ENTREVISTA I MOREIRA FRANCO, DIRIGENTE DO PMDB

Moreira Franco: “Descalabro que país vive não tem participação do PMDB”

Ex-ministro critica o Governo, mas diz que o momento não é para impeachment

O ex-ministro Moreira Franco.
O ex-ministro Moreira Franco.ACS/SAE

Apoiando o Governo petista há 13 anos, o PMDB, do vice-presidente Michel Temer, não tem nenhuma responsabilidade sobre a crise econômica que assola o país, afirmou Moreira Franco, ex-ministro da gestão Dilma Rousseff, em entrevista ao EL PAÍS Brasil. Atual presidente da Fundação Ulysses Guimarães (um instituto dos peemedebistas), Franco é um dos principais articuladores do PMDB no Congresso Nacional.

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Pergunta. Qual a avaliação que o senhor faz do encontro do PMDB na última semana?

Resposta. Muito positiva. Tivemos a presença de representantes de todos os Estados brasileiros e uma participação nas redes digitais de mais de um milhão de pessoas. O partido voltou a discutir propostas políticas, não cargos. Afirmamos a ideia de que é necessário se ter um programa para tirar o Brasil da mais grave crise econômica de nossa história e depois vamos cuidar da questão política.

P. Como assim, a questão política depois?

R. Saímos do dilema, da camisa de força que querem nos impor que é de ficar discutindo o impeachment do Eduardo Cunha, da presidente Dilma, dos acordos que eles fazem, das traições que cometem. Nós conseguimos mobilizar toda a militância e distribuímos o nosso documento, “Uma Ponta para o Brasil”, para todos os Estados. E iniciamos um debate não sobre uma torcida contra um ou contra outro, mas sim para retirar o Brasil da crise.

P. Qual a gravidade desta crise, na sua opinião?

R. A ferocidade da crise que vivemos é muito grande. Nós devemos até o final do ano bater dois dígitos de desemprego. Ficamos uma geração inteira sem ter problemas com desemprego no Brasil. As pessoas não têm mais o hábito de conviver com o desemprego. Da mesma maneira, temos uma geração que desconhece os sistemas de proteção de um ambiente inflacionário. Quem hoje no Brasil tem 34 anos não sabe o que é inflação. Não sabe se proteger nem em casa nem no próprio negócio porque quando começou a mexer com dinheiro, já tínhamos uma moeda estável. E agora, começamos a perder esse ativo que é fundamental para a sociedade que é você ter moeda. Já vivemos no Brasil uma inflação de mais de 80%. A minha geração sabe o que é isso. Tivemos 40 milhões de brasileiros que nos últimos dez anos entraram no mercado de consumo. Pessoas que melhoraram de vida, sobretudo jovens, mulheres e negros. São pessoas que se qualificaram. Setores como o de cosmético, de higiene e de beleza, tiveram um crescimento enorme. As famílias brasileiras estão fazendo o seu ajuste, mas o Governo não consegue fazer o ajuste. É injusto.

P. Acha que o país corre o risco de termos uma inflação tão alta e uma moeda tão frágil como tivemos há pouco mais de duas décadas atrás?

R. Não vai porque estamos dedicados exclusivamente a formular uma alternativa e a colocamos em discussão. A aceitação que a sociedade dá à nossa proposta é grande, mas o tempo corre contra nós. Temos consciência que essa proposta tem de ser colocada o mais rápido possível. Mas ela não é só ajuste. Você tem de restabelecer a credibilidade do Governo. Você tem que dar horizonte. Tem que transmitir metas para que as pessoas se organizem. O PIB vai cair neste ano 3% e no ano que vem a projeção é de menos 2%. A última vez que tivemos uma situação parecida, com duas quedas seguidas e nesse patamar, foi em 1930. Diante deste quadro, achamos que o fato de termos conseguido colocar essa questão com a dramaticidade que tem na agenda foi um grande ganho para a população brasileira. Os brasileiros não querem assistir a brigas entre o presidente da Câmara e  da República. O ano eleitoral foi no ano passado, quando você fulanizava os culpados. Mas isso só fez com que perdêssemos, do ponto de vista econômico, o ano de 2015. E agora, estão querendo que seja a repetição da fulanização eleitoral. O PMDB não vai permitir isso. Temos que ter uma alternativa para tirarmos o Brasil da crise.

