Cerveja

AB Inbev e SABMiller controlarão um terço das vendas de cerveja

Esta é a sexta maior aquisição na história corporativa mundial

IVÁN HELBLING / PAULA CASADO

As cervejas Budweiser e Peroni Nastro Azzurro terão o mesmo dono. A multinacional Anheuser-Busch InBev conseguiu, finalmente, concluir o acordo com a concorrente SABMiller para assumir suas operações, depois de fazer uma oferta que a avalia em 106 bilhões de dólares (398,2 bilhões de reais). A companhia conjunta controlará um terço do mercado mundial, mas precisará se desfazer de algumas marcas para superar as exigências das autoridades antitruste.

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A negociação sobre cifras começou há um mês, embora a possibilidade de fusão já estivesse sobre a mesa havia anos, como parte atual do processo mundial de consolidação do setor, no qual a AB InBev é líder. A SABMiller, número dois, soube se impor e conseguiu um aumento da oferta após várias rejeições. O grupo presidido pelo brasileiro Carlos Brito pagará à vista 44 libras esterlinas (251,97 reais) por cada uma das ações da concorrente. Isso representa uma valorização de 50% sobre o valor médio de mercado em meados de setembro, antes que a primeira oferta fosse formalizada.

A compra da empresa britânica a esse preço é a maior aquisição corporativa de 2015 e uma das seis maiores da história. É um valor semelhante ao que os acionistas da Philip Morris pagaram para assumir o controle da empresa em plena bolha do crédito. É também a maior operação empresarial já feita no Reino Unido, superando amplamente os 264,9 bilhões de reais que, pelo câmbio atual, a Royal Dutch Shell desembolsou pelo BG Group.

Os números são enormes. A nova AB InBev SABMiller terá uma capitalização em Bolsas próxima de 275 bilhões de dólares, suficiente para colocá-la entre as 10 maiores companhias de capital aberto do mundo. Em sua carteira combinará quase 400 marcas de cerveja, como Corona, Stella Artois, Grolsch e Pilsner Urquell. O faturamento somado das duas empresas é de 55 bilhões de dólares por ano, o que faz do conglomerado pós-fusão uma das maiores companhias de consumo do mundo.

A AB InBev conta com 16 cervejas que geram faturamento superior a um bilhão de dólares cada uma. A integração com a SABMiller lhe permitirá controlar 30% das vendas de cerveja em escala global, além de ser um ator dominante nos EUA, com 70% do mercado. A empresa combinada ocupará também o primeiro ou o segundo lugar em 24 dos 30 maiores mercados do mundo. Pelos termos da fusão, os lucros serão divididos em partes iguais.

Os analistas de Wall Street acreditam que o valor da SABMiller é adequado e esperam que os proprietários da empresa britânica, entre os quais se encontram o grupo Altria e a Bevco como maiores acionistas, darão seu aval. A proposta vai acompanhada de uma alternativa que implica um pagamento parcial em ações, limitada a 41% dos títulos da SABMiller, uma estratégia voltada a contentar a Altria (multinacional do tabaco com sede nos EUA) e a Bevco (da família colombiana Santo Domingo). Os acionistas da empresa adquirida têm o direito de nomear diretores, mas não poderão vender suas ações durante cinco anos.

As duas multinacionais, cuja sede conjunta será na Bélgica, precisam unir forças para compensar a queda mundial nas vendas, especialmente em países emergentes como o Brasil e a China. A queda de 20% no valor da britânica, junto com os juros historicamente baixos, fez com que a AB InBev movesse suas fichas. Mas, se as últimas duas semanas de negociação foram intensas, mais complicado será convencer os órgãos reguladores para que deem seu aval à operação. Para isso, as empresas terão de fazer concessões. Entre elas estaria o fim da parceria da SABMiller com a canadense Coors e a chinesa CR Snow.

O mercado observa agora o que farão as rivais Heineken e Calsberg para não ficarem de fora do processo de consolidação, já que a opção de se fundirem com a SABMiller se fechou. Elas poderiam ser as principais interessadas em assumir os ativos dos quais a InBev-SABMiller precisar se desfazer por questões regulatórias. O acordo contempla uma provisão de três bilhões de dólares como compensação à britânica caso a fusão seja reprovada.