Em tempos de vacas magras, crowdfunding para empreender

Como a 'vaquinha' da internet, ainda sem regulamentação no Brasil, ajudou novo negócio

Felipe Wasserman e Ivy Assis, sócios da Petitebox
Felipe Wasserman e Ivy Assis, sócios da PetiteboxDivulgação

A crise econômica está em todos os lugares, desde o preço de matérias-primas até a conta de luz. Para os empreendedores que acabaram de montar o próprio negócio, a recessão afeta muito mais do que os custos de manter uma empresa ativa. Também faz secar a principal fonte de recursos para investimentos, alicerce de toda startup que ainda não consegue sobreviver da receita de seus produtos e serviços.

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Em tempos de vacas magras no mercado tradicional de recursos, como fundos de investimento de risco, empreendedores vem desbravando um terreno onde há mais fartura. Esse campo é virtual e, nele, a famosa "vaquinha" alcança um público bem amplo de investidores: qualquer pessoa pode participar e até se tornar sócia de um novo negócio. A arte de "passar o chapéu" para arrecadar dinheiro ganhou até nome em inglês: crowdfunding. Mas a lógica do financiamento coletivo permanece.

Foi assim que os sócios Felipe Wasserman e Ivy Assis, ambos na faixa dos 30 anos, conseguiram tirar a Petitebox do papel, um clube de compras por assinatura para mães e gestantes. O que a empresa oferece é uma caixa de produtos sortidos para maternidade, de brinquedos e roupinhas de bebê a cremes hidratantes contra estrias. Para receber a caixa todos os meses, a cliente paga uma mensalidade que pode chegar a 70 reais.

Os passos iniciais foram dados com a ajuda de amigos e parentes, além de anos de poupança dos sócios. Em novembro de 2013, eles deram início à Petitebox com 200 mil reais. O capital inicial serviu para o aluguel de um espaço de 180 metros quadrados e a contratação de cinco funcionários. Mas, seis meses depois, perceberam que era preciso muito mais para continuar crescendo. Ao frequentar eventos de startup, no intuito de apresentar a empresa para investidores e levantar novos recursos, descobriram o crowdfunding e resolveram arriscar.

O resultado veio muito mais rápido do que o esperado. Cinco dias após cadastrarem a empresa em um site brasileiro de financiamento coletivo, o Broota, os sócios levantaram, com a ajuda de 52 investidores desconhecidos, o total de 550.000 reais, 250.000 a mais do que haviam solicitado inicialmente.

Para Wasserman, o que mais chamou a atenção dos investidores foi o crescimento acelerado da empresa, ainda mais em um ano de crise. Nos primeiros doze meses de operações, a Petitebox registrou um faturamento de 600 mil reais, três vezes maior que o seu capital inicial.

Para o empresário, a estrutura de faturamento da companhia também ajuda a explicar o sucesso no crowdfunding. A Petitebox possui três fontes de receita: a mensalidade das caixas-surpresa; a venda de produtos separadamente pelo site; e o pagamento por serviços especializados de marketing que oferece a marcas parceiras, como envio de propaganda por e-mail, divulgação nas redes sociais do clube de compras e pesquisas de satisfação com clientes.

Wasserman destaca que a Petitebox recebe de graça das marcas os produtos que distribui para as clientes. "O negócio principal da empresa, na verdade, não é o comércio de produtos. É o trabalho de marketing que realiza para as parceiras", justifica.

Com a ajuda do crowdfunding, a Petitebox está contratando mais funcionários e buscando um espaço maior para operar. "Queremos um lugar de 300 metros quadrados, pois precisamos estocar muito mais produtos agora que estamos crescendo mais", afirma Wasserman.

Limbo regulatório

Conseguir crowdfunding, contudo, não é tão fácil quanto parece. Isso porque a prática de financiamento coletivo ainda carece de regulamentação no mercado de capitais brasileiro, embora todos os casos de empresas bem-sucedidas no segmento tenham passado pelo crivo da CVM.

Frederico Rizzo, sócio-fundador da Broota, primeiro site de crowdfunding institucionalizado no Brasil, explica que a prática vive numa espécie de "limbo regulatório" no país. Em tese, uma empresa precisa ser uma sociedade anônima para ter ações negociáveis no mercado. Afinal, quando uma companhia capta recursos de terceiros, o que ela faz, na verdade, é vender uma pequena parte de si mesma para investidores. A pessoa que compra essa fatia se torna sócia.

Crise afeta investimento tradicional em negócio iniciante

Captar investimentos no mercado não é fácil para nenhum investidor. Em um ano de recessão econômica, a tarefa se torna ainda mais complicada, já que os tradicionais apostadores do segmento, os fundos de venture capital, fecham os cofres.

