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Uma criança mexicana abre a porta para o uso medicinal de maconha

Juiz permite que os pais de Graciela usem extrato de cannabis para amenizar a epilepsia da menor

Mayela Benavides ajuda a sua filha Graciela Elizalde.
Mayela Benavides ajuda a sua filha Graciela Elizalde. REUTERS

Graciela Elizalde tem oito anos e sua doença, a Síndrome de Lennox-Gastaut, abriu um debate no México sobre o uso terapêutico da maconha. Um juiz autorizou que os pais da menor importassem e usassem um óleo de cannabis (cannabidiol) para reduzir os fortes episódios de epilepsia que afetam a garota. No entanto, as autoridades de Saúde do México opõem-se à administração desse tratamento, sob o argumento de que não existem evidências científicas definitivas sobre os seus efeitos.

O consumo da maconha está proibido por lei tanto para o uso recreativo quanto medicinal no México. A petição dos pais de Grace – como a sua família a chama – perante os tribunais é a primeira que consegue chegar tão longe e poderia abrir a porta a pacientes que, pelo seu histórico médico, necessitam recorrer aos cannabis para apaziguar suas doenças. “Queremos isso porque estamos desesperados”, explicou Raúl Elizalde, o pai da criança, à imprensa mexicana.

Desde os seus primeiros anos, Graciela sofre com ataques de epilepsia que ficaram mais intensos com o passar dos anos. A Síndrome de Lennox-Gastaut deixou-a incapacitada fisicamente e, cada dia que passa, sua capacidade intelectual é reduzida com frequentes convulsões. Após a visita a vários médicos e da administração de 19 anti-convulsivos nos últimos sete anos, seus pais conheceram a história de Charlotte Figi, uma criança americana de seis anos que consumiu o óleo de cannabis e melhorou notavelmente a sua condição.

“Por que Grace não pode ter acesso ao mesmo tratamento?”, pergunta-se Mayela Benavides, mãe da criança de Monterrey (Estado de Nueva León). Figi vive no Colorado, um dos 15 estados dos Estados Unidos que permitem o cannabis para uso terapêutico. Na América Latina, apenas Uruguai e Chile permitem que a maconha seja administrada para um paciente. O debate nunca esteve sobre a mesa no México, até agora. “As crises de convulsão podem ser diminuídas e ela pode ter uma qualidade de vida melhor”, argumenta Elizalde.

A negativa das autoridades para que a menor consuma o extrato de cannabis foi persistente. O Ministério Público impugnou a decisão do juiz que autorizou a importação do produto

A negativa das autoridades para que a menor consuma o extrato de cannabis foi persistente. O Ministério Público impugnou a decisão do juiz que autorizou a importação do produto, e a decisão seguirá pendente nos tribunais. A Secretaria de Saúde afirmou que esse tratamento violaria a Lei Geral de Saúde porque “não existem evidências científicas conclusivas sobre a eficácia e segurança” desse tratamento.

O caso já começou a mover alguns corpos políticos. Um grupo de deputados do Partido da Revolução Democrática (PRD, de esquerda) apresentou uma proposta para modificar a Lei Geral de Saúde e permitir o uso de produtos derivados da maconha para tratamentos médicos. Nas últimas décadas, dois cartéis mexicanos aumentaram a produção e exportação ilegal de maconha para os Estados Unidos. Ao mesmo tempo, a violência derivada da luta entre cartéis e autoridades por causa do tráfico de drogas elevou-se a níveis históricos.

Se os pais de Graciela conseguirem a autorização definitiva, precisarão viajar aos Estados Unidos para comprar o extrato de maconha, e a criança poderá consumi-lo sob supervisão médica. Aos oito anos, Grace fez um país inteiro começar a discutir o tema.

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