P. O Governo Dilma Rousseff tem condições de tirar o Brasil da crise?

R. Nós não estamos ainda fazendo uma avaliação política. Isso pressupõe imediatamente discutir de quem é a responsabilidade por isso. Nós do PMDB nunca participamos de formulação de política econômica.

P. Mesmo estando no Governo nunca participaram de nada nessa área?

R. Nunca. Mais ainda, o vice-presidente Michel Temer assumiu a articulação do ajuste econômico no Congresso apesar de nunca termos participado de nenhum dos projetos apresentados. Participamos daquele processo porque sempre nós achamos que o equilíbrio fiscal, inflação controlada, câmbio livre são fundamentos essenciais para estabilidade econômica e para o crescimento. Defendemos esse ponto de vista nos governos Fernando Henrique Cardoso, no Lula e no Dilma. Quando digo defender, digo votar. Votamos porque somos favoráveis a esse projeto. Quem mudou de posição foi o PT e o PSDB. No Governo Fernando Henrique quem era contra era o PT. Agora, no Governo do PT, o PSDB é contra. Nós, do PMDB, não. Sempre mantivemos a mesma posição. Quando nós tivermos uma maioria, em torno do nosso plano, da adesão da sociedade do plano, aí vamos ter ambiente para discutir a questão política. Nós não temos energia para discutir as duas coisas ao mesmo tempo.

P. Quando o PMDB apresenta essa proposta, chamado de programa de governo, não se trata de uma antecipação da campanha de 2018?

R. Creio que não. Se não estivéssemos nessa crise econômica que estamos, o partido estaria discutindo a eleição municipal. Se tivermos um bom desempenho na eleição municipal, teremos uma base de sustentação fundamental para bons resultados nas eleições gerais. Se a situação estivesse normal, estaríamos discutindo 2016, e não estamos. Muitas vezes me perguntam: “Você está vendo luz no fim do túnel?”. E eu respondo: “Não estou vendo túnel”. Estamos agora querendo construir uma ponte, um túnel. O PMDB sempre foi um construtor de pontes. Quando a situação se agrava, o PMDB sempre apresenta uma alternativa. Assim foi quando derrubamos a ditadura, sem matar ninguém, atuamos pela política. Assim foi quando demos ao país uma Constituição, em 1988. Assim foi quando apoiamos a recuperação da moeda. Assim foi quando apoiamos as políticas de avanço social. E agora a nossa preocupação não é eleitoral. O desafio não é ficar no tititi da luta política, tampouco eleitoral. Temos que saber como tirar o Brasil da crise.

P. Saiu da discussão interna o assunto impeachment da Dilma?

R. Existe no partido muitos militantes e companheiros no parlamento que são favoráveis à retirada do apoio do PMDB. Mas a pergunta que faço é: isso não contribui para resolver o problema da família brasileira que está lá no sufoco? Acho que não. Nossa situação é gravíssima. Cada vez vemos um número maior de desempregados. O que vejo é que o brasileiro tem e sempre teve condições de sair da crise. Cada vez mais cresce o número de pessoas que perdem o emprego e decidem empreender porque não vale a pena trabalhar por salários tão pequenos diante de uma inflação grande. Temos esse cenário de brasileiros querendo dar a volta por cima. Mas falta Governo.

P. Falei com vários peemedebistas que dizem que o senhor e o ex-ministro Geddel Vieira Lima são os principais articuladores da tese do impeachment dentro do PMDB. O senhor ainda defende o impeachment?

