Cinema

Louis Garrel: “Foi com as mulheres que aprendi o que é a amizade”

O ator francês está em cartaz no Brasil com o filme 'Um instante de amor', parte de festival de cinema

Garrel, Maïwenn, Vincent Cassel nas filmagens de 'Meu Rei', em cartaz em São Paulo.
Garrel, Maïwenn, Vincent Cassel nas filmagens de 'Meu Rei', em cartaz em São Paulo. @studiocanal

Houve um tempo, agora distante, em que Louis Garrel (Paris, 1983) queria se tornar veterinário. Ele logo mudou de ideia. Como se dedicar a outro ofício quando o pai, lenda viva do cinema de autor francês, responde pelo nome de Philippe Garrel (e a mãe uma grande atriz como Brigitte Sy), quando se estuda no mesmo colégio que François Truffaut e quando seu padrinho não é outro senão o alter ego desse diretor, Jean-Pierre Léaud? Garrel começou no cinema com cinco anos num filme do pai, Beijos de Emergência. Ele chama o pai de “Philippe” e não de “papai”. Como se fosse, de fato, um amigo. “Entre nós existe uma comunicação constante em nível criativo”, diz Garrel, fumando cigarros num terraço de Saint-Germain, meca da intelectualidade parisiense, onde ele sabe o nome dos garçons e vários transeuntes o cumprimentam como se fosse da família. Entre eles, o famoso diretor Jonas Mekas, que para por alguns segundos para filmar o ator com uma minúscula câmara digital.

Festival Varilux de Cinema Francês 2017 vai até 21 de junho

Festival anual de cinema francês inclui filme Um instante de amor, onde a protagonista Marion Cotillard contracena com Louis Garrel.

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Pouco depois daquela manhã, Garrel esteve em dose tripla no Festival de Cannes de 2015, tanto com seu filme de estreia, Dois Amigos, como no polêmico Meu Rei, exibido no Brasil em 2016.

Durante as filmagens de Dois Amigos, ele se pegou repetindo instruções técnicas que o pai tinha ensinado, um especialista das relações sentimentais, separações e rearranjos posteriores. Mas não acredita que tenha sido uma autêntica influência. “Não me incomoda que as pessoas procurem semelhanças com ele, mas nesse filme não acho que haja muitas. Meu filme tem uma parte de artificialidade, mesmo de falsidade, que os filmes de Philippe não suportariam”, diz.

No entanto, ele não hesitou em incluir uma sequência ambientada durante uma rodagem que reconstitui o Maio de 68, do qual seu pai foi uma espécie de figura exemplar à qual ele mesmo parece vinculado por sua filmografia. Encarnou jovens de 68 duas vezes,  com o pai em Amantes Constantes e em sua estreia com Bertolucci, em Os Sonhadores. Desde então, tudo foi glória para esse jovem de cabelo cuidadosamente despenteado e silhueta de poeta romântico, que se tornou uma espécie de sex symbol da barricada revolucionária e homme fatal capaz de vender perfumes de luxo (ele é a imagem de Valentino depois de ter sido a de Armani).

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“Talvez tenha querido ir onde outros não querem que eu vá”, sorri. Apesar das aparências, Garrel tampouco vê algo da Nouvelle Vague no filme. “Aquilo foi um cinema que descrevia uma realidade mais suave e mais feliz, a dos anos sessenta. Nosso tempo é muito mais angustiado. Não queria parecer amnésico ao retratar o nosso tempo, por isso escolhi três personagens precários, marginais e desequilibrados”, responde. Não existe mesmo algo de Truffaut no filme? “Sim, é verdade, mas apenas por seu pudor. Eu não saberia filmar o sexo. Não sei se seria capaz”, admite o ator, que vê seu filme como um cruzamento entre Jacques Doillon e Claude Pinoteau, diretor de cinema que rodou No Tempo dos Namorados, mítico filme adolescente que lançou a carreira de Sophie Marceau. “Queria que fosse um filme de câmera, mas em ritmo acelerado”, conclui Garrel.

Para aqueles que o tratam de “filho de” –ou mesmo de “neto de”: seu avô foi o grande ator de teatro Maurice Garrel– Garrel costuma responder o seguinte: “É algo que não me incomoda e que posso entender, porque eu também tive esse sentimento em relação a outros”, admite. “Essa fascinação pelos clãs e pelas filiações me deixa nervoso. Talvez por isso eu tenha adotado a minha filha, porque essas histórias de transmissão genética me parecem deprimentes”, diz. Fala de Céline, a menina que adotou em 2011 com a ex-companheira, a atriz Valeria Bruni-Tedeschi. Uma relação que transformou esse conhecido eleitor da Liga Comunista Revolucionária em concunhado do ex-presidente francês Nicolas Sarkozy. Mas isso é outra história, e não necessariamente de amizade.

