_
_
_
_

Golfinhos, parques e casas: a nova cara próspera da miserável Coreia do Norte

Com recuperação econômica, regime inaugura centros de lazer, mas fome segue problema

Macarena Vidal Liy
Uma família assiste a um espetáculo no aquário de Pyongyang.
Uma família assiste a um espetáculo no aquário de Pyongyang.ED JONES (AFP)

O golfinho “Pyongyang 4” acaba de acertar a soma de 5+3 e fez soar o apito 8 vezes. Os 1.500 espectadores do espetáculo do aquário Rugna, na capital norte-coreana, aplaudem entusiasmados. Nos arredores da cidade, o aposentado Kim Yu-chol, de 63 anos, passeia com seus netos no Parque Folclórico, um parque temático que recria a história do país em versão oficial. “Graças à liderança do Partido dos Trabalhadores podemos ver esta enorme riqueza cultural. Estou feliz de poder desfrutar disso com minha família”, declara Kim.

Mais informações
Coreia do Norte se prepara para celebrar o 70º aniversário do regime
Kim Jong-un estreia seu novo avião particular
As provas contra Pyongyang
A vitrine da Coreia do Norte, o país mais impenetrável do mundo
Coreia do Norte, parque temático

O aquário e o Parque Folclórico são, assim como o cinema 3D, o centro equestre e o cruzeiro pelo rio Taedong, algumas das novas opções de entretenimento que há três anos começaram a se multiplicar em Pyongyang, construídas por ordem de Kim Jong-un.

Não são as únicas novidades na paisagem da capital norte-coreana. Pyongyang vive um “boom” de construção. Em 2014 foi inaugurado um bairro inteiro de arranha-céus, Changjon, com 18 gigantescos edifícios construídos em apenas um ano. E, bem a tempo para o 70º aniversário do Partido dos Trabalhadores que o regime comemorou a todo vapor no último fim de semana, foi concluído um gigantesco complexo de moradias com vista para o rio destinado a abrigar cientistas e acadêmicos, a “Rua dos Cientistas Mirae”.

“As coisas estão mudando a uma velocidade que surpreende até a nós mesmos”, afirma o senhor Han, funcionário do Ministério de Relações Exteriores.

A Coreia do Norte atravessa uma etapa de recuperação econômica, graças em parte ao surgimento de uma economia informal que o regime tolera depois da quebra do sistema de cotas como resultado da fome dos anos 1990. Também contribuem a venda de matérias-primas para a China e os recursos que vêm dos trabalhadores norte-coreanos enviados – muitos em condições bastante precárias – como mão de obra ao exterior.

Uma série de incipientes reformas econômicas, que aplicam alguns princípios de mercado na agricultura e no comércio, “parecem ter elevado o padrão de vida de uma parcela dos norte-coreanos comuns”, reconhecia um relatório do Serviço de Investigação do Congresso dos Estados Unidos em julho. Segundo o Banco Central sul-coreano, o vizinho do norte cresce a um ritmo de 1% anual.

Os sinais de prosperidade na capital – onde só podem morar os mais alinhados com o regime – são onipresentes. Muitos cidadãos comuns carregam um celular. A Koryolink, rede de telefonia móvel propriedade da Orascom – uma joint venture da estatal Corporação de Correios e Telecomunicações e da companhia egípcia Global Telecom Holdings – tem mais de 2 milhões de assinantes. Os carros, uma raridade até poucos anos atrás, são cada vez mais numerosos. Há fartura de táxis, operados por quatro companhias diferentes; apesar do preço básico de 7,5 reais por bandeirada, a maioria dos residentes só recorre a eles em casos de extrema necessidade.

Com a nova prosperidade começou a surgir uma incipiente classe média, formada por gente com bons contatos na hierarquia, mas também por gente que aprendeu a fazer negócios. São os donju, ou os “donos do dinheiro”. Vão aos restaurantes mais modernos, lotam os cinco cinemas de Pyongyang, podem assistir a concertos e começaram a moda de tomar café.

Mas o crescimento começou a criar desigualdades e acentuar as diferenças entre a privilegiada Pyongyang e o restante do país. Segundo a ONU, 18 milhões de norte-coreanos, 70% da população, não têm a segurança alimentar garantida, e 28% das crianças menores de 5 anos sofrem de raquitismo devido à má alimentação.

Essa situação pode piorar com a grave seca. Um relatório da FAO adverte que a produção de grãos pode cair 14%, de 4,3 milhões de toneladas em 2014 para 3,7 milhões este ano, uma quantidade insuficiente para alimentar todo o país.

É uma realidade que põe em questão a necessidade de um parque de diversões ou uma estação de esqui. No aquário, cada um dos 10 animais consome 10 quilos de peixe por dia. A água marinha de que necessitam vem através de uma tubulação de 70 quilômetros de extensão conectada com o porto de Nampo, algo que a encarregada de atendimento ao cliente, Jon Suk-yong, admite que “custa muito dinheiro”.

No entanto, ao ordenar esses projetos, Kim Jong-un não introduz nenhuma novidade nas prioridades do regime. Só tem mais recursos para realizá-las.

Seu pai e predecessor, Kim Jong-Il, já dizia em 2004 em seu livro Sobre a Arquitetura: “as casas de qualidade são um pré-requisito para a vida feliz e harmoniosa do povo, as fábricas são indispensáveis para a produção de máquinas e vestuário e os teatros, os cinemas, os parques e lugares recreativos são necessários para a vida cultural popular”.

Mais informações

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Recomendaciones EL PAÍS
_
_