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Beatriz Sarlo: “A América Latina hoje não inspira ingenuidade em ninguém”

A ensaísta argentina inaugura a 13ª Flip falando sobre Mario de Andrade e América Latina

Sarlo, autora de 'Viagens: Da Amazônia às Malvinas'.
Sarlo, autora de 'Viagens: Da Amazônia às Malvinas'.Alejandra López

Beatriz Sarlo, ensaísta e crítica literária argentina e uma das mais relevantes autoras de estudos culturais do mundo, é quem abre as portas da próxima Festa Literária de Paraty (FLIP) – que acontece entre os dias 1 e 5 de julho no litoral fluminense. Embora seja uma respeitada analista em seu país, não tente questioná-la sobre as idas e vindas da política de seu país, nem muito menos pedir que ela opine sobre Christina Kirchner.

Ao lado dos escritores Eliane Robert Moraes e Eduardo Jardim na conferência de abertura, As margens de Mario, Beatriz buscará aproximar-se de Mario de Andrade, homenageado pelo evento este ano, a partir de suas fronteiras. Sua missão é falar de Buenos Aires e de América Latina, já que, assim como o intelectual brasileiro, ela é afim às viagens e às trocas diretas que elas oferecem. No dia 4, participa de outra mesa, Turistas aprendizes, ao lado da jornalista e escritora portuguesa Alexandra Lucas Coelho. 

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Suas intervenções vêm reforçadas por Viagens: Da Amazônia às Malvinas, seu livro mais recente, que será lançado nesta 13a Flip. Nele, a autora instala uma janela pessoal que conecta uma “América Latina épica” ao que, segundo ela, a região se tornou hoje: “uma atração turística internacional”.

O título sai exclusivamente em formato eletrônico pela editora e-galáxia e mostra como Beatriz, junto a um pequeno grupo de estudantes, viveu na própria pele “a ilusão latino-americana”. Hoje, ela diz, os tempos são outros: “Não sei a quem a América Latina ainda desperta um sentimento de ingenuidade”.

Há relatos de passagens por Brasília, poucos anos depois de sua construção, por La Paz, onde ela e seus amigos foram recebidos sem cerimônias ou referência no gabinete de um ministro às margens de um golpe de Estado na Bolívia, e pelas ilhas Malvinas, cujo afã de recuperação por parte da Argentina ela abertamente contesta.

Sarlo, em sua primeira viagem latino-americana, nos anos 50.
Sarlo, em sua primeira viagem latino-americana, nos anos 50.Divulgação

Para falar do Brasil de hoje, que conhece de visitas frequentes (essa será sua segunda participação na Flip), a ensaísta também evita rodeios: “É a potência da região em relação à qual países como a Argentina devem se recolocar, aprender a ser decididamente o segundo na fila”.

Pergunta. Como surge a ideia de escrever Viagens: Da Amazônia às Malvinas e por que você escolheu um eu coletivo para narrá-lo?

Resposta. São viagens de iniciação que não teriam sido possíveis se tivesse ocorrido a mim realizá-las sozinha. O grupo era uma espécie de sujeito coletivo indispensável: uma defesa contra as dificuldades apresentadas pelos deslocamentos e pela natureza; uma soma de saberes e destrezas em relação ao desconhecido: inclusive uma espécie de micro-sociedade em terras estranhas. Por exemplo, falar espanhol do Rio da Prata em lugares onde escutávamos outras inflexões da língua comum ou, diretamente, outras línguas, como o quéchua, o português ou o aguaruna.

P. Você afirma que foram experiências que abriram seus olhos e os dos seus companheiros. Por quê?

R. Eu não conhecia a América Latina. Essas viagens são minha primeira experiência fora do meu país. Tudo o que via implicava alguma forma de batismo, de novidade, de surpresa. Há que levar em consideração que – diferente do presente, em que muitos jovens argentinos de classe média já viajaram ao Brasil de férias, ou inclusive mais longe, ao Caribe – para nossa geração essa não foi uma possibilidade. Ou seja, não tivemos nem mesmo a mais banal das experiências turísticas.

P. Quais foram as histórias mais marcantes que você viveu passando pelo Brasil?

R. No livro conto exatamente o que nos aconteceu: viajamos hipnotizados para conhecer Brasília, que tinha sido inaugurada só alguns anos antes. E Brasília não nos decepcionou. Acreditávamos que estávamos tocando o próprio coração do modernismo arquitetônico e da modernidade estatal.

P. Tem experiências recentes no Brasil que você possa contrastar com essas, mais antigas?

R. Não voltei a Brasília, porque viajei muitas vezes ao Rio e, em especial, a São Paulo – que, para uma argentina, permite experimentar uma megalópole, uma configuração urbana que representa o futuro em suas deformidades e seu formidável impacto estético e técnico. Se alguém, em Buenos Aires ou Montevidéu, me perguntasse “como é uma cidade no capitalismo tardio?”, eu diria: “Está aqui, viaje poucas horas a São Paulo”.

