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Seul, a cidade que compartilha

Ao contrário de outros países que colocam barreiras ao compartilhamento, a capital sul-coreana embarcou em um ambicioso projeto para fomentar esse modelo econômico

Uma funcionária da Norizzang, que emprega dezenas de pessoas e consegue aumentar a receita anual em 20%.
Uma funcionária da Norizzang, que emprega dezenas de pessoas e consegue aumentar a receita anual em 20%.Z. A.

"Há uma maneira de consumir sem possuir". Park Won-soon, prefeito de Seul, está convencido disso. Por isso, em setembro de 2012 lançou um projeto tão ambicioso e exemplar quanto arriscado: Seul, A Cidade que Compartilha pretende, segundo anunciado por Park em sua apresentação, "promulgar políticas que incentivem o surgimento de empresas de economia colaborativa e, assim, fazer melhor uso dos recursos existentes através do compartilhamento”. Quase três anos depois, o sucesso se mostra evidente: sob o calor do projeto na capital sul-coreana, foram criadas cerca de 50 empresas que trabalham em diversos setores como habitação, transporte e reciclagem. Quase todas oferecem e administram seus serviços através de aplicativos para smartphones. Acabam se beneficiando do fato de que a penetração dos smartphones na Coreia do Sul é uma das mais altas do mundo e de que o acesso à Internet do país seja um dos mais rápidos.

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"O objetivo é resolver alguns dos problemas que surgem em uma sociedade capitalista guiada por um consumismo exacerbado: desde os crescentes engarrafamentos ao aumento do número de suicídios, além da poluição ambiental e do elevado custo da moradia. Todos eles podem ser mitigados através do compartilhamento", diz Kwon Nanshil, diretora da Creative Commons Coreia (CCKorea), empresa que obteve a concessão da prefeitura para administrar o projeto. "Muitos acreditam que a economia colaborativa prejudica os interesses econômicos dos países, mas está sendo demonstrado que não precisa ser assim. As empresas sociais também criam postos de trabalho e geram lucro."

Um bom exemplo é a Norizzang, criada para a reciclagem de móveis graças ao empréstimo com juros mais baixos concedido pelo programa do governo. "Nós nos transformamos em máquinas de usar e jogar fora coisas que ainda servem, tanto em seu estado original quanto em outro. Nosso objetivo é dar nova vida aos móveis que coletamos para evitar sucumbir a modismos que nos levam a desfazermos de coisas que continuam desempenhando sua função", diz Ahn Yeonjung, diretora da empresa. Os 13 funcionários dessa startup coletam os móveis que são descartados, os desmontam nas instalações da empresa e, com a madeira que recuperam, fabricam novos. O design é funcional e moderno. Sem frescura, mas ideais para jovens que se deslocam de um lugar para outro, porque a maioria é facilmente desmontável.

"Compartilhar é o ponto de partida. Mas a meta é a criação de um estilo de vida governado pelo senso comum, e não pelas leis de um mercado que, com muita frequência, baseia seu negócio na percepção enganosa de uma obsolescência planejada. Muitos acreditam que a economia participativa serve apenas para sobreviver, e não é assim. É possível ganhar dinheiro sem desperdiçar recursos", afirma. Não é à toa que, no ano passado, a receita da empresa superou 200 milhões de wons (cerca de 580.000 reais), e o faturamento cresce 20% ao ano. "Não somos uma ONG, temos lucro como qualquer outra empresa, mas o que nos diferencia é a maneira pela qual geramos esse ganho", diz Ahn.

Muitos consideram que a economia colaborativa prejudica os interesses econômicos, mas está sendo demonstrado que não é assim"

De fato, na hora de dar o sinal verde para que uma empresa passe a fazer parte da Cidade que Compartilha e possa se beneficiar dos diferentes incentivos do projeto, além de exigir o cumprimento de certos requisitos técnicos —como pertencer ao grupo de pequenas e médias empresas—, a CCKorea também leva em conta o valor social das propostas que recebe. Assim, entre as iniciativas que foram aprovadas existem algumas peculiares como a Church Plus — que faz um balanço das igrejas que têm pouca atividade e as oferece para cerimônias de todos os tipos a um preço mais acessível—, a Kiple —que gerencia o comércio de roupas infantis que ficaram pequenas—ou a E-Labour Sharing —que conecta seus usuários para troca de emprego.

Mas a prefeitura reconhece na ata de criação do projeto que "existem conflitos entre o setor da economia colaborativa e as indústrias e leis existentes" e destaca que "tanto a tributação dos serviços quanto o seguro que os cobre são problemas que ainda não foram completamente resolvidos". A responsável da CCKorea reconhece que há atritos com empresas do setor tradicional. "Por enquanto, as empresas que surgiram não são grandes o suficiente para representar uma ameaça. Mas há casos, como o Uber ou Airbnb, que despertam muitas suspeitas entre empresas de táxi ou hotéis. No entanto, acreditamos que o bem social sempre deve vir antes do protecionismo."

Jiyoung Hong também pensa assim. Comanda a SoCar, empresa de aluguel de carros compartilhados criada quando foi lançado o plano para transformar Seul na capital mundial da economia colaborativa. Agora dispõe de quase 1.500 veículos localizados em 600 estacionamentos da cidade, para que seus mais de 400.000 usuários possam utilizá-los quando necessário. "Fazem a reserva pelo celular, que também serve para localizar o veículo e até abrir a porta, pagam por trechos de 10 minutos, e a viagem deve ser de ida e volta", explica Jiyoung. "Assim, podem desfrutar da liberdade de um carro sem ter que comprar um.”

