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Europa sinaliza ao BCE para não fechar torneira de liquidez para Grécia

“A situação de liquidez é terrivelmente urgente”, advertiu Varoufakis depois da reunião

Grecia, Varoufakis
Varoufakis, em um ato no dia 7 de maio.

A Grécia está sendo cozida em fogo brando. O Eurogrupo –instância que reúne ministros de Finanças e outras autoridades da zona do euro– enalteceu a lenta melhoria na negociação com Atenas, mas exige avanços mais substanciosos com rapidez. Atenas ainda tem liquidez para aguentar algum tempo. Mas os credores não cedem: os parceiros lhe deram o justo para que o Banco Central Europeu (BCE) não feche a torneira de liquidez; nada mais. Berlim abriu a porta à convocação de um referendo na Grécia se isso permitir desbloquear o processo, embora esse capítulo esteja muito distante.

A contagem regressiva continua. A reunião de ministros de Finanças do euro realizada em Bruxelas ventilou em menos de uma hora o assunto grego. Depois da sonora repreensão ao ministro Yanis Varoufakis na última reunião na Letônia, os sócios do euro deram as boas-vindas ao novo processo formal de negociação –no qual Varoufakis tem um papel um pouco menos destacado– e enfatizaram os tímidos progressos conseguidos. Mas acabaram dizendo o de sempre: o acordo está distante. A Grécia resiste a aprovar um corte nas pensões e uma reforma trabalhista no estilo que desejam as instituições europeias e o FMI.

O chefe do Eurogrupo, Jeroen Dijsslbloem, deixou claro que o pilar da negociação com a Grécia era, é e será o muito alemão “dinheiro em troca de reformas”. “Não haverá desembolsos enquanto não houver uma lista completa das reformas que a Grécia deve fazer”, enfatizou. Os ministros da zona do euro divulgaram um comunicado sucinto sutilmente favorável à Grécia, que funciona como uma espécie de mensagem implícita para o BCE. O Eurogrupo, enfim, sinalizou ao BCE para que Frankfurt não feche a torneira de liquidez aos bancos gregos.

Manter o status quo

Trata-se de manter o status quo: permitir que a Grécia continue se financiando, mas sem lhe dar a menor margem adicional, para que acabe fazendo o que seus credores exigem. Atenas, que resiste a dar o braço a torcer, pede há semanas que o BCE lhe permita emitir mais dívida a curto prazo. Os bancos gregos compram esses bônus e os colocam no Eurobanco em troca de liquidez: a respiração artificial que mantém a Grécia. Atenas continua cumprindo religiosamente com os vencimentos de sua dívida: ordenou o pagamento de 750 milhões de euros (cerca de 2,55 bilhões de reais) ao FMI, apesar dos habituais rumores de calote durante o fim de semana, que reaparecem a cada vez que se aproxima um vencimento importante. Atenas ganhou assim 20 dias extras. Mas seus “colchões” de liquidez continuam diminuindo, com pagamentos pendentes de 12 bilhões de euros adicionais até o fim do ano, com um gargalo de 6,7 bilhões em julho e agosto ao BCE.

Ninguém sabe quanto dinheiro resta para a Grécia. “A situação de liquidez é terrivelmente urgente”, advertiu Varoufakis depois da reunião. A economia parou, as receitas públicas caíram, a fuga de depósitos continua implacável. “As coisas estão piorando”, limitou-se a dizer Dijsselbloem à imprensa, consciente de que a Grécia melhorou na forma, mas se mantém firme no fundo: não quer mais austeridade com pretensas reformas que são, na realidade, cortes.

Bruxelas acredita que há risco de acidente, mas destaca que o mais provável é que haja acordo. As instituições acreditam que Alexis Tsipras acabará dando o braço a torcer quando estiver ficando sem dinheiro. Esse momento se aproxima. E não será fácil politicamente: a ala esquerda do partido de Tsipras prefere interromper as negociações a descumprir suas promessas. E o primeiro-ministro insinua com um referendo se a Europa impuser condições muito duras. As capitais não querem esse referendo: ele se tornaria um perigoso plebiscito sobre o euro. Ou ao menos isso parecia: o alemão Schäuble abriu a porta: “Pode ser útil para que o povo grego decida se está disposto a aceitar o que é necessário ou quer algo diferente”, encerrou.

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