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Brasileiros residentes comparam Mauricio Macri com Aécio Neves

Os 41.000 brasileiros que vivem na Argentina temem as mudanças econômicas

Mauricio Macri, eleito presidente da Argentina.
Mauricio Macri, eleito presidente da Argentina. AFP

As eleições presidenciais da Argentina – que passaram de uma vitória garantida do candidato de Cristina Kirchner, Daniel Scioli, para a eleição no segundo turno do seu opositor Mauricio Macri – não polarizaram apenas os argentinos que foram às urnas neste domingo para escolher o próximo presidente. Os dois candidatos também dividiram a preferência dos 41.000 brasileiros que moram no país, que viram muitas semelhanças no pleito argentino com a disputa entre Aécio Neves e Dilma Rousseff no ano passado no Brasil. O grande temor agora é o aumento de custo de vida que a mudança de governo pode proporcionar no cotidiano deles a partir de agora.

Apesar da alta inflação da Argentina, cuja estimativa é que termine o ano em 30%, morar no país acaba se tornando mais barato para o brasileiro devido ao alto subsídio estatal nos serviços, como transporte público, energia elétrica, gás e água encanada. No câmbio paralelo a moeda brasileira chega a valer até quatro vezes mais que a argentina. No câmbio oficial o real vale 2,50 pesos.

O câmbio paralelo ganhou ainda mais fôlego a partir das restrições criadas pelo governo Kirchner para a compra de dólares pelas vias oficiais, devido à baixa reserva de moeda americana no Banco Central argentino. Uma bandeira de Mauricio Macri é liberar o câmbio e elevar a cotação oficial, o que poderia desestimular o câmbio paralelo. Não se sabe ao certo de que forma essa liberalização seria aplicada. Mas, ela já causa apreensão. Recém-chegado ao país, o baiano Javison Silva, 24 anos, teme não poder mais se manter a partir da troca da moeda brasileira nesse mercado negro. “Eu vim para aprender espanhol e pretendo ficar mais dois anos. Se Macri cumprir com essa proposta, a minha renda mensal pode cair em 50%. Por isso, eu espero que Scioli ganhe”.

Outro receio entre os brasileiros que vivem no país é o corte dos subsídios aos serviços públicos após a mudança de governo. "Sem os subsídios vai ficar difícil pagar as contas, porque moro sozinha. Macri aumentou a tarifa do metrô que era 1,10, em 2012, e que hoje pagamos 4,50", comenta a paulista Cláudia Teixeira, 35 anos, que há dez anos se mudou para Buenos Aires para estudar tradução científica-literária e hoje atua na área.

Prefeito da cidade de Buenos Aires desde 2008, Mauricio Macri ainda é lembrado por outras medidas impopulares como um pesado reajuste no imposto sobre os imóveis (o equivalente ao IPTU brasileiro) em torno de 1000% ao longo do seu governo. O seu posicionamento pró-mercado também gera incertezas em relação às políticas trabalhistas. "Uma das primeiras coisas que Macri pode fazer é acabar é a negociação com as paritárias, que garantem um reajuste de salário todos os anos. Minha vida melhorou muito com isso. Se eu votasse na Argentina, seria em Scioli", afirma Teixeira.

“As políticas propostas por Macri e sua equipe são liberalistas, se aproximam muito do que foram os anos 90 em toda América Latina e que agravaram as desigualdades e a crise econômica. Vejo Macri sem força e vontade de negociar com grandes empresas a favor do povo", defende a arquiteta paulista, Viviane Forga, 26 anos, que veio há três anos para fazer um mestrado e agora é doutoranda. “Acho que a situação de qualquer pessoa vai ficar mais difícil, inclusive até pior para os estrangeiros com Macri no poder. O partido dele é contra a estrangeiros estudarem de forma gratuita e a serem atendidos por hospitais públicos do país”, acrescenta.

