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A semana que transformou os Estados Unidos

A legalização do casamento entre homossexuais, a aprovação da reforma do sistema de saúde e o declínio dos símbolos de segregação no Sul reforçam uma mudança social

Marc Bassets
A Casa Branca transformou-se por algumas horas na Casa do Arco-íris.
A Casa Branca transformou-se por algumas horas na Casa do Arco-íris.MICHAEL REYNOLDS (EFE)

Às vezes, a história acelera o passo. Acaba de acontecer nos Estados Unidos. Em menos de uma semana, um símbolo associado ao grupo escravocrata da Guerra Civil — o racismo é o pecado original deste país —, a bandeira confederada, começou a ser retirado dos terrenos públicos nos estados do sul. A reforma do sistema de saúde, uma lei que amplia a assistência médica a milhões de pessoas sem seguro, foi garantida graças ao aval da Suprema Corte. E a própria Suprema Corte — um órgão cujos membros não são eleitos e com nove juízes em cargos vitalícios — promulgou uma das decisões de maior importância política neste país nos últimos anos: legalizar nos 50 estados o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

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Na sexta-feira à noite, depois do anúncio da decisão que aprovou o casamento de homossexuais, a Casa Branca deixou se ser branca por algumas horas. Foi iluminada com as cores do arco-íris, símbolo do movimento LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transexuais). A imagem — a Casa do Arco-íris e centenas de pessoas reunidas, mais por viver um momento único do que por qualquer reivindicação ideológica — é poderosa. Faz apenas três anos que o presidente disse pela primeira vez que apoiava o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Para dar uma ideia da mudança, devemos lembrar que, por trás dessas paredes agora iluminadas, um presidente disse uma vez: "Não acho que seja preciso glorificar a homossexualidade na televisão pública". Era 13 de maio de 1971 e Richard Nixon tinha acabado de ver uma série em que um personagem parecia ser homossexual. Indignado, comentou com um assessor: "Não quero que este país vá por este caminho. Você sabe o que aconteceu com os gregos. A homossexualidade os destruiu”, diz na gravação.

Novo país, nova política

Em questões como a igualdade sexual ou a cobertura do seguro de saúde, os EUA podem sere considerados hoje como um país mais progressista.

Na campanha para suceder Obama, os republicanos estão divididos entre se entrincheirar em batalhas passadas ou se adaptar a um país mais diverso, mais tolerante.

Ao abordar questões como o porte de armas ou racismo, Obama continua enfrentando sérios obstáculos.

Foi preciso mais de quatro décadas, mas os Estados Unidos foram "por este caminho" temido pelo republicano Nixon. E é um presidente democrata, embora historicamente tenha sido tardio, o que levanta a bandeira do arco-íris. Ao permitir a participação de gays e lésbicas nas Forças Armadas, Obama contribuiu para o empurrão final. Mas não foi ele quem decidiu que a Constituição reconheça o direito dos homossexuais de se casar assim como os heterossexuais, mas a Suprema Corte. E, no tribunal, o voto decisivo, do homem que redigiu a decisão, foi do juiz Anthony Kennedy, nomeado por Ronald Reagan, ícone da direita norte-americana.

Foi também a Suprema Corte que, ao legalizar na quinta-feira os subsídios de seguro de saúde, impediu que 6,4 milhões de pessoas perdessem o benefício e ficassem sem cobertura. Se os juízes tivessem anulado o Obamacare — como a reforma ficou conhecida — e deixassem milhões de pessoas fora da reforma, a teriam colocado em risco. A chave do Obamacare, um sistema baseado no seguro privado, é que o maior número de pessoas possível -- saudáveis e doentes – tenha cobertura para reduzir os custos.

Um país onde os homossexuais se casam e que avança em direção à cobertura de saúde universal é diferente daquele que Obama herdou ao chegar à Casa Branca, em 2009. É outro país, quando o Sul arria a bandeira confederada. Sim, um racista branco matou nove negros em uma igreja. E a bandeira é apenas um símbolo, mas um símbolo carregado de significado. Nesta semana, os EUA também começaram a destacar o legado do racismo. O discurso de Obama na sexta-feira, durante o funeral do reverendo Clementa Pinckney, um dos mortos no ataque, pode ser um começo.

Nem a ratificação do Obamacare nem a legalização do casamento entre homossexuais nos 50 estados, ou a intenção de retirar a bandeira no Sul são de responsabilidade direta de Obama. Mas as três mudanças, que estavam há muito tempo sendo preparadas e agora se cristalizam, definem o país que Obama deixará quando sair da Casa Branca, em 2017. Assim também como será definido pelas negociações sobre o programa nuclear com o Irã -- se forem bem-sucedidas nos próximos dias -- e pelo degelo com Cuba. Esta semana transformou os EUA e pode transformar a presidência de Barack Obama.

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