_
_
_
_

Svetlana Alexievich: “Quando o povo falou, todos ficamos com medo”

A jornalista e escritora Svetlana Alexievich recebe o EL PAÍS, em sua casa em Minsk “Quando o povo falou, todos ficamos com medo”, diz a escritora bielorrussa

Pilar Bonet
Svetlana Alexievich durante a entrevista coletiva em Berlim.
Svetlana Alexievich durante a entrevista coletiva em Berlim.J. M. (AFP)

“Que catástrofe!”, exclama Svetlana Alexievich, ao abrir a porta de seu apartamento com vista para um lago em Minsk. Desta vez a prêmio Nobel de Literatura 2015 não se refere às catástrofes retratadas em sua obra, como a Segunda Guerra Mundial ou a experiência bélica soviética no Afeganistão, passando pelo acidente de Chernobil ou o desmoronamento da URSS. Ao meio-dia desta sexta-feira estamos diante de uma “catástrofe em tom menor”, entendendo por tal o barulho em que vive a escritora desde que lhe concederam o prêmio, na quinta-feira à uma da tarde.

“Espero que exista um depois da catástrofe”, digo tentando conduzi-la a sua obra. “Sim, mas esta etapa será muito longa e ninguém sabe como vai acabar”, afirma enquanto entramos na pequena cozinha decorada com quadros e cerâmicas, que não parece ter mudado desde que a visitei em 2001, às vésperas das eleições presidenciais na Bielorrússia. Hoje, quatorze anos depois, novas eleições, a mesma cozinha e o mesmo presidente.

Mais informações
Bielorussa Svetlana Alexievich ganha prêmio Nobel de Literatura
Escritor francês Patrick Modiano ganha o Nobel de Literatura
“Homem ganha prêmio de literatura”, a manchete que você nunca vai ler
Primeras páginas de 'Vozes de Chernobil' (em espanhol)
O jornalismo como literatura

A Rússia preocupa a Nobel. “Veja o que está acontecendo com o povo russo. Dá para esperar qualquer coisa”, responde à pergunta sobre suas inquietações. “Há cinco ou seis anos, quando falava do nacionalismo russo, ninguém acreditava em mim”, diz. No entanto, particulariza: “Existem várias Rússias”.

“O povo estava enganado”

Alexievich começa a preparar um café. “O terceiro mandato de Putin nos tirou do romantismo dos anos 1990”, afirma. “Mudaram o país, enganaram o povo e é fácil para eles conduzi-lo como quiserem”, sentencia. “Refiro-me ao militarismo antiocidental”, acrescenta. “Quando fui à Rússia procurar material para meu último livro, vi que o povo estava enganado, que era agressivo, que isso acabaria mal, mas ninguém esperava que víssemos a era soviética voltar e se apoderar do país que tentava começar uma vida nova”.

“Antes a finalidade era preservar o império, mas não sei quais são a lógica e os motivos do que acontece agora”, diz, referindo-se à política externa russa. A inquietação de Alexievich se deve à rapidez com que se pôde dar marcha-à-ré nessa máquina”. “Nos anos 1990 pedíamos liberdade e as pessoas se calavam. Não estavam preparadas para a mudança. Chegou a violência, a degradação moral e, quando Putin de repente apertou o botão mais primitivo, o povo começou a falar e, quando falou, todos ficamos com medo”, afirma.

No transcurso da entrevista chega um diplomata alemão com fotógrafa e tradutora. “Entrem por favor, mas fechem a porta, que estou resfriada”, avisa a Nobel. “Perdoem-me, estou em roupa caseira”, desculpa-se. “Em nome da Embaixada alemã…”. “Recebeu o telegrama do ministro [Frank Walter] Steinmeier?”. Sim, recebeu. “Li que vai escrever um novo livro”, diz o diplomata. Os telefones não param de tocar. Os alemães tiram a câmera: Registram a entrega de um buquê de flores à Nobel. “Não dormi bem”, desculpa-se Alexievich, mas osflashs já estão iluminando o vestíbulo que leva a seu escritório e à cozinha.

Svetlana Alexievich, que viaja a Berlim neste fim de semana, promete ao diplomata uma conversa tranquila quando retornar a Minsk, para redigir o discurso da cerimônia de 10 de dezembro em Estocolmo e para “o pequeno segredo” de fazer uma roupa para o evento.