"Neste ano não fizemos nenhum aporte em startups. Os juros altos acabam inibindo qualquer investimento no setor", explica Daniel Amaral, sócio do fundo da Trindade Investimentos. "Estamos aguardando para ver como a economia vai se comportar em 2016 para retomar a caça a bons empreendimentos", complementa.

No mercado de startups desde 2010, a Trindade já aportou 25 milhões em negócios que estão em fase inicial de desenvolvimento - sete, ao todo. O valor representa quase metade dos recursos que o fundo mantêm alocados em equities, ou seja, em participação no capital de empresas.

O executivo destaca que o mercado de fundos de investimento que apostam em empresas iniciantes ainda é muito pequeno no Brasil, o que faz com que a procura dos empreendedores por recursos seja bem superior ao que o mercado está disposto a desembolsar. Nessa, muitos projetos de potencial acabam ficando de fora. "Por ano, 160 empreendedores nos procuram. Mas a maioria nem tem ideia de como pretende gerar lucro, não possui indicador de performance, não sabe quem é seu cliente, seu concorrente", afirma Amaral.

Ele ressalta que é a curva de crescimento potencial o que mais chama a atenção de um fundo de investimento de risco, o venture capital. Para estimar esse retorno, os principais fatores analisados são o tamanho do mercado que se pretende atingir, a qualidade dos sócios e a força do modelo de negócios adotado. "Empresas que ainda não descobriram como pretendem ganhar dinheiro perdem tempo quando batem na porta do investidor", ironiza.

"O que as startups têm feito é utilizar uma brecha na regulamentação", alega Rizzo. A instrução da CVM que trata da oferta pública de ações permite que uma micro e pequena empresa de sociedade limitada, como é o caso das startups, capte recurso no mercado sem necessidade de registro no órgão regulador. Ainda assim, ninguém em "sã consciência" quer se tornar sócio de uma sociedade limitada. "Isso porque se ela quebra, os sócios, além de perderem o dinheiro que investiram, arcam com todas as dívidas que a companhia adquire, como passivos trabalhistas", pondera Rizzo.

Para contornar este outro problema, a Broota apostou em um mecanismo diferenciado de financiamento para as startups que recorrem ao site na internet. "As empresas emitem uma dívida conversível em ações. Os investidores emprestam o dinheiro e, após um período determinado em contrato, têm a opção de resgatar esse valor, com juros, ou transformá-lo em uma fatia da startup", explica. É só assim que ele se torna sócio.

A Petitebox passou por todo esse processo. Solicitou registro à CVM para captar recurso no mercado e emitiu dívida conversível em ação. Em até três anos, a empresa se comprometeu a se transformar em sociedade anônima, momento a partir do qual os investidores poderão resgatar os recursos que aportaram, com juros acumulados de 3% ao ano, ou se tornar sócios, adquirindo ações.

Nos Estados Unidos, onde o crowdfunding nasceu, há quinze anos, o órgão regulador aprovou, somente em março deste ano, uma legislação específica que permite financiamento coletivo para empresas. Com isso, abriu um precedente para que outros países do mundo façam o mesmo. No Brasil, a CVM já anunciou que pretende colocar em audiência pública uma regulamentação para o segmento. Enquanto isso não acontece, startups utilizam-se da estratégia de dívidas conversíveis para arrecadar dinheiro entre desconhecidos.

A Broota, que já ajudou 15 startups a captar cerca de 3,7 milhões de reais, nasceu em outubro de 2014, quando Rizzo, formado recentemente em administração pública pela FGV, voltou de um MBA nos Estados Unidos. "Fui para lá em julho de 2012. Nos 24 meses que fiquei estudando, pude testemunhar todas as etapas de desenvolvimento e aprovação da regulamentação do crowdfunding nos EUA", conta.

O empreendedor tentou replicar o modelo no Brasil. Contratou advogados especializados em mercado de capitais e conseguiu colocar em funcionamento um modelo verde-amarelo de crowdfunding, que está crescendo entre os empreendedores.

A Broota possui mais de 2 mil investidores cadastrados e 700 empresas aguardando investimentos. Para participar, o empreendedor precisa preencher formulários online, explicando qual é o estágio de maturação do negócio, o perfil do empreendimento, o produto ou serviço que oferece, quais são as fontes de receita, quem são os sócios, qual é o mercado potencial de atuação e onde a empresa pretende chegar com os recursos que quer receber.

"A startup afirma qual é a sua meta e, quando atinge 90% desse valor, a Broota emite um e-mail aos investidores que fizeram a reserva de investimentos, avisando que é o momento de desembolsar o capital", esclarece.

Não é a startup a fonte de faturamento da Broota, mas sim o investidor. "Cobramos 10 mil reais por captação, valor que é rateado entre todos os investidores daquela empresa. Além disso, quando chega a hora do investidor decidir se quer converter seu papel de dívida em ação, se ele opta por vender sua fatia, ficamos com 5% sobre o lucro que ele obteve", diz.

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