Quanto custa um povoado?

Na Espanha, calcula-se que estejam à venda 1.500 aldeias abandonadas

O povoado de Esblada, em Tarragona, ao sul de Barcelona.
O povoado de Esblada, em Tarragona, ao sul de Barcelona.

Em Olmeda de la Cuesta, um pequeno povoado espanhol de La Alcarria, na cidade de Cuenca, já se prepara o próximo leilão de terrenos baratos para atrair novos moradores e evitar assim a perda de população. Com 35 pessoas registradas e umas dez morando no inverno, o local conta com uma das populações mais velhas de toda a Espanha. No próximo verão serão leiloados seis ou sete lotes. A experiência não poderia ser melhor. No ano passado, o prefeito, José Luis Regacho, leiloou 14 áreas a preços quase simbólicos. Ou não é simbólico um terreno de 200 metros por 1.000 euros (3.740 reais), cinco euros por metro quadrado? Ou uma área de 600 metros, com espaço para se erguer uma casa de três andares e 100 metros construídos por apenas 200 euros (748 reais)?

Com esse preço é compreensível que as vendas tenham atraído pessoas vindas de todas as partes do mundo. Algumas para fixar sua primeira residência, como foi o caso de uma escultora inglesa que vai construir no terreno adquirido sua casa e seu ateliê. Ou uma mulher venezuelana que morava na Dinamarca e que pensa em trazer o resto de sua família. Ou como um iraniano que trabalha como cozinheiro em Madri e usará a futura construção para os finais de semana.

Não é a única localidade que necessita se repovoar para não morrer. Na aldeia de A Xesta, no município de A Lama, chegou-se a oferecer moradias de aluguel a um preço de 100 euros mensais (374 reais), mais os gastos de luz, água e manutenção. Buscam combater a falta de população e o envelhecimento do local, que tem 27 casas vazias.

O boom rural parecia uma moda passageira, mas não é. O interesse dos urbanos em ter uma propriedade no campo e a necessidade de repovoar aldeias fantasmas estão mais vivos do que nunca. E se a demanda cresce, a oferta não fica atrás. “Muitos proprietários de casas em aldeias estão colocando à venda diante do interesse das pessoas em comprar. Antes não faziam porque não era bem visto”, diz Elvira Fafián, diretora do portal Aldeasabandonadas.com, dedicado à compra e venda de povoados e casas rurais. Nessa empresa, que corresponde a 95% da participação de mercado, a demanda cresce em torno de 30% a 40% por ano, e dizem estar “transbordando”.

Por 15.000 a 20.000 euros (entre 56.000 e 74.800 reais), qualquer um pode adquirir uma casa, ainda que talvez necessite de algum reparo nas instalações. O custo das reformas é muito variável: há casas que são reformadas por 5.000 euros (18.700 reais), e outras que chegam a 40.000 euros (149.600 reais).

O prefeito de Olmeda da Encosta (Cuenca), José Luis Regacho, posa adiante de uma das parcelas leiloadas, onde seu novo dono já se está construindo uma casa.
O prefeito de Olmeda da Encosta (Cuenca), José Luis Regacho, posa adiante de uma das parcelas leiloadas, onde seu novo dono já se está construindo uma casa.

Também cresce o interesse por se comprar um povoado inteiro, sobretudo se é a preço baixo. Dos 3.500 povoados e aldeias abandonados contabilizados pelo INE, calcula-se que 1.500 estão à venda. “Desses, entre 110 e 120 têm os documentos em dia e estão prontos para serem comprados; o resto precisa de documentação que pode levar vários meses”, diz Fafián. A cada ano alguns povoados são repovoados, em especial na Galícia e Astúrias, as áreas mais procuradas.

Há tanto espanhóis como estrangeiros interessados. “Segundo nossos dados deste ano, seriam 50% espanhóis e os outros 50% estrangeiros, ainda que a demanda internacional por informação seja maior”, afirma Fafián. É curioso que em muitas aldeias espanholas só se fale inglês. “Acontece quando quatro ou cinco casas são compradas por uma família que traz amigos e se cria uma comunidade com seus costumes”, acrescenta.