P. Por que, hoje, a América Latina ainda desperta certo sentimento de ingenuidade, assim como fazia nos politizados anos 50 e 60?

R. Não sei a quem a América Latina ainda desperte hoje um sentimento de ingenuidade, como você diz. Talvez a algum tipo de turista europeu e jovem, em busca daquilo que sabem que já não existe em lugar algum e que supõe que pode encontrar aqui. Mas não, seguramente, a um latino-americano. Quem lê jornais diários ou sites de notícias não pode se confundir. Quem visitar hoje El Alto, na Bolívia, por exemplo, seria insensível se não visse a modernidade globalizada, onde a música dos jovens é o pop coreano.

P. Qual foi sua primeira experiência lendo As veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano? E o que você acha dele ter declarado, no ano passado, que não leria de novo seu próprio livro? “Para mim, essa prosa tradicional esquerdista é muito chata”, foi o que ele disse.

R. Eu não li As veias abertas. O livro foi publicado em 1971, e, nesses anos, nos quais consumi milhares de páginas de leitura, as denúncias anti-imperialistas eu já tinha lido nas obras de alguns argentinos nacionalistas e nacional-trotskistas, como Jorge Abelardo Ramos. As veias abertas era tido, inclusive por gente muito jovem, mas de formação universitária, como um livro de divulgação, escrito com a prosa fácil de um best seller. Era muito lido, mas acho que por um público diferente do qual eu fazia parte. Não dá para descartar que, em 1971, eu era um pouco esnobe em relação às minhas leituras. Lembro bem que, em 1972 ou 1973, eu estava na revista Los Libros. As editoras nos pagavam a publicidade não com dinheiro, mas com pacotes de exemplares de seus livros, que nós tínhamos que vender nas livrarias. Sempre pedíamos As veias abertas, porque vendíamos os pacotes imediatamente, mas nunca nos ocorreu, a nenhum de nós, abrir um desses livros.

P. As pontes culturais entre o Brasil e o resto da América Latina parecem ser sempre frágeis. O que você acha da nossa conexão literária de hoje em dia?

R. Acho que é mais forte, ainda que haja autores brasileiros que não têm toda sua obra traduzida na Argentina. Falo sobretudo de ensaio: não tudo o que escreveram Antônio Cândido, Roberto Schwarz e Silviano Santigo está disponível. Acredito, ao contrário, que as editoras brasileiras estão mais receptivas aos ensaístas argentinos. As conexões, em nível universitário, por outro lado, se fortaleceram, entre outras razões porque apareceram críticos consagrados a estudar e traduzir literatura brasileira e ensiná-la na universidade – algo que não acontecia quando eu era estudante nos anos 60.

P. O que caracteriza os brasileiros e que não necessariamente diz respeito aos demais latino-americanos?

R. Claro que o primeiro traço diferencial é o português. É um dado que não pode passar batido, porque implica outra tradição literária desde a colônia. O outro traço diferencial em relação aos países do Sul da América é de uma escravidão prolongada e uma república tardia. Aprendi a ler nos historiadores e analistas brasileiros a profundidade das marcas deixadas por uma sociedade escravocrata. Hoje, a grande diferença é que o Brasil é um país decisivo na América Latina e além. O Brasil é a potência em relação a qual países como a Argentina devem se recolocar, aprender a ser decididamente o segundo na fila. Além disso, é lugar comum, claro, afirmar a cordialidade brasileira como um traço diferencial. Em relação aos argentinos, eu reforçaria que a diferença é a gentileza. Nós, argentinos, somos descorteses por estilo nacional.

P. Você narra em seu livro uma entrevista com um ministro boliviano, durante a viagem a La Paz, em uma situação de muita informalidade e abertura, e afirma que isso não seria possível hoje. Já não somos tão abertos? Por quê?

R. Não sou capaz de imaginar que hoje um grupo de quatro estudantes entrem no pátio do Palácio Quemado, na casa de governo de La Paz, e entrem no gabinete do ministro. Nem, muito menos, posso imaginar que esse ministro, quando um golpe de estado derrubou o governo do qual ele fazia parte, tivesse como única referencia em Buenos Aires o domicílio de um desses estudantes. Isso simplesmente não pode acontecer.

P. Que potência tem, a seu ver, o ato de viajar e a literatura de viagem e que outras experiências culturais não oferecem?

R. Quando viajei jovem, achava que a experiência direta era a forma mais alta e mais verdadeira de conhecimento. Hoje não tenho essa crença, pelo menos não tão absoluta. Os livros me parecem uma fonte tão importante quanto as viagens. É diferente quando se trata de arte: ver uma representação teatral ou escutar um concerto, uma banda de jazz ao vivo, é diferente da sua reprodução técnica (Benjamin já falou a respeito). Acho que certas coisas se aprendem “ao vivo”, mas têm mais a ver com experiências estéticas que com experiências socioculturais.

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