Muitos dos temores sobre o futuro com Macri vieram da campanha eleitoral. Scioli não perdeu a oportunidade de mostrar que o lado liberal do seu opositor poderia dificultar os ganhos sociais do kirchnerismo. Não por acaso, para muitos brasileiros, a disputa entre os dois candidatos finalistas na Argentina se assemelhou à polarização Dilma x Aécio, nas eleições do ano passado. Quem apoiou Aécio na eleição passada se identificou agora com Macri. É o caso da estudante Natália Rampim, 23 anos, natural de Goiânia, que veio para a Argentina com o objetivo de estudar medicina. “Com anos e anos de PT no poder eu pude ver muita coisa. Tudo me parece muito igual na Argentina”, compara. “Os dois governos limitam os pensamentos da população de classe baixa para que os acompanhe. As propostas do Macri são de realmente provocar mudanças no país. O principal é mudar a economia que está cada vez mais desvalorizada”, argumenta a estudante.

A baiana Michele Gonçalves, 34 anos, que se mudou há dez anos para fazer uma especialização em marketing, concorda. “Acredito que doze anos no poder é bastante tempo e é momento de mudar. Scioli não conseguiu bons resultados na sua administração na província de Buenos Aires. Já Macri considero que fez um belo trabalho com a cidade de Buenos Aires, que é segura, se comparada com as capitais do Brasil, com desenvolvimento do transporte público e da educação. Falam muito bem das creches aqui. Já visitei uma e achei fabuloso”, afirma Michele, que é casada com um argentino e tem um filho.

Para Leonan Ramos, de 28 anos, que há cinco se mudou de Belo Horizonte para Buenos Aires para estudar administração de empresas, Scioli representa a continuidade de um modelo de governo já insustentável, na sua opinião. “O desenvolvimento social não se sustenta sozinho. O país deve muito, gasta muito, arrecada pouco e já não consegue atrair investidores, justamente pela falta de liberdade econômica. Acredito que Macri poderá mudar essa visão de má pagadora que a Argentina tem no exterior e atrair investimentos", diz ele que trabalha em uma empresa de consultoria da argentina.

Ajustes

Seja como for, o cenário mais provável a partir de agora é que a Argentina vai atravessar um 2016 de muitos ajustes, a exemplo do Brasil neste ano. “Com Macri ou Scioli eleitos, o país vai necessitar de ajustes e duvido da capacidade da sociedade de administrar essa tensão”, analisa o economista argentino Rodrigo Alvarez, diretor da Analytica Consultoria. Depois do primeiro turno, a equipe de Scioli passou a abordar o corte dos subsídios diante de uma vitória de Macri. A oposição tratou o caso como uma “campanha do terror” por parte do oficialismo e Macri não se posicionou objetivamente sobre essa questão.

“Vejo uma situação semelhante com a que ocorreu no Brasil, em que Dilma ganhou com uma mensagem de não ajuste e ela mesma teve que realizá-los. Ocorreria algo semelhante com Scioli. Macri está apostando em uma mensagem de mudança, só que as pessoas não estão conscientes das implicações dessa mudança em matéria econômica”, afirma Alvarez.

O especialista ressalta que os 4% do Produto Interno Bruto gastos para subsidiar os serviços públicos representam metade do déficit do país, hoje em torno de 8% do PIB. “É preciso colocar as contas do país em ordem para promover os ajustes na economia”, afirma Alvarez. Na sua opinião, a questão cambiária é o problema mais urgente a ser resolvido, por conta do volume de dólares que o país vem perdendo, atualmente estimados entre 500 milhões e 700 milhões de dólares por mês. “Os dois candidatos coincidiam nesta questão. Macri prometeu ajudar o câmbio nos primeiros dias de governo. Só que o país não tem uma reserva suficiente de dólares. Além disso, considerando que com o câmbio atual a inflação sobe entre 1% e 1,5% por mês, se o dólar passasse de 9,50 para 14 pesos, teríamos que pensar em uma inflação de 40%”, detalha.

Dessa forma, já é esperado que os ajustes elevem o custo de vida no país. A expectativa é que essas medidas sejam tomadas já no primeiro ano de governo, segundo o cientista político e diretor da Isonomias Consultores, Pablo Knopoff. “A população não está esperando decisões impopulares. Isso não foi abordado claramente na campanha. No entanto, quanto mais elas forem adiadas, maior será o impacto social. Além disso, é preciso colher os resultados positivos dessas medidas já no segundo ano de governo para conseguir um bom resultado nas eleições de 2019”, conclui Knopoff.

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