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Daniel Drexler: de médico e louco, todo mundo tem um pouco

Médico, músico, Daniel Drexler mistura ciência e poesia para entender o mundo e o Uruguai

Teórico da estética do ‘templadismo’, ele é o irmão mais novo de Jorge Drexler

Daniel Drexler, irmão mais novo de Jorge.
Daniel Drexler, irmão mais novo de Jorge.

Daniel Drexler, sorriso ladeado no rosto, vestindo o jeans e a camiseta do mais comum dos homens citadinos, caminha determinado e sem urgência pelo saguão de um hotel paulistano. Discreto porém afetuoso, esse uruguaio de 46 anos senta-se à mesa do bar com a jornalista e a cumprimenta em fluído português. Fala alguns minutos e nem assim deixa entrever algum dos dois polos que definem seu lugar no mundo: é músico (está em São Paulo para uma apresentação única de seu show Tres tiempos) e médico especializado em audição, mas poderia ser qualquer outra coisa.

Surdo de um ouvido, Drexler – que é irmão de outro Drexler famoso, o Jorge (também músico, também médico) – diz que alcançou ao fim o equilíbrio entre dois universos aparentemente opostos: a criatividade a razão. O show Tres tiempos, acompanhado de um DVD-livro, celebra a unidade que ele diz ter alcançado após seus três discos anteriores e a chamada estética do templadismo, sobre a que teorizou.

Pergunta. Tres tiempos resgata os três discos que você já lançou. O que o motivou a criar essa trilogia?

Resposta. Só recentemente caí em conta que esses discos, que são conceituais, formam uma trilogia. O primeiro [Vacío; 2006] fala do vazio, o segundo da incerteza [Micromundo; 2009], e o terceiro [Mar Abierto; 2012], da modernidade líquida. Esse último também fala do meu pai, que fugiu da Alemanha em época de guerra para começar uma vida nova. Quando terminei de gravá-lo, apareceu a ideia de produzir um DVD ao vivo com instrumentos de música erudita e popular. Falei com um amigo meu de Buenos Aires, que é diretor do programa Encuentros en el Estudio, muito conhecido na América hispânica. A ideia era gravar lá, no estúdio ION, o principal da história da música da bacia do rio da Prata. Ele me respondeu: “Cara, só se você escrever um livro sobre o vazio”. Já escrevi muita coisa, mas na área da poesia, músicas e artigos científicos, não livros. A lógica da escrita, nesse caso, é totalmente diferente. Falei para o meu amigo: “Bom, vai ser um livro curto, umas 20 ou 30 páginas”. No fim, foram 120 páginas, que escrevi como se eu estivesse saindo da cadeia. Quando você compõe música, tem regras muito precisas. Nos artigos científicos, é ainda pior. Quando comecei a escrever com aquela liberdade, ouvindo o silêncio da escritura, foi muito emocionante.

P. Você é médico e músico. Como isso convive em você, ser um científico e ter sensibilidade artística – coisas que a gente aprende a ver bem separadas?

R. É fácil encontrar um vínculo entre o pensamento científico e a criatividade artística, que para mim são quase a mesma coisa. Na Ciência, você precisa de muita intuição. As ideias nesse campo surgem intuitivamente, mais do que a gente pensa. Existe uma palavra maravilhosa, serendipidade, que diz que as grandes ideias sempre aparecem num sonho ou caminhando, como uma epifania. Na música é igual. Lá, você também se enfrenta com o vazio: ninguém transitou aquela estrada antes. E a medicina é a maior biblioteca para atingir a alma de um ser humano. Na prática, você vive situações-chave, desde a morte até o parto. Além de atender, eu pesquiso o tinnitus, que é o zumbido do ouvido, e desenvolvi um aparelho de biotecnologia para o tratamento desse problema, que virou uma patente nos Estados Unidos e passou a ser comercializado. Foi uma ideia que veio para mim em um estúdio de música.

Existe uma palavra maravilhosa, serendipidade, que diz que as grandes ideias sempre aparecem num sonho ou caminhando, como uma epifania. Isso acontece tanto na música, como na medicina"

P. O fato de você vir de uma família de médicos, em que quase todos se envolveram com a música é um fenômeno curioso. Como se explica?

R. Não sei. Meu pai e meu tio são médicos. Minha mãe e meu irmão mais velho, Jorge, também... Minha irmã é dentista. Todos fazem música e literatura, sem que tenha havido estímulo especial para isso. Tentei algumas explicações a respeito em um livro. Meu pai é um sobrevivente do holocausto e, assim como muita gente que passou pela mesma situação, virou artista. É a coisa da resiliência. A arte é uma das formas de resiliência mais fortes que existem. Às vezes, temos algo na cabeça, e o único jeito de se relacionar com isso é criar um mundo imaginário. Ele agora está aposentado e vai pelo terceiro romance... A segunda possível explicação reside no fato dele ter chegado num país chamado Uruguai, chamando-se Günter Drexler. A arte, de novo, é uma forma muito direta de se atingir a identidade de um país. Quiçá o fato dos meus irmãos e eu escrevermos canções, um gênero artístico forte no Uruguai, tem a ver com a necessidade de nos conectar com esse país maravilhoso com o qual temos muita vontade de nos integrar.

DVD-livro 'Tres tiempos'. ampliar foto
DVD-livro 'Tres tiempos'.

