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Bielorussa Svetlana Alexievich ganha prêmio Nobel de Literatura 2015

Escritora e jornalista foi a escolhida pela Academia Sueca

Svetlana Alexievich, em uma imagem de 2014Foto: reuters_live | Vídeo: REUTERS
Pilar Bonet

A escritora bielorussa Svetlana Alexievich, de 66 anos, é a ganhadora do prêmio Nobel de Literatura 2015. A justificativa apresentada pela Academia sueca destaca “seus escritos polifônicos, um monumento ao sofrimento e à coragem nos nossos tempos”. A escritora e jornalista retratou, em russo, a realidade e o drama de grande parte da população da antiga URSS, assim como de Chernobil, a guerra do Afeganistão e os conflitos atuais. Tem uma posição bastante crítica em relação ao Governo bielorrusso.

Nascida na Ucrânia, é filha de um militar soviético de origem bielorrussa. Quando seu pai se aposentou do Exército, a família se estabeleceu na Bielorrússia, onde ela estudou jornalismo na Universidade de Minsk e trabalhou em diversos veículos de comunicação. Tornou-se conhecida com A Guerra não tem rosto de mulher, uma obra concluída em 1983 mas que, por questionar clichês sobre o heroísmo soviético e por sua crueza, só foi publicada dois anos depois, graças ao processo de reformas que ficou conhecido como a perestroika. A estreia da adaptação teatral do livro no teatro da Taganka de Moscou, em 1985, foi um marco da abertura iniciada pelo líder soviético Mikail Gorbatchev.

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Muito influenciada pelo escritor Alés Adamóvich, que considera como seu mestre, Alexievich trata de seus temas com uma técnica de montagem documental. Sua particularidade está em deixar fluírem as diferentes vozes –monólogos e corais—em torno das experiências do “homem vermelho” e do “homem soviético”, como também pós-soviético. A obra de Alexievich gira em torno da União Soviética, decompondo esse conceito em destinos individuais e compartilhados, e, sobretudo, em tragédias reais. Alexievich atua no terreno do drama, explora as mais terríveis e tristes vidas e se aproxima, por vezes, da morte. Em 1989, ela publicou Tsinkovye Málchiki (Meninos de zinco), sobre a experiência da guerra do Afeganistão. Para escrevê-lo, percorreu o país entrevistando mães de soldados mortos no confronto. Em 1993, publicou Zacharovannye Smertiu (Capturados pela morte), sobre os suicídios cometidos por aqueles que não haviam conseguido sobreviver à derrocada do socialismo. Em 1997, foi a vez da tragédia da central nuclear de Chernobil, com Vozes de Chernobil.

No ano passado, foi lançado O Tempo de segunda mão. O fim do homem vermelho, publicado em russo e em alemão. Nesse novo documento, Alexievich se propõe a “ouvir honestamente todos os participantes do drama socialista”, segundo afirma no prefácio. Para a escritora, o “homo sovieticus” ainda continua vivo, e não é apenas russo, mas também bielorrusso, turcomano, ucraniano, casaquistanês... “Hoje vivemos em Estados distintos, falamos línguas distintas, mas somos inconfundíveis, rapidamente reconhecidos. Todos nós somos filhos do socialismo”, afirma, referindo-se aos seus “vizinhos de memória”. “O mundo mudou completamente, e não estávamos realmente preparados para isso”, afirmou em recente entrevista ao Le Monde. Ainda presa ao espaço soviético, Alexievich indaga com angústia e sofrimento sobre o fim de uma cultura, uma civilização, mitos e esperanças.

Crítica em relação ao regime do presidente bielorrusso Alexandr Lukashenko, a escritora reside a maior parte do tempo no exterior, ultimamente na Alemanha, onde seu livro mais recente teve bastante impacto.

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