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Tsipras afasta o ministro das Finanças das negociações com a UE

Bolsa de Atenas sobe quase 4,5% depois do anúncio

Grecia
O ministro checo, Andrej Babis com Yanis Varoufakis. REUTERS

Depois do fiasco da reunião informal do Eurogrupo (que reúne ministros de Finanças da zona do euro e outras autoridades financeiras da União Europeia) em Riga, na sexta-feira, o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, deu na segunda-feira uma virada nas negociações com os sócios da zona do euro e instituições que formam parte da troika e anunciou que, a partir de agora, o professor de economia Efclidis Tsakalotos, número 2 do Ministério de Relações Exteriores, será o coordenador da equipe de negociação.

Isso afasta o midiático ministro de Finanças, Yanis Varoufakis, da primeira linha de diálogo, segundo a maioria das fontes, por ter irritado seus parceiros do Eurogrupo, que manifestaram de maneira evidente seu mal-estar com o ministro.

Além disso, o delegado técnico do Executivo grego em Bruxelas será agora Yorgos Juliarakis, um homem de confiança do vice-presidente Yanis Dragasakis, substituindo o atual responsável, Nikos Theojaris, muito próximo a Varoufakis. Era conhecida a pouca afinidade dele com Dragasakis, que é respeitado por todos, inclusive pelos críticos do Syriza e por Varoufakis.

A Comissão Europeia (CE) recebeu com otimismo as mudanças anunciadas por Tsipras. “As autoridades gregas anunciaram que Yorgos Juliarakis terá um papel de coordenação no grupo e entendemos que o primeiro-ministro [Tsipras] vai se envolver mais diretamente no processo. Isso é muito positivo”, disseram fontes europeias citadas pela agência Efe. O propósito evidente de Atenas e do grupo europeu é acelerar as negociações, cujo próximo encontro será a reunião do Eurogrupo de 11 de maio. “Nosso propósito é conseguir um acordo no início de maio”, declarou Dragasakis.

Não foi somente a CE que reagiu positivamente. Também foi significativa a queda dos juros da dívida grega, assim como a alta da Bolsa de Atenas, que terminou a sessão da terça-feira com valorização de quase 4,5%.

A Grécia quer relançar o diálogo diante do encontro do Eurogrupo em maio

O fato de o capital político de Varoufakis já estar amortizado não era mais segredo em Atenas há várias semanas, de modo que seu aparente afastamento da equipe de negociação não causou muita surpresa.

O impasse nas negociações, quando o relógio corre contra a Grécia — a extensão do resgate expira no final de junho —, somado ao excesso de protagonismo e à falta de diplomacia do até agora ministro-estrela do Executivo grego parecem estar por trás da decisão de Tsipras de afastar Varoufakis. A necessidade de caixa do Estado grego chega a 4 bilhões de euros (12,7 bilhões de reais) em maio, incluindo um pagamento de 1 bilhão de euros (3,2 bilhões de reais) ao Fundo Monetário Internacional (FMI), e isso pode também ter pesado na decisão de Tsipras que, no entanto, deixou claro seu total apoio ao ministro.

Isolado, criticado inclusive por seus homólogos europeus, Varoufakis reagiu no domingo às críticas recebidas em Riga por suas táticas de atrasar o acordo com um tuíte incendiário, em um tom arrogante, no qual dava “boas-vindas ao ódio” de seus parceiros, parafraseando uma famosa frase de Franklin D. Roosevelt, em 1936: “São unânimes em seu ódio contra mim. E eu dou boas-vindas ao ódio”. Ao reafirmar seu apoio formal a Varoufakis, o Executivo grego destacou na segunda-feira que o ministro havia sido alvo de um “ataque organizado” por parte da imprensa internacional, com a qual havia vivido até agora um intenso idílio, cheio de aparições estelares que causaram um evidente mal-estar inclusive dentro do Executivo, cujos alguns membros recomendaram que Varoufakis fosse mais contido em público. Paradigmática foi a reportagem da revista Paris Match, onde o ministro posou com sua esposa em sua casa de Atenas, uma entrevista exclusiva que o próprio Varoufakis reconheceu depois que havia sido um erro conceder.

Embora a reorganização da equipe negociadora possa ser interpretada como uma mudança de formato das negociações e como um aceno aos sócios e às instituições, mais do que de fato uma queda em desgraça de Varoufakis — que continuará representando a Grécia no Eurogrupo —, os rumores sobre sua hipotética demissão já haviam circulado com força nas últimas semanas, até o ponto que o próprio interessado brincou algumas vezes – via Twitter — sobre sua saída.

A Alemanha pediu várias vezes a cabeça do titular de Finanças grego; na verdade, o próprio Tsipras falou por telefone no domingo com a chanceler alemã Angela Merkel e com o presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, para retomar o processo.

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