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O encontro entre o titular e o ‘reserva’ da Fazenda

Evento reúne Joaquim Levy e o ex-presidente do BC Meirelles, que Lula quer no posto

Robson Braga, Meirelles e Levy, no encontro da CNI.
Robson Braga, Meirelles e Levy, no encontro da CNI. CNI

Um evento de industriais planejado há quase um ano acabou, sem querer, servindo de cenário para uma exibição conjunta entre o atual ministro da Fazenda, Joaquim Levy, e o principal nome nas bolsas de apostas para substituí-lo no ano que vem, o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles. Ambos almoçaram juntos e proferiram palestras, um após o outro, durante o Encontro Nacional da Indústria, promovido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), em Brasília.

Levy falou primeiro e disse que sua rápida palestra, de onze minutos, seria uma introdução para a de Meirelles, com quem ele afirmou que concordava com tudo. “Queria fazer palavras introdutórias ao meu querido presidente Henrique Meirelles que já quero avisar que concordo com tudo o que ele vai dizer. Porque a gente já fez muita coisa juntos e é grande a afinidade de pensamento.” Levy foi secretário do Tesouro Nacional no início do Governo Lula, quando Meirelles presidiu o Banco Central.

Com as frequentes críticas do PT, de movimentos sociais e com a falta de apoio no Congresso Nacional, crescem as chances de Levy deixar a cadeira que ocupa desde janeiro deste ano. Oficialmente, tanto o ministro quanto o Governo Rousseff dizem que ele fica no cargo. Mas nos bastidores, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que já conseguiu emplacar o titular da Casa Civil na última reforma ministerial, trabalha para convencer a atual presidenta a trocar Levy por Meirelles. Os aliados do líder petista dizem que a substituição só não ocorreu para não tumultuar ainda mais o já catastrófico cenário para o Executivo dentro do Congresso, onde nenhuma das medidas da segunda etapa do ajuste fiscal foram votadas até o momento. Por isso, a troca só ocorreria no ano que vem.

Questionado se recebeu o convite para substituir seu amigo Levy, Meirelles negou, dizendo que não trabalha com hipóteses. “Tenho uma postura há muito tempo na minha vida que não trabalho, nem penso e nem falo sobre hipóteses porque é perda de tempo. Trabalho com questões concretas e definitivas.” Mesmo todos os lados negando, a simples notícia de uma eventual troca no comando do ministério que tem a chave do cofre da União animaram a Bolsa de Valores, que operou em alta nesta quarta-feira.

Estilos e habilidade política

Se ocorrer a substituição, o que se notará é uma troca de estilos dentro do Governo, e não de diretriz geral sobre os ajustes nas contas. A mais clara é a base de apoio de cada um. Levy atualmente só tem suporte de uma ala do PMDB comandada pelo vice-presidente Michel Temer. Meirelles, que já foi filiado ao PSDB, PMDB e PSD teria, segundo interlocutores da gestão Rousseff, mais condições de buscar alicerces na classe política e entre o meio empresarial. No evento da CNI dezenas de representantes de federações de indústrias o elogiaram.

Como se vê mais uma vez na berlinda, Levy retomou os contatos políticos. Na noite de terça-feira, ele se reuniu com senadores do PMDB e da base aliada na casa do senador Eunício Oliveira (PMDB-CE) para ouvir as críticas à sua gestão. Foram quase duas horas de reclamações e, quando pediu para que os senadores do PT o ajudassem a defender a necessidade de aprovação das medidas do ajuste fiscal, obteve pouco apoio.

Ainda assim, na quarta-feira, Levy emitiu uma nota de agradecimento aos senadores e reforçou que sua política econômica depende da aprovação do pacote fiscal. “A política econômica que queremos conduzir entende que o Brasil tem que apresentar opções para a moderação da carga tributária, sem prejuízo do equilíbrio fiscal e respeitando os objetivos de proteção social e estímulo ao trabalho e ao investimento. Esse é o novo contrato social em gestação no Brasil”, diz trecho do documento.

O ponto que estaria emperrando a troca de Levy por Meirelles é a confiança da presidenta no ex-presidente do Banco Central e em uma das exigências que ele teria feito: a de assumir a pasta com autonomia para trocar todos os cargos de confiança e o de ter um aliado seu também no Ministério do Planejamento. Rousseff não está disposta a demitir o atual chefe do pasta, Nelson Barbosa.

Apesar de Levy dizer que concorda com tudo o que Meirelles diz, as falas de ambos marcaram algumas distinções entre eles. Sinalizando que uma das prioridades do Governo é recriar a CPMF (o imposto sobre movimentações bancárias), Levy disse que o país já esgotou todos os instrumentos mais fáceis para a reequilibrar as contas públicas. Por isso, neste momento, seria necessário criar novas taxas. Disse ainda que a presidenta tem pagado o preço político pelo realinhamento da economia brasileira. Meirelles, por sua vez e numa posição mais confortável, ainda fora da cadeira, disse que apesar de o Brasil estar mais forte do que há 20 anos, o país ainda tem um “nível de tributação elevado” e que o ideal era cortar despesas públicas.

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