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Mitos do deserto

Fernando de Szyszlo completou 90 anos e está tão vivo quanto seus quadros. Suas obras são ao mesmo tempo modernas e antiquíssimas, e isso não é uma contradição

Mitos do deserto

Há várias semanas, tomo meu café da manhã em Nova York contemplando seis gravuras de Fernando de Szyszlo. Não sei de que época são, nem creio que isso tenha a menor importância.

Assim como suas pinturas, as seis gravuras são atuais, modernas e antiquíssimas. Em se tratando dele, esses adjetivos não são contraditórios, mas sim complementares, pois uma das características mais atraentes do mundo criado por Szyszlo é transcender o tempo e o espaço, fundindo em suas imagens o passado e o presente, assim como o aqui da sua terra natal, o Peru, com um ali que abarca uma vasta geografia, onde a América Latina faz fronteira com os Estados Unidos, com a Europa e com boa parte do resto do mundo. Dessas misturas nasce a unidade da sua arte, que é atual, cheia de reminiscências do passado histórico e de alianças múltiplas às quais, acrescentando seu febril talento criativo, ele impôs uma personalidade original.

Ao fundo dessas gravuras se adivinham os grandes areais da costa peruana, uma paisagem sobre a qual Szyszlo falou muitas vezes com emoção e que inspirou boa parte da sua obra. Ali surge um interminável deserto, despovoado de homens, mas não dos artefatos fabricados pelos seres humanos, e habitado por criaturas e monstros que erguem seus medos e esperanças. É conhecida a fascinação que sempre exerceram sobre ele as culturas pré-hispânicas do litoral, os tecidos e os mantos de penas, as cerâmicas e as delicadas figuras com as quais os nazcas e os paracas estilizaram pelicanos, biguás, gaivotas, gavinhas, peixes e seus deuses e demônios. Tudo isso está presente nestas seis gravuras, em sua sutil alternância de pretos, cinzas, brancos e amarelos, e nas curiosas figuras que essas pinturas parecem resgatar de sepulturas afundadas na areia para serem expostas em plena luz do dia.

Se tivesse que ficar com apenas uma das gravuras, escolheria sem hesitar a primeira, esta serpente voadora (para chamá-la de alguma maneira), da qual só vemos o terrível rosto e o traço veloz que seu voo deixa no ar, uma estrela astral, um raio ou um relâmpago tão vertiginoso que seu corpo desaparece, deixando apenas um rastro luminoso. A cabeça é uma mistura na qual coincidem todos os habituais ingredientes dos totens e altares que povoam os quadros de Szyszlo há muito tempo, desde que sua pintura deixou de ser não figurativa e ele foi optando por um realismo mítico ou onírico: chifres, fendas, olhos, cilindros. Tudo neles evoca os velhos mitos e as religiões extintas dos antigos peruanos, mas também os pesadelos, súcubos e íncubos com que os surrealistas trataram de capturar os sonhos, ressuscitar a magia e os feitiços primitivos e instalá-los no mundo moderno. Essa serpente prodigiosa sobrevoa um muro feito por mãos humanas no qual, como um enigma que espera ser decifrado, há um orifício com uma lua de metal ou pedra preciosa incandescente.

A segunda gravura também é uma charada, um espaço vazio invadido por signos, retângulos escuros como pistas para extraterrestres ou fantasmas, e um totem negro, efígie muda e pétrea do passado remoto que, no entanto, está viva, a julgar pelo pequeno raio de luz que escapa de sua massa inerte, como um grito de desespero daqueles seres vivos (crianças, principalmente) que, segundo as antigas crenças andinas, eram tragadas pelas pedras e pelas montanhas e mantidas presas em seu seio granítico.

Em suas figuras há sempre uma recôndita violência, uma confusão irracional e, ao mesmo tempo, uma vitalidade clamorosa

Na terceira gravura, as monstruosas serpentes são duas e, além de estarem voando, se poderia dizer que brigaram ou estão dispostas a isso, por causa das formas agressivas e beligerantes com que se cruzam e descruzam, a velocidades impossíveis, silenciosas e ferozes, soltando faíscas como dois pedaços de metal que se atritam.

Nas outras três gravuras, sempre com o fundo desse deserto acinzentado semioculto por uma delicada neblina, aparece um altar de sacrifícios ou um mítico leito nupcial que há muitos anos é o grande protagonista das telas, dos painéis e das esculturas de Szyszlo. Enigmática e complexa figura que às vezes parece expressar o inconsciente de um povo que se pergunta sobre o sentido da vida, o além, algo que está fora de sua compreensão, mas que ele intui que exista, e em outras vezes parece ser uma incursão pelos labirintos do amor, seus mistérios, os prazeres e os impulsos do erotismo, sobre o qual Sade escreveu que somente se alcança sua plenitude quando a morte se aproxima. É uma ideia que de algum modo ronda essas construções que reaparecem, com pontualidade astral, no mundo de Szyszlo.

Sempre nessas figuras há uma recôndita violência, uma confusão irracional e, ao mesmo tempo, uma vitalidade clamorosa, como se todos esses nós, ligaduras, feixes, sementes, bicos e discos estivessem cheios de animação, de febre, e respirassem.

Fernando de Szyszlo completou noventa anos há alguns meses e está tão vivo quanto as imagens que, nestas seis gravuras, acompanham meus amanheceres nova-iorquinos. Devagar e sempre, continua enriquecendo o mundo fascinante que foi construindo desde que, em sua longínqua juventude, abandonou a arquitetura para se dedicar à pintura. Sua primeira adesão foi ao cubismo e logo depois ao não figurativismo, a partir do qual ao longo dos anos iria evoluindo para uma realidade mágica ou mítica de grande sutileza e elegância, na qual, além de destreza e bom gosto, se percebe a presença de outra das suas paixões, a boa literatura.

Foi jovem para a Europa, mas preferiu voltar ao Peru e sobreviver sem fazer concessões

Esteve quando jovem na Europa e aproveitou de sobra a melhor pintura clássica e moderna do Ocidente, e sem dúvida, se tivesse ficado por lá, ou nos Estados Unidos, teria sido reconhecido muito antes como o grande criador de mitos e de imagens que é. Mas ele preferiu retornar ao seu país e fazer ali o que então parecia uma quimera: viver para pintar e tentar sobreviver sem jamais fazer concessões nos domínios artístico, político e moral. Conseguiu e por isso, além de ser valorizado e admirado como criador, exerce há muitos anos um magistério cívico que não é nada frequente na América Latina em se tratando de um artista plástico. Nunca dormiu sobre seus louros. Continua pintando com o rigor e o entusiasmo dos seus anos de mocidade, sem se ter deixado vencer jamais pelo pessimismo ou pela desilusão, batalhando sem trégua atrás da impossível perfeição estética, e para que seu país seja tão livre, tão moderno e tão universal como o universo que ele criou com a pintura.

Estas seis gravuras que contemplo a cada manhã me fazem com frequência recordar do seu lindo ateliê, das tantas batalhas compartilhadas ao longo dos anos, dos amigos que partiram e da nossa indissolúvel amizade. Tudo isso está também de algum modo presente na atmosfera cálida, impregnada de nostalgia, destas imagens que a cada manhã desafiam com sua luminosidade os primeiros frios e névoas do inverno nova-iorquino.

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© Mario Vargas Llosa, 2015

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