Os amigos, como o próprio nome indica, se centra justamente nesse estranho vínculo que chamamos de amizade. O protagonista é o próprio Garrel, no papel de Abel, um belo e cínico aspirante a escritor que deve se contentar com um emprego de vigia de estacionamento. Ao seu lado está Clément, figurante sem nenhuma fala em vários filmes, com o qual tem uma longa amizade. Quando às suas vidas chega Mona, uma jovem que vende sanduíches numa estação de trem e esconde um insuspeitado segredo, a devoção que sentem um pelo outro se transforma em algo parecido com a rivalidade. Garrel não hesitou em descrever a amizade como uma variante do amor e como uma instituição semelhante ao casamento, que também pode se romper com muito uso. “A amizade é amor sem sexo. A única coisa que distingue uma do outro é a falta de pulsão sexual. De resto, ambos são marcados por padrões semelhantes como a admiração, a sedução e a possessividade. Como no amor, há amizades nobres e nocivas. Algumas são duradouras e outras acabam em ruptura”, diz Garrel.

O ator e diretor francês Louis Garrel, em Cannes.
O ator e diretor francês Louis Garrel, em Cannes.LOIC VENANCE (AFP)

Os dois protagonistas, duplos parisienses de Laurel e Hardy –ou assim diz o diretor, lembrando que sempre lhe pareceu estranho que não tivessem “vida conjugal”– estão unidos por uma relação ambígua. “A amizade masculina é geralmente mal representada no cinema, com homens que só falam em dormir com mulheres ou, ao contrário, excessivamente pudicos, que nem se tocam. Eu quis retratá-la com mais ternura, porque assim são as relações que vivi com outros homens”, disse Garrel. “Na escola eu escolhi a opção literária, onde há tantos homens quanto num curso de cerâmica. Éramos apenas dois. Se os homens do meu filme são tão femininos é porque foi com as mulheres que aprendi o que era a amizade. A camaradagem entre homens é algo que, felizmente, eu nunca conheci. O clássico grupo de amigos adolescentes me parece terrível, o pior do mundo. Alguém deveria contar a homossexualidade latente nesses bandos de homens. Esse sim seria um filme interessante”, sorri. Seu filme é marcado por alguma ambiguidade sobre o assunto. “É algo natural para mim. Eu cresci entre homossexuais. Que um gay me passe a mão não me parece um ataque à minha integridade física”, garante.

Garrel contou com dois atores que lhe são próximos: Vincent Macaigne, que conhece desde os 16 anos, peculiar nova estrela do cinema de autor francês, onde seus personagens rudes fazem furor, e Golshifteh Farahani, atriz iraniana perseguida em seu país por ter mostrado as costas em um filme com Leonardo Di Caprio (neste filme mostra muito mais, sem que os aiatolás tenham se pronunciado por enquanto), que era companheira de Garrel até meses atrás. Os três formam um triângulo amoroso marcado pela geometria variável de suas relações, que Garrel sabe descrever com olho certeiro e sensível. “Enquanto os ingleses idolatram Shakespeare, temos autores como Musset, Molière ou Marivaux, que se distinguem pela descrição precisa da natureza dos sentimentos. Queria me inscrever nessa tradição”, diz o ator, que se inspirou numa obra do primeiro, Les caprices de Marianne (Os caprichos de Marianne), transposto aos tempos modernos.

Seu filme não abdica de retratar a precariedade de nossa época: os personagens estão na casa dos trinta anos e se comportam como adolescentes, sem empregos sérios ou grandes projetos de vida pela frente, mostrando-se obcecados apenas com seus afetos e suas pequenas misérias. “Foi a maneira que encontrei para ancorar o filme no presente. Quando se roda uma história sentimental, corre-se o risco de que te tratem de frívolo ou superficial. Especialmente eu, que só participei de projetos desse tipo, sempre representando homens atormentados pelo amor”, explica Garrel. Foi por acaso, porque não lhe oferecem algo melhor, ou por escolha consciente? De preferência a última alternativa: “Esses são os filmes de que gosto e me interessam. Para mim, o amor é a pior tragédia. É o que mais pode nos devastar na vida, mais do que um edifício que desmorona”.

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