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Esteves continua preso após pedido de Janot por “ofensa gravíssima”

Supremo converte detenção temporária em provisória. Banqueiro renuncia à presidência

Esteves é transferido para o Presídio Ary Franco, na quinta-feira 26.
Esteves é transferido para o Presídio Ary Franco, na quinta-feira 26.Fernando Frazão (Agência Brasil)

O banqueiro André Esteves, principal sócio do banco BTG Pactual, que deveria concluir sua prisão temporária à zero hora desta segunda, vai continuar preso por determinação do Supremo Tribunal Federal. A decisão foi tomada um dia depois do pedido da Procuradoria Geral da República de que a prisão do banqueiro fosse estendida. Segundo comunicado da PGR, a conduta do banqueiro desde a sua detenção na última quarta-feira, dia 25, configura “ofensa gravíssima à ordem pública”. O pedido de conversão de temporária para preventiva ocorre, segundo o procurador Rodrigo Janot, porque os objetos apreendidos na quarta e os depoimentos prestados por ele, demonstram “evolução em desfavor de André Esteves”. “Esteves tem claro interesse em que não venham à tona colaborações premiadas que o vinculassem a fatos criminosos apurados na Operação Lava Jato”.

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Na noite deste domingo, o banco informou que André Esteves renunciou à presidência executivo do BTG, bem como ao cargo de presidente do Conselho de Administração. Em seu lugar assume Pérsio Arida, economista referência no país, um dos pais do plano Real que debelou a inflação no Brasil em 1994 e que foi presidente do Banco Central durante o Governo Fernando Henrique Cardoso. John Huw Jenkins, sócio do BTG em Londre, será o número 2 do banco.

Esteves foi preso por agentes da Polícia Federal na semana que passou depois que os investigadores da operação tomaram ciência de uma gravação onde o senador petista Delcídio do Amaral propunha ao advogado Edson Ribeiro, que defendia o ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró, um plano de fuga e uma mesada de 50.000 reais pagas pelo banco BTG Pactual para que seu cliente não assinasse a delação premiada. O Supremo acatou também a extensão da prisão de Diogo Ferreira, assessor de Delcídio. Janot justificou o pedido de Ferreira com as mesma razões descritas para André Esteves: “ofensa gravíssima a ordem pública diante da conduta dos dois investigados”.

Segundo a PGR, objetos apreendidos com o assessor do senador demonstram “densa participação dele no embaraço à investigação do crime de organização criminosa e no auxílio ao ao senador par explorar seu prestígio perante ministros do STF”. Um documento encontrado na casa de Diogo Ferreira teria anotações de uma suposta transação entre o BTG Pactual e o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, segundo informa o jornal O Globo. Cunha nega as insinuações que classificou como absurdas, ainda segundo O Globo.

Esteves é acusado de obter, ilegalmente, acesso à minuta do acordo de delação premiada de Cerveró, o que revelou o vazamento de informações das investigações da Lava Jato. A descoberta foi possível graças à gravação do encontro de Delcídio e o advogado de Cerveró, testemunhada pelo seu filho, Bernardo Cerveró, que gravou a conversa e a entregou para as autoridades.

Em seu depoimento à Polícia Federal, o banqueiro confirmou ter se encontrado pessoalmente com o senador Delcídio do Amaral cinco vezes, sendo a última vez em outubro, na sede do banco em São Paulo. Segundo informações de diversos veículos, ele teria relatado que a reunião mais recente com o senador, líder do governo do PT no Senado, teria tratado da conjuntura econômica.

Ao que tudo indica, o banqueiro, que já foi apontado como o executivo mais admirado do mundo dos negócios no Brasil, teme que informações a respeito da atuação do banco em negócios ligados à Petrobras venham a público. Entre eles, a compra de ativos da Petrobras na África em meados de 2013. Uma investigação do Tribunal de Contas da União apontou suspeitas de que a venda de participação em blocos de exploração de petróleo em seis países para o BTG Pactual foi feita por metade do valor real.

Outra suspeita é de que houve pagamento de propina em uma operação envolvendo a BR Distribuidora, ligada à Petrobras, e a DVBR, empresa de postos de combustíveis com participação do BTG Pactual, para garantir a marca da BR nos postos do BTG. Neste caso, teria sido pago propina ao senador e ex-presidente Fernando Collor, segundo depoimentos de Youssef e Cerveró.

O processo que só está no começo contra Esteves já gera consequências práticas para o banco fundado por ele em 2008. As ações das empresas geridas por ele tiveram queda substancial e clientes começaram a sacar recursos. Além disso, as agências de rating colocaram o banco em observação negativa. Nesta semana, o banco coloca à venda sua participação na rede de hospitais D'Or, um dos negócios onde o BTG tem participação. Segundo o Estado de São Paulo, a fatia nesse ativo está avaliada em 2 bilhões de reais.

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