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Aqueles que mais procuram povoados abandonados são os norte-americanos, alemães e franceses, que compram graças ao boca a boca. Se prendem muito à qualidade da terra para poder ter plantações e cultivos. Há anos havia muito interesse em comprar aldeias para se montar projetos de turismo rural. Hoje já não tanto. “O uso particular representa 65%, e o restante é uso empresarial”, segundo Elvira Fafián. A falta de subsídios e as dificuldades para se encontrar financiamento têm reduzido esse tipo de atuação.

Quanto custa um povoado? Tem de todos os preços, e fica mais caro ou mais barato segundo o estado de conservação. Cerca de 70% precisam de reforma. Há alguns por 62.000 euros (232.000 reais) na região de Pontenova (Lugo), com seis construções, manancial de água e propriedade de 13.000 metros. Precisa de reforma, ainda que a casa principal, de 140 metros, seja de fácil restauração.

Por 380.000 euros (1,4 milhão de reais) está à venda La Alameda, um povoado desabitado na província de Segovia. Os terrenos e ruínas que estão à venda representam 60% do povoado e somam 1.800 metros de área. “Teria que levar eletricidade, já tem saneamento e distribuição de água, e tem um projeto de urbanização com licença paga para poder construir sete casas”, informa a Rústicas Singulares, agência encarregada da venda.

Depois, há povoados que custam de um milhão a 15 milhões de euros (56 milhões de reais). Esses sim, com casas reformadas e de luxo. O que encarece mais, além do número e do estado das construções, é que seja uma região de interior, com bosques, natureza e mananciais. Os interessados buscam preços entre 20.000 (74.800 reais) a 240.000 euros (898.000 reais), tanto para casas como para aldeias. A comunidade com mais povoados à venda é a Galícia, onde calcula-se que sejam 35. A seguir vem Catalunha (Lleida, Tarragona e Girona), Castilla y León (Burgos, Soria e León), e Aragón (Zaragoza e Teruel).

Vista de algumas das casas de Porcieda (Cantabria), aldeia abandonada com os Picos de Europa ao fundo, à venda por 1,5 milhões de euros.
Vista de algumas das casas de Porcieda (Cantabria), aldeia abandonada com os Picos de Europa ao fundo, à venda por 1,5 milhões de euros.

Os proprietários desses povoados à venda costumam ser uma ou duas pessoas. Mas existem prefeituras, como Cortegada (Orense), que oferecem as áreas para investidores em troca de reformas para uso hoteleiro de luxo. Algo que pode custar mais de um milhão de euros. Também está à venda, sob condições, a milenar localidade de Porcieda, uma aldeia dentro do Parque Nacional dos Picos da Europa, que está abandonada, mas que conta com um dos melhores conjuntos de arquitetura rural da comarca de Liébana.

A imobiliária Mikeli, especializada em residências de luxo, colocou à venda o município todo, com 3.052 metros quadrados construíveis, por 1,5 milhão de euros (5,6 milhões de reais), negociáveis. Sobre a mesa há várias propostas para a transformação do povoado. Uma delas é que o futuro comprador realize um projeto de reabilitação integral, com 45 apartamentos rurais. Essas futuras edificações partiriam das atuais 10 moradias praticamente em ruínas, que contam com superfícies que vão de 48 aos 176 metros quadrados. Esse projeto contaria com ajuda e subsídios, tanto europeus como procedentes do Governo da Cantabria. “Essa venda é atrativa pelas peculiaridades que tem. São muitas pessoas interessadas, mas poucas capacitadas para comprar. Na realidade, estamos esperando uma contraproposta de um grupo investidor russo e de outro empresário de Madri. Mas são muitas pessoas interessadas em comprar um apartamento rural se, no final, for tomada essa opção”, diz Antonio Avilés, presidente-executivo da Mikeli.

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