria 650 soldados a Mali para apoiar a França nas atividades no oeste da África, com a intenção de ajudar os franceses a se concentrarem na “guerra” contra o EI, segundo as palavras do presidente François Hollande. Merkel, que não usou a palavra “guerra”, aceitou os pedidos de Paris de ampliar a ajuda também ao front sírio e deu sinal verde para uma operação que conta com meia dúzia de aeronaves Tornado, que fornece combustível aos caças, e uma fragata de apoio ao porta-aviões francês Charles de Gaulle.

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A intervenção militar é acompanhada de esforços diplomáticos para conseguir uma paz duradoura na Síria. Berlim, assim como seus aliados ocidentais, continua descartando colaborar com o presidente Bashar Al-Assad, que considera corresponsável pela tragédia vivida no país. Mas a necessidade de focar na luta contra os jihadistas do EI fez a Alemanha baixar o tom. O Governo alemão não descarta agora colaborar com o Exército do regime sírio, desde que Assad ceda o poder a um Governo de aliança nacional.

“Não haverá cooperação alguma com as tropas sob o comando de Assad”, disse a ministra da Defesa alemã, Ursula Von Der Leyen, na emissora Deutschlandfunk. “Não vamos cooperar com responsáveis que têm suas mãos manchadas de sangue.”

A postura de Berlim se aproxima da expressada recentemente pelo ministro de Relações Exteriores francês, Laurent Fabius. Desse modo, as duas potências tentam não repetir o erro cometido no Iraque, onde a insistência ocidental em retirar todos os elementos do Governo de Saddam Hussein facilitou a decomposição do Estado e o surgimento de grupos terroristas como o EI.

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