R. O ministro Geddel, sim. Mas você nunca viu declaração minha nesse sentido. Creio que temos de ter muita cautela. A instabilidade política não é um bem. A sociedade brasileira está muito dividida. Há uma radicalização muito grande. O índice de desaprovação da presidente é muito alto. Em alguns Estados, não é rejeição, é ira. Temos de preservar nossas instituições, ter cautela na condução das mudanças para que não desorganizemos nosso arcabouço institucional. Não há dúvida de que o país quer e vai mudar. E nesse ambiente, o impeachment não é uma coisa trivial. Se você tratar o impeachment como trivial, você vai desorganizar a vida política e administrativa do país. Temos de ter cautela, prudência.

P. Como fica a situação do Eduardo Cunha no partido? Há alguma possibilidade de ele ser investigado internamente?

R. Nós não fazemos isso.

P. Por quê?

R. Porque existem instituições que já fazem isso.

P. Mas, não pega mal para o partido ter em seus quadros um cidadão com tanta suspeitas criminais contra si?

R. Não vou ser leviano para dizer que não, que é uma coisa trivial. Claro que não é. Agora, diante disso você tem duas atitudes. Uma autoritária, meio fascista, de expulsar ou fazer uma investigação interna. E não precisa, existem órgãos para fazer isso. Nós, o PMDB, somos os responsáveis por dar ao Brasil uma Constituição que define o direito de defesa ao mesmo tempo que protege o Ministério Público. Respeitamos a presunção de inocência. Nós nunca nos reunimos para acobertar mal feitos. Agora, nós garantimos o espaço para a pessoa se explicar. Se condenada, é outra coisa. E outra coisa, o Eduardo Cunha não foi julgado ainda.

P. Até dentro do PMDB há quem critique o Cunha.

R. Sim, mas isso é da política. Agora, uma coisa: o PMDB nunca se organizou para fazer mal feito. Existem pessoas que militam no partido que praticam mal feitos.

P. Quando o senhor fala isso, o senhor se refere à operação Lava Jato?

R. Falo de todas as investigações. Nunca houve um tesoureiro do partido se organizando para obter ilícitos.

P. E os que estão sendo acusados de serem lobistas do PMDB?

R. Nunca receberam nada, nunca estiveram na estrutura partidária para ficar fazendo esse tipo de coisa. Pode ser que uma ou outra pessoa faça, mas ninguém em nome do partido.

P. O PMDB elaborou uma série de propostas no documento denominado Uma ponte para o futuro. Qual a chance do Governo Dilma, na sua opinião, aceitar incorporar esse programa à sua gestão?

R. Não sou porta-voz do Governo. Não sei.

P. Vocês nunca foram chamados para discutir a política econômica, mas tem sete ministros de dezenas de cargos na máquina governamental. Não consegue imaginar se o Governo poderia ceder ao PMDB e incorporar suas propostas?

R. Nós nunca fomos chamados para essas discussões. Não sei. Mas uma coisa eu sei, o Brasil jamais saiu da crise pelo silêncio. Só saiu pela esperança e esperança significa propostas. Até agora, tínhamos silêncio e agora temos nossas propostas.

P. O PMDB apoia o Governo do PT desde o início. Em algum momento, vocês pensam em fazer um mea-culpa pela crise deste tamanho?

R. Seria leviano de minha parte dizer que não temos responsabilidade política. Sim, essa temos. Sobretudo agora no segundo mandato da presidenta Dilma, ela foi eleita porque o PMDB apoiou. Nós tivemos uma convenção muito dividida e decidimos no voto apoiá-la. Agora, responsabilidade econômica, não temos nenhuma. Esse descalabro que o brasileiro vive hoje não tem nossa participação. O brasileiro hoje está tonto. Ele desconfia dos políticos, das instituições políticas, a irritação dele é crescente e ele não vê alternativa. E nós também não víamos até então. Éramos reféns dessa briguinha, desse tititi político-eleitoral em que a expressão maior dele é essa briguinha entre o Eduardo Cunha e a Dilma Rousseff. Agora, achamos que temos um caminho, está na hora de sair disso.

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