Com esse modelo, com muita demanda entre empresários, donos de lojas e solteiros que têm um encontro, a SoCar tem mostrado forte ritmo de crescimento. Emprega cerca de 50 pessoas e está prestes a mudar para um escritório mais amplo. "Esperamos também que este ano o Governo mude a legislação relativa aos transportes, criada há quase meio século, para que serviços semelhantes de empresas como a Blablacar sejam permitidos. Assim continuaremos nossa expansão", acrescenta. Porque, embora o projeto de Seul tenha se tornado objeto de estudo em diversos países, Jiyoung acredita que "a economia colaborativa ainda está em sua infância na Ásia". O problema, acrescenta, "encontra-se na mentalidade excessivamente consumista, talvez fruto de um desenvolvimento econômico muito rápido".

Essa é, talvez, a mudança mais complexa que ‘A Cidade que Compartilha’ quer provocar. “Os coreanos perdemos a facilidade de compartilhar que tínhamos antigamente, quando se cunharam os termos poomasi – intercâmbio de mão-de-obra – e dure – cooperativa de agricultores –”, lamenta-se Kwon na sede da CCKorea. “Por isso, tão importante como criar empresas sociais é divulgar o que estão fazendo para que o público se interesse”. Assim, no primeiro domingo de junho a Creative Commons organiza o Sharing Day, com seminários e conferências sobre a economia colaborativa, além de atividades sociais como uma grande refeição comunitária entre as pessoas que vivem sozinhas.

Na Biblioteca Viva, pessoas de mais de 65 anos compartilham experiências que foram acumulando durante a vida

Por outro lado, a CCKorea trabalha com diferentes comunidades empobrecidas para implementar medidas que aliviem seus problemas econômicos: desde abrir ao público os estacionamentos vagos em condomínios privados para obter capital que será investido na melhoria de seus edifícios, até a implantação de hortas comunitárias. “O Governo quer que a economia colaborativa tenha o maior impacto possível na população mais desfavorecida. Assim, por exemplo, lançou um programa para que estudantes que necessitam de moradia aluguem quartos a preços muito inferiores aos do mercado em casas de idosos que vivem sozinhos e necessitam de companhia. Sabemos que a solidão é um dos fatores mais influentes na elevada taxa de suicídio de idosos – 50% das moradias estão ocupadas por uma ou duas pessoas –, e acreditam que isso pode ajudar a reduzi-la”.

Muito interessante se mostra, precisamente, o trabalho realizado pela CCKorea com a Terceira Idade. De fato, com seus membros implementou a Biblioteca Viva, em que pessoas de mais de 65 anos “que são como livros” compartilham em lugares públicos um patrimônio intangível, mas muito valioso: as experiências que foram acumulando durante a vida. “Já organizamos 2.500 eventos deste tipo com mais de 24.000 pessoas que contam para o público essas fascinantes histórias que os netos sempre quiseram escutar de seus avós, e que fazem parte de nosso patrimônio histórico. Compartilhá-las não só ajuda a manter viva a memória coletiva, como também é um apoio a pessoas idosas que, muitas vezes, têm de lutar contra a solidão”, conta Sumi Park, funcionária da CCKorea.

Finalmente, embora sejam minoria, na Cidade que Compartilha também há organizações sem fins lucrativos. Uma das mais interessantes é o The Open Closet (O Armário Aberto): aluga roupas doadas por quem não vai mais usá-las. São principalmente trajes formais que os recém-formados têm de vestir para entrevistas de emprego. “Nesta sociedade tão rigorosa está claramente estipulado como deve ser o traje, mas seu preço pode superar os 400 euros e, como acontece com os vestidos de casamento, é usado uma só vez. Muitos não podem pagar por isso, explica o fundador e presidente, Man Han-Il.

“Funcionamos de duas formas: a mais habitual, sobretudo para os habitantes da capital, consiste em marcar, pela Internet, uma visita a nosso local e vir escolher um traje com a ajuda de um assessor que leva em conta a empresa ou a situação em que será usado. Outra, para quem não reside em Seul, consiste em tirar medidas em casa, mandá-las pela Internet junto com o motivo para o qual se solicita o traje, e escolher uma das opções oferecidas. A roupa é enviada e recebida pelo correio”. Para este ano, Man espera montar uma base de dados com todos os conjuntos e estilos – que custam sempre o mesmo, independentemente de sua qualidade – acessível de qualquer dispositivo móvel, e já está aberto à exportação da ideia.

“Além disso, não nos conformamos com o fato de compartilhar o material. Cada traje inclui também a história de quem o comprou, que costuma contar como foi sua experiência e como terminou conseguindo o trabalho. É algo que consideramos muito importante porque serve para dar coragem a quem o veste depois”, acrescenta Man, que aplaude a coragem do Governo ao lançar o projeto. “A economia colaborativa é uma fórmula muito eficaz para evitar o desperdício de recursos e um modelo eficiente para a redistribuição da riqueza, mas há muitos poderosos que não estão interessados em seu triunfo porque a veem como ameaça aos abundantes lucros que obtêm fazendo a sociedade adoecer”.

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