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Então, candidato Datena, vamos falar sobre São Paulo?

Pré-candidato à Prefeitura, apresentador terá que lidar com problemas para além da polícia

Datena (c) assinando a filiação ao PP.
Datena (c) assinando a filiação ao PP.

“Bandido tem que ir para a cadeia”, “comandante Hamilton, na tela!” e “onde estão os direitos  humanos das vítimas?” Bordões repetidos à exaustão por José Luiz Datena no programa policialesco Brasil Urgente, da TV Bandeirantes, estarão em breve em uma propaganda eleitoral perto de você. O apresentador, que se filiou esta semana ao conservador Partido Progressista (PP), é pré-candidato à Prefeitura de São Paulo nas eleições municipais de 2016. Ele chegou a ser sondado também pelo PSB e pelo PSDB. O vice da chapa será o também pepista deputado estadual Delegado Olim, que costurou o acordo.

A chegada de Datena na corrida eleitoral complica cenários de uma disputa que ainda não tem favorito claro e soma novos competidores —depois de Datena, nesta quarta foi a vez de o empresário João Dória afirmar que pretende lutar para ser candidato pelo PSDB, publicou o Estado de S. Paulo. Datena pretende se medir nas urnas com outro nome da TV, o deputado Celso Russomanno, pré-candidato do PRB, e com a ex-prefeita e senadora Marta Suplicy, ainda em busca de um novo partido para acomodar suas ambições eleitorais. Todos querem o cargo de Fernando Haddad (PT), que lutará contra os problemas de caixa e a crise de seu próprio partido para permanecer na prefeitura.  

A aposta da candidatura de Datena é surfar na chamada onda conservadora, insuflada por políticos como Jair Bolsonaro ou Eduardo Cunha, que mistura pregação da mano dura contra os criminosos, defesa intrasigente da polícia e da ordem e apelo religioso. O apresentador deve começar a campanha em alta, já que se trata de um rosto conhecido que encampa um discurso moralizante e radical que encontra eco em uma parcela dos paulistanos, mas terá de provar que pode ser competitivo até o final e evitar o efeito Russomanno, que por erros em 2012 viu suas intenções de votos evaporarem.

Se na telinha José Luiz Datena é defensor da ordem, e do trabalho da polícia, na política, o apresentador escolheu o partido com mais investigados na Lava Jato: são 31 políticos sob suspeita (ante 8 do PT e 8 do PMDB). A legenda também abriga o deputado federal Paulo Maluf (SP), ex-prefeito da capital procurado pela Interpol e ficha-suja —que conseguiu manter o mandato na Câmara graças a uma decisão da Justiça.

Datena consegue narrar graves violações de direitos humanos cometidas pela PM – inclusive execuções - como se fossem uma partida de futebol

Defensor da redução da maioridade penal – “[os menores] matam mais que todos os 007 juntos, [eles têm] licença para matar" –, Datena faz parte de um grupo de jornalistas conservadores que jogam com o sentimento de insegurança em São Paulo e são recompensados com audiência. Hoje o Estado tem 9,3 mortes por 100.000 habitantes (inferior às taxas de grandes cidades americanas).

A relação entre o apresentador e a polícia é simbiótica: ele precisa ter boas relações com a PM para que sua equipe seja informada com antecedência dos flagrantes, operações e prisões, fundamentais para sua audiência. E os policiais encontram nele um árduo defensor. A fórmula funciona: o Brasil Urgente tem uma das maiores audiências da TV Bandeirantes.

Parte do apelo de Datena está em narrar graves violações de direitos humanos cometidas pela PM —inclusive execuções— como se fossem um jogo de futebol. No final de junho, durante uma perseguição a dois homens em uma moto, um policial dispara contra os suspeitos caídos no chão e aparentemente rendidos. Tudo transmitido ao vivo no Brasil Urgente. "Viatura de Rota [Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar, a tropa de elite da PM de São Paulo], viatura líder tentando prender bandidos em fuga, bandidos em fuga!”, começou o apresentador, eufórico. Depois que o policial disparou, ele comenta: “O cara tacou o capacete na polícia, acho que houve tiro ali! Teve tiro aí. Tiro do policial. Não sei se na hora que o cara caiu apontou o revólver para o policial...”. O PM foi detido administrativamente após o incidente, a Corregedoria da corporação investiga o caso, e o secretário da Segurança Pública, Alexandre de Moraes, afirmou que o policial cometeu uma "séria irregularidade".