Gute reise” [boa viagem]. O diplomata desaparece e retornamos à cozinha. Alexievich é consciente da responsabilidade de seu discurso em Estocolmo. Afirma que é contra as revoluções, que é preciso encontrar um caminho sem sangue e que os bielorrussos têm uma tradição de tolerância.

O problema da língua

Svetlana Alexiévich, na sexta-feira passada, em sua casa de Minsk.
Svetlana Alexiévich, na sexta-feira passada, em sua casa de Minsk.pilar bonet

Toca a campainha. Um amigo vem buscar os cestos de flores que vão tomando o apartamento da Nobel. O ministro de Relações Exteriores da Suécia, Carl Bildt, recém-chegado de seu país, adverte, está esperando por ela. Falamos do “mundo russo”, do “outro mundo russo”, do “bom”, daquele que seus admiradores propõem que ela lidere. Conversa sobre a língua bielorrussa, que segundo Alexievich está em um gueto. “Havia um liceu bielorrusso, um só, mas Lukashenko o suprimiu e só se formaram umas poucas dúzias de pessoas”, afirma referindo-se a uma prestigiosa escola fundada em Minsk para a educação na cultura da Bielorrússia.

Os debates de Alexievich com os setores nacionalistas bielorrussos se acalmaram. “Antes parecia que resolvendo o problema da língua seriam resolvidos todos outros, mas enquanto discutíamos sobre a língua, Lukashenko chegou ao poder. Sempre opinei que a democracia deveria preceder a construção do Estado nacional, do contrário, outros chegariam ao poder, e foi o que aconteceu”. Para Alexievich, suas obras não podem ser qualificadas de pessimistas, mas “pode-se dizer que temos uma cultura de dor e tragédia, uma experiência de vida trágica e que as vítimas e os algozes estão misturados”.

A estudiosa da “alma humana” configurada na época socialista prognostica que as sequelas dessa época durarão “pelo menos dez anos”. Suas viagens por seu ex-país (a Rússia e os países da antiga URSS) convenceram-na de que “não há nenhum fundamento para o romantismo”.

O café fica sobre a mesa da cozinha. “Que pena. É um café muito bom”, diz. A Nobel troca rapidamente de pulôver e sai ao encontro do ministro sueco.

Uma vida polifônica

Academia sueca. Svetlana Alexievich, 67 anos, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura 2015 por "seus escritos polifônicos, um monumento ao sofrimento e à coragem em nosso tempo".

Jornalista e escritora, Alexievich retratou em língua russa a realidade e o drama de grande parte da população da antiga URSS, assim como dos sofrimentos de Chernobil, a guerra do Afeganistão e os conflitos atuais. É muito crítica ao Governo bielorrusso.

Nasceu na Ucrânia, filha de um militar soviético de origem bielorrussa. Quando seu pai se aposentou do Exército, a família se estabeleceu na Bielorrússia. Ali estudou jornalismo, na Universidade de Minsk e trabalhou em diversos meios de comunicação.

Ficou conhecida com A Guerra Não Tem Rosto de Mulher (1983), sobre os testemunhos das mulheres soviéticas que sobreviveram à Segunda Guerra Mundial. Entre suas obras estãoVozes de Chernobil e O Fim do Homo Sovieticus. Alexievich não tem livros editados no Brasil.

Tu suscripción se está usando en otro dispositivo

¿Quieres añadir otro usuario a tu suscripción?

Si continúas leyendo en este dispositivo, no se podrá leer en el otro.

¿Por qué estás viendo esto?

Flecha

Tu suscripción se está usando en otro dispositivo y solo puedes acceder a EL PAÍS desde un dispositivo a la vez.

Si quieres compartir tu cuenta, cambia tu suscripción a la modalidad Premium, así podrás añadir otro usuario. Cada uno accederá con su propia cuenta de email, lo que os permitirá personalizar vuestra experiencia en EL PAÍS.

En el caso de no saber quién está usando tu cuenta, te recomendamos cambiar tu contraseña aquí.

Si decides continuar compartiendo tu cuenta, este mensaje se mostrará en tu dispositivo y en el de la otra persona que está usando tu cuenta de forma indefinida, afectando a tu experiencia de lectura. Puedes consultar aquí los términos y condiciones de la suscripción digital.

Mais informações

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Recomendaciones EL PAÍS
_
_