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Um dos cofundadores do Podemos se demite da direção do partido

‘Número três’ da formação lamentou semelhança do partido com o que pretende substituir

Pablo Iglesias, em Madri nesta quinta-feira.

Pablo Iglesias, líder do partido político espanhol Podemos, anunciou a demissão dos órgãos de direção da formação de Juan Carlos Monedero, cofundador, ideólogo e homem chave para o novo partido, que surgiu há pouco mais de um ano e foi a terceira força espanhola mais votada nas passadas eleições europeias. Fez isso em Madri, pouco depois das 18h (13h em Brasília), antes da apresentação do candidato do Podemos à presidência da Comunidade de Madri. “Tive há alguns minutos uma conversa com Juan Carlos Monedero. Ele apresentou sua demissão dos órgãos de direção do Podemos, e aceitei. Juan Carlos se demite depois de cumprir seu dever como responsável pelo programa”, destacou o secretário-geral do partido.

A demissão de Monedero acontece logo depois dele mesmo lamentar na manhã desta quinta-feira que às vezes o Podemos se pareça com aqueles que pretende substituir (ou seja, os partidos tradicionais) e de manifestar a necessidade de voltar às origens e raízes do partido. A renúncia de um dos pilares da formação emergente representa sua primeira grande crise.

Iglesias assegurou ter aceitado a demissão de Monedero depois de uma conversa com ele minutos antes de falar com a imprensa. "Monedero abandona a direção do partido depois ter cumprido com suas obrigações relacionadas a elaboração do programa", disse. “Não concordo com algumas das reflexões, mas coincidimos que precisamos desses cutucões [os de Monedero] com muito mais liberdade”.

O próprio Monedero confirmou pouco depois no Twitter que tinha se demitido. “Apresentei a meu amigo Pablo a demissão da direção. Continuam firmes minha amizade com alguém de tanta envergadura e o compromisso com o Podemos.” Na mesma rede social, a conta oficial do Podemos agradeceu a Monedero por seu “amplo trabalho” e adiantou que o partido seguirá adiante em seu projeto de mudança “que convence cada vez mais pessoas”. Também no Twitter, Íñigo Errejón, número dois do partido, escreveu: "Obrigado Juan Carlos por tudo, pelo valor e resistência. Seguiremos construindo juntos a mudança política".

Iglesias afirmou que, apesar de não dividir as reflexões de Monedero sobre a derivação do partido, “isso não muda que sejam enormemente valiosas. O ferrão crítico de Juan Carlos é importante para nós. Precisamos de Juan Carlos voando e com muito mais liberdade para fazer o que faz melhor, que é pôr o dedo na ferida”, disse o dirigente do Podemos. “Também sinto nostalgia de quando fazíamos coisas menores”, acrescentou.

O líder da formação ressaltou que Monedero “precisou sofrer”. “Entrar na política implica riscos, e Juan Carlos Monedero viveu os mais difíceis”, disse Iglesias, que destacou que seu ex-número 3 não ocupou cargos públicos nem ganhou dinheiro por participar da política.

De manhã, Monedero se mostrou desapontado, desenganado e decepcionado pela dinâmica da primeira linha da política. Ele reconheceu que a organização caiu em alguns vícios da competição eleitoral. No partido, no entanto, não acham que esteja perdendo esse frescor e limitam as declarações de Monedero a uma reflexão pessoal. Ainda assim admitem que as coisas mudaram nos últimos meses e acreditam em uma retomada de fôlego graças ao contato direto com os círculos e com os simpatizantes durante a campanha eleitoral.

“O contato permanente com aqueles que queremos superar pode, às vezes, fazer com que nos pareçamos com o que queremos substituir. Isso é uma realidade”, disse Monedero, que é professor de Ciência Política e foi responsável pelo programa inicial do partido, numa entrevista à Radiocable. Para Monedero, “o Podemos cai neste tipo de problema porque deixa de ter tempo para se reunir com um pequeno círculo de colaboradores, porque é mais importante um minuto de televisão ou é mais importante aquilo que acrescente algo à estratégia coletiva...” Mesmo assim, quis deixar claro também que o partido político espanhol Podemos “é o que há de mais decente na política espanhola”.

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