Datena terá que provar que consegue apresentar respostas e soluções para os problemas da cidade, que não serão resolvidos com a ajuda da Rota e da PM

Mas as polêmicas de Datena não se restringem a uma defesa da polícia. Ele também se notabilizou por colocar a culpa da violência nos ateus e na “ausência de Deus” no coração, uma muleta recorrente no debate sobre o assunto no Brasil. Ao comentar a morte de um jovem fuzilado em 2012, Datena afirmou que “o sujeito que não respeita os limites de Deus, é porque não sei, não respeita limite nenhum”. De acordo com ele, “é por isso que o mundo está essa porcaria. Guerra, peste, fome e tudo mais, entendeu? São os caras do mal. Se bem que tem ateu que não é do mal, mas, é…”. Por esse comentário, a Band foi condenada na Justiça a exibir um vídeo sobre a importância do Estado laico no Brasil.

Outro momento no qual o apresentador ganhou notoriedade ocorreu durante os protestos de junho de 2013, contra o aumento das tarifas no transporte. Ele acompanhava uma manifestação em São Paulo, criticando duramente os protestos e a depredação e os atos de vandalismo nas ruas. Em dado momento, lançou a enquete "Você é a favor de protesto com baderna?". Por telefone, o público votou massivamente apoiando a "baderna". “Deve ter algum erro”, dizia ele enquanto o Sim da enquete crescia em detrimento Não. E foi aí que ele mudou e opinião, e começou a tratar o ato como "um show de democracia". “Fazia muito tempo que não via uma manifestação democrática e pacífica assim. É o povo", disse. Até a revogação do aumento ele defendeu: "O povo está descontente. Eu falei que ninguém queria aumento."

Efeito Russomanno

Se, por um lado, mesmo com episódios controversos, a exposição na mídia é uma vantagem para Datena sobre outros candidatos, por outro, ela pode fornecer munição de sobra para seus opositores. Numa entrevista, concedida há três anos para o colunista da Folha de S. Paulo Maurício Stycer, ele criticou o fato de o deputado Russomanno, que moldou sua carreira política como apresentador de TV, candidatar-se à prefeitura naquele ano. “O cara está confundindo popularidade com credibilidade e capacidade”, afirmou. Na mesma conversa, Datena explicou que não queria aceitar os convites para concorrer a algum cargo político. Lançou: “Sou uma porcaria como administrador. Posso comentar bem alguma coisa.  Agora, eu seria um péssimo político e não teria capacidade nenhuma”.

Caso leve adiante a candidatura, Datena pode se beneficiar pelo fator novidade. Seu principal desafio será mostrar consistência nos debates complexos da maior cidade do Brasil. O caso de Russomanno, na eleição passada, tornou-se exemplar neste sentido. O parlamentar, que também já trabalhou em programas policiais  —Aqui e Agora, do SBT — e fez fama na tela defendendo o direito do consumidor,  chegou a liderar a corrida por alguns meses em 2012. Na reta final, sua popularidade desidratou quando confrontado com questões práticas da capital. Ele apresentou uma proposta controversa para a duração do bilhete único para as passagens de ônibus, e acabou ficando fora do segundo turno, disputado à época entre Haddad e José Serra.

Apesar de toda a expertise televisiva, Russomanno deu respostas evasivas e também teve dificuldades para lidar com outro ponto de sua candidatura que provocava críticas: a ligação de seu partido, o PRB, e sua emissora, a Record, com a Igreja Universal. “Vamos falar sobre São Paulo?”, disse Russomanno, quando questionado sobre seus vínculos com a Universal, e a frase foi parar em memes na rede.

Quem se apresentar para a disputa de 2016 terá de estar preparado para discutir os problemas financeiros da prefeitura —sem dinheiro para investir e que não conseguiu renegociar a dívida do município nem reajustar impostos. Terá ainda de apresentar propostas para lidar com uma cidade que sofre de graves problemas de mobilidade, infraestrutura e segregação socioespacial, nada que pareça ao alcance da famigerada Rota e da PM. Então, Datena, vamos falar sobre São Paulo?

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