AB InBev nega que megafusão cervejeira prejudique a concorrência

Empresa diz que mercado está fragmentado e área onde a SABMiller atua é complementar

Trabalhador ao lado de caixas de cerveja em Pequim, China, um dos mercados onde a nova empresa poderá enfrentar problemas regulatórios.
Trabalhador ao lado de caixas de cerveja em Pequim, China, um dos mercados onde a nova empresa poderá enfrentar problemas regulatórios.Mark Schiefelbein (AP)

Enquanto algumas vozes alertam para os riscos à concorrência entranhados na fusão da belgo-brasileira Anheuser-Busch InBev (AB InBev) com a anglo-sul-africana SABMiller, as duas maiores cervejarias do mundo, a empresa argumenta que o acordo só poderá ser um problema em regiões muito pontuais. “O setor se compõe de numerosos mercados nacionais, não de um mercado mundial. Continuará existindo uma considerável concorrência por parte de companhias multinacionais, independentes e pequenas cervejarias”, afirmam a EL PAÍS fontes da empresa.

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A empresa resultante venderia uma de cada três cervejas consumidas no mundo e teria uma posição de domínio em determinados países. ”Nós pensamos nas implicações regulatórias do acordo. Nos Estados Unidos e na China trabalharemos rápida e pró-ativamente para resolver essas questões”, acrescentam. A ação dos órgãos reguladores para evitar uma excessiva presença em ambos os mercados é a maior incerteza que rodeia a fusão: nos Estados Unidos chegaria a cerca de 70% de participação de mercado e na China, 37%.

O novo gigante, nascido da oferta equivalente a 106 bilhões de dólares (cerca de 400 bilhões de reais) da AB InBev pela SABMiller, a sexta maior operação empresarial da história e a maior do Reino Unido, considera que na maioria dos países não haverá problemas. “A natureza nacional do setor pode ser vista no fato de que muitas marcas só têm êxito em um ou dois países”, explicam na AB InBev. Entre as principais marcas com as quais contará a empresa resultante estão Stella Artois, Budweiser, Corona, Peroni, Miller e Pilsner Urquell.

A companhia pode se deparar em vários países com a oposição de órgãos reguladores da concorrência, e algumas autoridades já reagiram ao acordo com inquietação: dois membros do subcomitê antimonopólio do Senado norte-americano pediram a realização de uma audiência com representantes da empresa antes do final do ano para examinar as consequências do acordo para os consumidores dos Estados Unidos.

Não foi a única resposta: a coordenadora de sindicatos da África do Sul se opôs publicamente ao acordo e os encarregados do Ministério da Fazenda sul-africano indicaram que observam qualquer movimento que afete o pagamento de impostos e dividendos no país, onde a empresa tem um amplo domínio, com participação de mercado de 90%.

Na China, as leis antimonopólio impedem um grupo de controlar mais de 50% do mercado, algo que, teoricamente, não deveria afetar a nova companhia, que unirá os ativos da SABMiller na cervejaria líder do país, cuja participação no mercado local é de 23%, com os 14% de penetração da AB InBev em empresas chinesas como a Harbin Beer. Ainda assim, não está descartada a possibilidade de as autoridades chinesas obrigarem a empresa a se desfazer de alguns ativos. Outras fabricantes presentes no país, como a dinamarquesa Carlsberg, a quinta com maior participação de mercado, ou cervejarias japonesas que estão tentando cavar espaço no mercado chinês estariam entre as candidatas.

Em outros países, como o Peru, houve tímidas reações políticas de advertência para o risco de monopólio. É o quinto maior mercado da SABMiller, que ali tem uma ampla presença, com várias fábricas e o controle das principais marcas do país, tendo a AB InBev como única concorrente de importância. A ausência de leis sobre concorrência no setor pode aplanar o caminho e evitar que tenham de recorrer à venda de ativos.

A AB InBev acredita que na maioria dos casos a fusão não implica grandes sobreposições com a SABMiller. “De um ponto de vista geográfico, é complementar. A SABMiller tem uma grande trajetória em mercados onde não temos uma presença significativa”, explicam.

A presença de ambas as empresas no mercado espanhol é pouco expressiva e se limita à Companhia Cervejeira das Canárias (CCC), propriedade da SABMiller. A CCC é a quinta maior fabricante de cervejas da Espanha e é dona de marcas como Tropical e Dorada.