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Quando as redes sociais favorecem um “ativismo preguiçoso”

São meios eficientes quando não se requer mais do que o compromisso dos usuários

Imagem do quarto aniversário do 15-M em Madri.
Imagem do quarto aniversário do 15-M em Madri.

Conto uma experiência que suspeito não ser unicamente minha. Há uns cinco anos, e principalmente por causa da depressão econômica e do Movimento 15-M, os indignados espanhóis, uma parte do meu círculo social se “politizou” de maneira bastante repentina. O fenômeno se tornou especialmente exagerado nas redes sociais.

Hoje em dia, para muita gente, entrar no Facebook ou no Twitter significa mergulhar em um grande protesto, onde as pessoas comentam sem parar artigos das edições digitais da imprensa e notícias dos onipresentes casos de corrupção entre políticos e empresários, convocam atos políticos ou simplesmente desabafam contra aqueles que consideram como os responsáveis pelo desastre de nosso país.

No meu caso (e sou alguém que nunca teve muito envolvimento na vida política), esse círculo social digital se encheu de um ativismo regeneracionista, de um radicalismo típico do século XIX. O paradoxo é que o Facebook me mostra um entorno social e a rua, outro. As redes sociais fervem de agitação política. No mundo “real”, nada muda.

Eu poderia procurar diversas explicações para isso. Afinal, trabalho no mundo da cultura e vivo no centro de uma grande cidade. Relaciono-me principalmente com pessoas da minha geração. É possível que isso crie uma bolha ideológica ao meu redor. A bolha deve existir, em todo caso, porque para além da infância praticamente não conheci ninguém na minha vida que se defina como conservador ou de direita. As urnas, no entanto, demonstram que pelo menos metade da população comunga com a ideologia conservadora.

A realidade, aparentemente, é que as redes sociais criam bolhas ideológicas. Duas pesquisas divulgadas nos últimos meses ratificam essa ideia. Segundo um estudo do Pew Research Center, as pessoas de direita tendem, predominantemente, a ter amigos que concordam com suas ideias políticas e a fazer parte de grupos com ideias parecidas, enquanto os esquerdistas têm uma tendência maior a apagar ou bloquear amigos por causa de divergências políticas.

Outro estudo, publicado na revista Science, confirma que as pessoas constroem uma espécie de “sala de espelhos” digital de suas próprias opiniões, e que o usuário médio das redes tem apenas cerca de 23% de amigos com ideias políticas diferentes das suas. Além disso, os especialistas no assunto descobriram que o Facebook e o Twitter amplificam aquilo que, em ciência política, se chama “espiral do silêncio”: os usuários têm medo de publicar opiniões políticas quando pensam que elas podem ser lidas por outros com ideias diferentes.

O resultado de tudo isso se parece inquietantemente com o maravilhoso romance A Cidade e a cidade, de China Miéville (Boitempo Editorial), no qual duas cidades coexistem no mesmo espaço físico mas sem se comunicarem para nada, desenvolvendo métodos engenhosos para não se verem uma à outra.

Na esteira do otimismo digital resultado da primavera árabe surgiram muitas vozes céticas em relação ao poder mobilizador das redes sociais. Ano após ano, as pesquisas do Centro de Pesquisas Sociológicas (CIS, na sigla em espanhol), em Madri, mostram que não mais do que 25% dos usuários espanhóis navegam na Internet com alguma finalidade política, nem que seja para se informarem esporadicamente. Além disso, os internautas não passam de 51% da população espanhola, e representam um setor completamente apoiado nos cidadãos com alto grau de instrução.

As redes sociais, segundo esses céticos, favorecem um “ativismo preguiçoso” ou “superficial”, que produz muito barulho mas mal se traduz nas urnas ou na rua. São meios eficientes quando não se requer mais do que o compromisso dos usuários. Parece que novamente a Internet está “ficando independente” da realidade.

*Javier Calvo é escritor. Sua mais recente obra é El jardín colgante (ainda sem edição no Brasil).

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