Jogos Olímpicos

A difícil missão de contar a (real) história dos atletas olímpicos do Brasil

Sonho de ser herói faz ex-atletas brasileiros mentirem sobre passado olímpico Katia Rubio, autora da maior pesquisa já feita sobre o tema, fala de seu trabalho de 15 anos

Katia Rubio, no campus da USP, em São Paulo.
Katia Rubio, no campus da USP, em São Paulo.Fernando Cavalcanti

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Nos últimos quinze anos, Rubio, doutora em psicologia social, envolveu em seu trabalho 70 profissionais que ouviram mais de 1.300 atletas de várias modalidades e gerações, tudo para para pôr de pé o livro Atletas Olímpicos Brasileiros (648 páginas, Editora SESI-SP). A obra reúne 1.796 histórias de esportistas que participaram de ao menos uma edição olímpica entre 1900 e 2012 —entre eles, os 342 medalhistas do país, número que considera os esportes coletivos (o Brasil conquistou 109 medalhas em Jogos). O extenso compêndio foi lançado no final de agosto e, apenas um dia depois, Rubio foi alertada que duas histórias relatadas no livro eram falsas. “E esses não foram os únicos casos. A diferença é que, nos outros, nós conseguimos descobrir a verdade a tempo”, conta ela.

A pesquisadora conversou com o EL PAÍS em duas ocasiões —antes de os nomes dos falsos olímpicos vazarem na imprensa e depois da repercussão. Embora Rubio tenha tentado manter em sigilo as identidades dos personagens, acabou-se relevando que se tratavam de dois nomes conhecidos do esporte nacional. A ex-nadadora Christiane Paquelet, então diretora cultural do Comitê Olímpico do Brasil (COB), disse ter ido aos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972. Já o ex-nadador José Carlos dos Santos, o Zequinha, contou ter ido às Olimpíadas de Moscou em 1980, e era membro do Instituto Atleta Rubro Negro, do Flamengo. Paquelet acabou pedindo demissão do COB após o episódio. Posteriormente, ambos se desculparam, mas não conseguiram explicar o porquê das mentiras, que Rubio classifica como a formação de uma “falsa memória”.

“O fato de uma pessoa se passar por (atleta) olímpico sem ter sido mostra o quão forte é o desejo na carreira de um atleta de ter essa marca na sua história”, avalia Rubio, que considerou como atleta olímpico aquele que passou pelas seletivas, foi aos jogos, mas não necessariamente competiu, ou por ter ficado na reserva ou por ter sido lesionado. No caso da ex-diretora do COB, ela disse ter ido a Munique, mas contou que uma lesão sofrida durante um treino a fez retornar ao Brasil, o que não ocorreu. "Christiane Paquelet admite que não compareceu aos Jogos Olímpicos de Munique 1972, não sendo, portanto, atleta olímpica", esclareceu o COB, em nota oficial. À Folha de S.Paulo, Zequinha disse ter sofrido um “momento de surto psicótico”. “Caí na fogueira das vaidades. Fui execrado e já me manifestei a quem devia”, afirmou ao jornal. Ao pedir desculpas à professora, a ex-diretora do COB também disse ter “surtado”.

Além dos dois ex-nadadores cujos nomes vieram a público, três jogadoras de futebol feminino, uma atleta do vôlei e um boxeador também mentiram sobre sua trajetória olímpica (ou melhor, sobre a ausência dela), mas a pesquisa conseguiu apurar que os relatos eram falsos antes do lançamento do livro e, portanto, eles não foram incluídos na obra. A próxima edição da publicação contará com mais três capítulos que irão justamente tentar explicar como acontecem casos como esses e esclarecer o erro da primeira edição.

“O fato de uma pessoa se passar por olímpico sem ter sido mostra o quão forte é o desejo na carreira de um atleta de ter essa marca na sua história”

“No caso da Cristiane, ela tem quatro medalhas nos Jogos Pan-Americanos e foi campeã brasileira de natação. Ou seja, ela chegou muito perto, mas não rolou. Então para essas pessoas que chegam assim tão próximas de realizar esse desejo fica um buraco muito grande, porque o sonho da vida de qualquer atleta é chegar aos Jogos Olímpicos. É um vácuo que não se apaga jamais”, observa Rubio, que é pós-doutorada em psicologia social pela Universidade Autônoma de Barcelona.

“Vamos continuar ganhando medalhas nas modalidades que a gente já havia ganhado anteriormente. Ponto.”

Causa espanto, porém, o nível de detalhes desses relatos falsos. “Teve um sujeito que nos procurou, se apresentou como olímpico, contou até detalhes de como era a vila olímpica, como era a máquina de coca-cola da vila olímpica... E ele se passou por outra pessoa! A gente descobriu que ele não era quem dizia ser quando ele usou seu nome verdadeiro ao assinar o termo de consentimento de participação na pesquisa”, conta Rubio. Outra dificuldade que a pesquisa se deparou é que mesmo no COB e no Comitê Olímpico Internacional (COI), e nas confederações das modalidades esportivas, há dados equivocados sobre a participação dos brasileiros, sobretudo nas edições mais antigas da competição. Daí a dificuldade de confrontar as versões contadas com os documentos oficiais. “Tivemos que checar e rechecar várias vezes algumas histórias”, lembra.

Diante desses casos, Katia Rubio agora avalia dar início a um novo projeto de pesquisa para estudar o que se passa na cabeça dos quase olímpicos. “A gente agora discute, do ponto de vista da psicologia, o que é a mobilização do desejo, que leva a pessoa se expor dessa forma, a criar uma história que não foi a dela.”

O sonho de ser herói na Rio 2016

A seis meses dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, é difícil não pensar no impacto psicológico que competir em casa proporciona aos atletas, principalmente quando lembramos do choroso 7X1 sofrido pela seleção na Copa do Mundo de 2014. Katia Rubio, que é uma das maiores autoridades da psicologia esportiva no país, pondera que, diferentemente do futebol, o Brasil não é tido como favorito na maioria das modalidades olímpicas que compete, portando o peso não deve ser o mesmo —nem mesmo sobre os jogadores de futebol, cujo foco é a Copa. Entretanto, ela concorda que muitos veem nas Olimpíadas a chance de se tornar um herói e, principalmente, deixar de ser invisível.

“Mais do que pensar em ganhar dinheiro, muitos veem na medalha uma chance de reconhecimento que todo ser humano procura. Se isso é trabalhado de forma propositiva, ele terá a força necessária para enfrentar as adversidades. Mas a gente sabe que muito desse trabalho ainda não é feito. E aí essa pressão de se tornar um herói nacional cai de forma muito pesada para algumas pessoas."

Sobre as chances do país anfitrião entrar no cobiçado ranking dos 10 países que mais ganham medalhas, afirma que não há nenhum dado que aponte um avanço significativo do Brasil. "Um bom resultado olímpico é fruto de um processo, de anos de trabalho, e quando o atleta vai competir ninguém se lembra disso. No momento do resultado adverso quem paga a conta sozinho é o atleta, que é chamado de amarelão, de frouxo, ou de qualquer outra coisa... Mas ninguém respeita a história e a trajetória de luta que esse cara teve em muitos anos", diz. Por fim, ela não faz rodeios sobre o que esperar do desempenho brasileiro em 2016: "Vamos continuar ganhando medalhas nas modalidades que a gente já havia ganhado anteriormente. Ponto."

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