P. Do que trata o templadismo, espécie de estética musical do rio da Prata, que inclui o Rio Grande do Sul, sobre o qual você teorizou?

R. Li Tropicália, do Caetano Veloso, em que ele diz que o Brasil é quase uma ilha, um país-continente que está de costas para o resto da América do Sul. Lendo o livro, entrei em contato com o Manifesto Antropofágico, de Oswald de Andrade. E sou um admirador do Caetano, do Gilberto Gil, do João Gilberto, do Djavan e de outros músicos brasileiros. Aí, comecei a observar a bacia do Prata e aquele país pequeno e artificial, o Uruguai, que surgiu por um acordo político depois de ter sido parte do Brasil e também da Argentina, em diferentes momentos de sua história. Eu cruzava a fronteira para o Rio Grande do Sul e ouvia milongas, tomava chimarrão e comia churrasco. Ia para a Argentina, que tem semelhanças muito grandes com o Uruguai. Comecei a tratar de encontrar a causa dessa comunhão de identidade e a olhar a paisagem, no sentido amplo da palavra (visual, topográfica, climática, econômica etc). Me dei conta de uma estética comum aos três países. Ao princípio, era uma piada de amigos: “Somos templadistas, porque blá, blá, blá...”. Depois tive de começar a pensar seriamente a esse respeito e escrevi algumas coisas. Essa história começou em 2002 e ainda muita viva e dinâmica, gerando debates principalmente no Rio Grande do Sul.

P. No Brasil, fora do Rio Grande do Sul, há quem possa achar que se trata de reforçar um discurso separatista.

R. Sempre me encontro com um separatista quando vou ao Rio Grande do Sul e falo para ele: “Cara, vem morar um tempo no Uruguai e você vai saber o que é morar num pequeno país independente”. Tenho uma visão muito crítica da independência do Uruguai. Acho que José Artigas nunca quis um país independente, e sim o federalismo. É um país que está parado nas portas da bacia do Prata, uma das maiores e mais ricas do mundo, separado do resto. Isso é um erro histórico. Acho que a chave para entender a proposta é o Manifesto Antropofágico, que surgiu em São Paulo. Minha visão do templadismo é aberta, de integração. Ter uma atitude aberta e não ficar camaleonicamente tentando reproduzir os estereótipos que vêm de fora.

Sempre me encontro com um separatista quando vou ao Rio Grande do Sul e falo para ele: 'Cara, vem morar um tempo no Uruguai e você vai saber o que é morar num pequeno país independente. Acredito mais em um regionalismo aberto'".

P. Você é de Montevidéu, uma cidade portuária em que há pessoas chegando de vários lugares. Isso influencia essa sua visão?

R. Com certeza. Tive a benção de meu pai cair numa cidade aberta ao mar. Montevidéu, para a bacia do Prata, é quase como Liverpool para a Inglaterra – onde todo o tempo tem movimentação de gente chegando. O próprio jeito de ser do Uruguai sempre foi anarquista. De pessoas que fugiam da Inquisição, que ficava longe do Rio de Janeiro e também de Lima, sede do poder Real. Uma coisa no meio do caminho. Até hoje, o país tem essa impronta muito forte.

P. Isso explica, em parte, a constante busca uruguaia por uma identidade própria?

R. Falei disso no livro e fui tratado de louco. Alguns até me consideraram um traidor – não de um jeito agressivo, porque no Uruguai tudo é muito suave. Não dá para entender a história do país como um fenômeno isolado. Se você tentar entender o movimento da canção uruguaia sem entender o que acontecia ao mesmo tempo na Argentina e no Brasil, fica impossível. As pessoas dizem: “Estamos fazendo um esforço muito grande para entender a identidade uruguaia, propriamente, e você está falando que ela não existe”. Vai perguntar para um esquimó o que ele acha de uma música uruguaia e de uma argentina, e ele não vai encontrar nenhuma diferença.

P. Ainda assim, o Uruguai é referência hoje em dia por suas posições liberais em vários temas contemporâneos, como a liberação da maconha e do aborto, o casamento gay e a redução da maioridade penal. E não podemos esquecer a figura inspiradora do Mujica.

R. Tem uma questão de escala, sem dúvida. O Uruguai inteiro é um bairro de São Paulo. Somos 3,4 milhões de pessoas. Mas, além disso, tem uma coisa que está no genoma do uruguaio, que é o desejo de liberdade e a desconfiança do poder. Os gaúchos eram caras que fugiam de Buenos Aires e do Rio de Janeiro e nessa terra oriental encontravam um espaço onde a liberdade era total. Não tinha Inquisição, rei da Espanha, rei de Portugal, nem nada. Uma frase que José Mujica utiliza muito é “ninguém é mais que ninguém”. Isso também leva a uma situação de anarquia, em que é difícil tomar decisões... Não existe um respeito pela autoridade. Essa vocação de vanguarda legislativa, que o Uruguai tem neste momento, não é nova para o país. Na primeira metade do século passado, isso já acontecia. Foi o segundo país no mundo em que as mulheres puderam votar, que fez a separação do Estado da Igreja, estabeleceu os direitos do trabalhador... O que o Mujica fez foi se conectar com essa tradição novamente. Do ponto de vista das liberdades individuais, o Uruguai está hoje entre os primeiros países do mundo. Esse é o maior orgulho que eu tenho do meu país.

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