Rússia

Putin tenta mostrar que a Rússia não está isolada

Cúpulas regionais dão a Moscou a oportunidade de estabelecer laços fora do Ocidente

Vladimir Putin durante uma sessão do Kremlin
Vladimir Putin durante uma sessão do KremlinAlexei Nikolsky (AP)

Duas reuniões de chefes de Estado de quatro continentes em território russo deram esta semana ao presidente Vladimir Putin uma oportunidade de mostrar aos EUA e seus aliados ocidentais que o Kremlin, apesar de ser castigado por seu rumo na Ucrânia, não está isolado dos pontos de vista político, econômico e de segurança.

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As reuniões nas quais Putin procurou afirmar sua liderança internacional foram as cúpulas dos BRICS e da Organização de Cooperação de Xangai, realizadas respectivamente quarta e quinta-feira em Ufá, cidade situada mais de 1.100 quilômetros a leste de Moscou, entre o rio Volga e os Urais.

O grupo BRICS (Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul) surgiu em 2006 como um clube de potências emergentes díspares e, em parte, dispersas geograficamente, cujo denominador comum é a insatisfação com a atual divisão de peso e influência nos mecanismos de decisão do sistema político e financeiro internacional, dominado pelos EUA.

A Organização de Cooperação de Xangai (Rússia, China, Cazaquistão, Quirguistão, Uzbequistão e Tajiquistão), por sua vez, tem caráter regional e foi fundada em 2001 para integrar países pós-soviéticos da Ásia Central com seus dois grandes vizinhos – Rússia, a antiga metrópole colonial, e China, que assumiu lugar de destaque econômico na região. Índia, Paquistão e Irã solicitaram o ingresso na OCX, que tem entre seus grandes desafios a instabilidade do Afeganistão e a contenção do islamismo radical na Ásia Central.

Os BRICS são responsáveis por 28% do PIB mundial, mas seu peso no Fundo Monetário Internacional (FMI) é de 11% dos votos, como ressaltava a agência oficial russa Tass ao informar na terça-feira sobre o lançamento, em Moscou, das primeiras instituições financeiras do grupo, o Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS e um fundo comum de reservas de câmbio, dotados, cada um, com capital de 100 bilhões de dólares (322 bilhões de reais).

O banco dos BRICS se especializará em projetos de investimento em infraestrutura para superar obstáculos para o desenvolvimento dos negócios privados e estatais, segundo o ministro da Economia da Rússia, Alexei Uliukaiev. O ministro russo das Finanças, Anton Siluanov, por sua vez, anunciou que um ex-chefe do banco da Índia, Kundapur Vaman Kamatj, foi eleito o primeiro presidente do novo banco.

Quanto ao fundo, trata-se de um mecanismo de ajuda mútua entre os bancos centrais dos países membros para fornecer recursos “caso surjam problemas com a liquidez em dólares”, a fim de manter a “estabilidade financeira”, assinala o banco central da Rússia em um comunicado. A China contribuirá com 41 bilhões de dólares (132 bilhões de reais) para o fundo. O Brasil, a Índia e a Rússia contribuirão, cada um, com 18 bilhões de dólares (58 bilhões de reais) e a África do Sul, com 5 bilhões de dólares (16 bilhões de reais).

Ao estabelecer estas instituições, os BRICS, principalmente a China, “querem demonstrar sua convicção de que o enfoque ocidental não incorpora (ou adia a incorporação) das potências emergentes no processo global de tomada de decisões e de que não se pode continuar tolerando isso”, escreve Serguei Alexashenko em uma análise sobre os BRICS recém-publicada pelo Center of Global Interests (CGI). Alexashenko, ex-vice-presidente do Banco Central da Rússia, ressalta que o maior obstáculo para o desenvolvimento dos dois instrumentos é a “óbvia disparidade de interesses entre os países membros dos BRICS”. “A Rússia e, em menor medida, o Brasil impulsionam ativamente uma política antiamericana e promovem a ideia de uma aliança internacional de países que desejam se livrar do dólar”, afirma o especialista. “Outros membros dos BRICS, começando pela China, procuram principalmente benefícios econômicos e até agora se mostraram resistentes a utilizar seus recursos para apoiar aventuras políticas que podem levar a um enfrentamento com o Ocidente”, opina Alexashenko.

Por causa das sanções impostas à Rússia pela anexação da Crimeia e de sua política no leste da Ucrânia, Moscou enfrenta dificuldades para obter financiamento. O Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento (BERD), uma entidade criada em 1991 para ajudar os países em transição pós-comunista, congelou o financiamento de novos projetos na Rússia em 2014 e o novo banco dos BRICS pode ser uma fonte alternativa de investimentos. Entretanto, até o momento os investimentos não se concretizaram – e os russos estão descobrindo na prática que o dinheiro chinês com o qual contavam se mostra precavido na hora de investir em projetos de risco na Rússia.

