Queda de 3,2% do PIB até setembro confirma o pessimismo no Brasil

Consumo das famílias cai há nove meses. Investimentos tem a pior queda desde 1996

A economia brasileira encolheu 1,7% no terceiro trimestre.
A economia brasileira encolheu 1,7% no terceiro trimestre. MARCELO SAYÃO (EFE)

A divulgação do PIB do terceiro trimestre nesta terça-feira confirmou o quadro que já se percebe nas ruas do Brasil: a economia continua andando em marcha a ré, e registrou queda de 1,7% no terceiro trimestre deste ano, em relação ao trimestre anterior. Na comparação com o período de julho a setembro de 2014 a queda é ainda mais evidente, marcando um recuo 4,5%. De janeiro a setembro, o PIB já caiu 3,2%, confirmando as projeções mais pessimistas do mercado para este ano.

Até o fim do ano passado, o consumo das famílias crescia sem parar, desde o final de 2003. Sem demanda, as empresas também congelaram investimentos, o que deve dificultar a retomada do crescimento no ano que vem. A Formação Bruta de Capital Fixo, medida utilizada para mensurar o capital investido pelo setor privado, caiu 15,0% no terceiro trimestre em relação ao ano passado, a maior da série histórica iniciada em 1996.

Até mesmo a agricultura, que sempre fez o contraponto ao desempenho negativo dos demais setores, registrou retração de 2,4%. A indústria, por outro lado, caiu 1,3% em comparação ao trimestre anterior, e 6,7% em relação ao ano passado. A construção civil, que está parada desde o ano passado com a redução dos investimentos do Governo e diretamente afetada pelas investigações da Lava Jato, acentuou o quadro de recessão, com um recuo de 6,3% em comparação ao ano passado.

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Em valores correntes, o PIB no terceiro trimestre do ano alcançou 1,481 trilhão de reais. A perda de ritmo econômico, neste ano, é fruto de uma combinação de fatores, que vão da alta de preços e um crédito mais caro já que a taxa de juros se mantém elevada exatamente para reduzir a inflação. O IPCA, índice oficial da inflação, soma, até outubro, 8,52%, o maior patamar desde 1996. Para completar, o mercado de trabalho esfriou: o país perdeu, até outubro, 818.918 postos de emprego,  segundo dados do Cadastro Geral do Ministério do Trabalho.

Diante desse quadro, o consumo das famílias brasileiras, que por um longo período impulsionou o crescimento da economia, voltou a recuar pelo terceiro trimestre consecutivo. O corte de gastos dos brasileiros resultou numa queda de 4,5% em relação ao ano passado, segundo dos dados do IBGE divulgados nesta segunda.

A turbulência política também contribuiu para o desempenho fraco da economia brasileira. "A turbulência política tem impacto, só não temos como mensurar quanto foi", afirmou a gerente da Coordenação de Contas Nacionais do IBGE, Claudia Dionísio.

No setor externo, as notícias também não foram boas. Mesmo com a forte valorização do dólar ante o real, o que deixa as exportações muito mais vantajosas, as vendas de bens e serviços para o exterior caiu 1,1%. As importações seguiram a mesma tendência e recuaram 6,9%, no terceiro trimestre. Em relação ao mesmo período do ano passado o tombo foi ainda mais acentuado, registrando queda de 20%.

A taxa de investimento no terceiro trimestre foi de 18,1% do PIB, inferior à do mesmo período do ano passado que atingiu 20,2%. A taxa de poupança também encolheu, passou de 17,2%  no ano passado, para de 15,0% neste terceiro trimestre.

O cenário para o futuro se mantém nebuloso diante da crise política que não para de ganhar novas nuances. Com a popularidade em baixa, a presidenta Dilma Rousseff passou o ano tentando aprovar projetos para garantir austeridade e colocar as contas públicas em dia, depois de estourar os gastos público no ano passado. O Congresso, porém, jogou pesado contra Dilma, que teve de gastar energia para defender-se de um processo de impeachment.

Sem apoio, a presidenta chegou ao final de 2015 tendo de publicar um decreto para congelar11 bilhões de reais em gastos do Governo. Com menos recursos, o setor público, responsável por quase um terço do PIB, torna-se um agente que também inibe investimentos e aumenta a sensação de recessão no país.

O setor de construção, que tem peso importante nos investimentos, vive um situação peculiar com as principais empresas do ramo implicadas no processo de investigações da Lava Jato. Odebrecht e Andrade Gutierrez, por exemplo, estão às voltas com a prisão de seus principais executivos e enfrentam dificuldades financeiras com a restrição ao crédito e a falta de perspectivas depois de serem surpreendidos pelas ações do Ministério Público.

Segundo a pesquisa Focus, do Banco Central, que levanta as projeções de mais de 100 instituições financeiras do país, a expectativa do PIB para 2016 é de uma queda de 2%. Não por acaso, o FMI já projeta que o Brasil deve cair para nona posição no ranking global de economias, depois de ter flertado chegar ao quinto posto nos anos dourados da era petista no poder.

 

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