Investimento da Arábia Saudita

A Rússia encontrou um investidor na Arábia Saudita. Este país investirá 10 bilhões de dólares (32 bilhões de reais) em projetos conjuntos com o Fundo Russo de Investimentos Diretos (FRID) e o fundo soberano Public Investment Fund (PIF), confirmou Kiril Dmitriev, o diretor-chefe do FRID, à agência russa Interfax.

A maioria dos projetos será realizada na Rússia. Dmitriev destacou que se trata do maior investimento estrangeiro na história da instituição. As prioridades são infraestrutura, agricultura, medicina, logística, venda varejista e imóveis.

O fundo russo espera concluir dez projetos, com investimentos em torno de 1 bilhão de dólares (3,2 bilhões de reais), dos quais sete já têm sinal verde. O mesmo esquema acertado com a Arábia Saudita já foi utilizado com o fundo de investimento russo-chinês. O fundo assinou um acordo com outros fundos por meio da Saudi Arabian General Investment Authority (Sagia), que deve ajudar empresas russas a entrar no mercado árabe.

Se forem levadas em conta as realidades econômicas dos Brics, “a Rússia tenta efetivamente criar um sistema que será controlado pela China, indiferente às sutilezas da política interna dos sócios, e não pelos exigentes Estados Unidos”, opina Andrei Movchan, diretor de programas de política econômica do centro Carnegie em Moscou. As autoridades russas consideram sua “permanência imutável” no poder uma “prioridade para o país” e veem como “principal perigo” a "influência externa na política interna”, por isso “não têm nada a perder” com a criação das instituições financeiras dos BRICS, mesmo que suas possibilidades êxito sejam baixas, segundo Movchan.

A China é a economia dominante entre os BRICS, mas este grupo “dificilmente pode ser considerado um instrumento estratégico de longo prazo” para a política de Pequim, adverte Alexashenko. Pequim criou o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (BAII), que é um concorrente direto do Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS e tem um projeto próprio de integração, com melhores perspectivas do que a integração apoiada nos BRICS, assinala Alexashenko. O projeto chinês procura fomentar as relações econômicas entre países vizinhos por meio do desenvolvimento de todos os tipos de infraestrutura de comunicações, de estradas e portos a gasodutos, oleodutos, redes de eletricidade e telecomunicações. O BAII foi fundado em março e conta com um capital inicial de 50 bilhões de dólares (161 bilhões de reais) e sede em Pequim. A iniciativa foi lançada em outubro pela China e por outros 20 países asiáticos e ganhou a adesão de vários países ocidentais, incluindo a Espanha.

Segundo o ministro das Finanças da Rússia, Anton Siluanov, o BAII e o Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS podem ser concessionários no financiamento de projetos de investimento no contexto da “rota da Seda”, que é parte do projeto chinês de integração. Em um primeiro momento, o banco dos BRICS dará prioridade ao desenvolvimento da infraestrutura dos países membros, disse Siluanov, que não excluiu a possibilidade de que, em um “futuro distante”, a instituição possa financiar projetos na Grécia. Segundo o ministro, a Rússia não tem necessidade de utilizar o novo fundo de reservas de câmbio. As grandes empresas russas, como a Rosneft, já são candidatas aos recursos do banco, cujos primeiros projetos devem aparecer antes do fim do ano, disse o ministro. Segundo os prognósticos do ministério das Finanças, a fuga de capitais da Rússia em 2015 oscilará entre 70 bilhões e 80 bilhões de dólares (225 bilhões e 257 bilhões de reais), em vez dos 100 bilhões de dólares (322 bilhões de reais) previstos anteriormente, assinalou o ministro.

Por outro lado, a Rússia encontrou um investidor na Arábia Saudita. Este país investirá 10 bilhões de dólares (32 bilhões de reais) em projetos conjuntos com o Fundo Russo de Investimentos Diretos (FRID) e o fundo soberano saudita Public Investment Fund (PIF), confirmou Kiril Dmitriev, o diretor-chefe do FRID, à agência russa Interfax. A maioria dos projetos será realizada na Rússia. Dmitriev destacou que se trata do maior investimento estrangeiro na história da instituição. Antes o recorde estava com o Fundo dos Emirados Árabes, que tinha investido 7 bilhões de dólares (22,5 bilhões de reais). As prioridades são infraestrutura, agricultura, medicina, logística, venda varejista e imóveis, entre outras. O fundo russo espera realizar cerca de dez projetos, com investimentos de aproximadamente 1 bilhão de dólares (3,2 bilhões de reais), dos quais sete já receberam sinal verde provisório. Segundo Dmitriev, os recursos serão entregues pelo prazo de quatro a cinco anos. O mesmo esquema empregado com a Arábia Saudita já foi utilizado com o fundo de investimento russo-chinês. O fundo russo assinou um acordo com outros fundos soberanos da Arábia Saudita, representados pela Saudi Arabian General Investment Authority (Sagia). Esta última instituição deve ajudar as empresas russas a entrar no mercado árabe. Dmitriev disse que a visita do príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Muhammad bin Salman, ao Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo, onde se reuniu com Putin, contribuiu para que fosse selado o acordo.

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