Contra rival sem méritos, Real Madrid passa à semifinal da Champions

Gol de Chicharito liquida o Atlético, que depositava suas esperanças num golpe de sorte

Chicharito celebra o gol da classificação.
Chicharito celebra o gol da classificação.alejandro ruesga

O Real Madrid levou quase duas partidas completas para despachar o Atlético de Madri, muito sofrimento para uma equipe que teve todos os méritos, superior na ida e a única com vocação no jogo de volta. Prova disso é que os alvirrubros mantiveram todo o drama sobre os ombros de Oblak, seu oxigênio nesta etapa eliminatória. No Real Madrid, outro herói inesperado, Chicharito, autor de um gol no finalzinho. Bem inesperado, pois o mexicano, o mais atuante na tarefa de derrubar a muralha colchonera, estava havia 895 dias sem disputar a Champions, e com seu clube atual somente havia jogado apenas 17% dos minutos na temporada. Com ele à frente, o Real Madrid encadeou sua quinta semifinal consecutiva, o que não conseguia desde 1956-1960. Um feito mais do que respeitável, considerando as ausências e pelo jogo bruto do seu adversário, que entrara precavido. Mas, desta vez, o Atlético, tacanho e com urticária pela bola, só queria ganhar na loteria. Cada mensagem enviada por Simeone atestava isso. Deu errado para ele, e o futebol se aliou com o único time que o respeitou, num jogo que só os muito fanáticos teriam vontade de rever.

Real Madrid 1x 0 Atlético

Real Madrid: Casillas; Carvajal, Pepe, Varane, Ramos, Coentrão (Arbeloa, min. 93); James, Kroos, Isco (Illarramendi, min. 92); Cristiano Ronaldo e Chicharito (Jesé, min. 91). Não utilizados: Keylor Navas, Khedira, Lucas Silva e Nacho.

Atlético: Oblak; Juanfran, Miranda, Godín, Jesus Gámez; Tiago (Giménez, min. 85), Koke, Saúl (Gabi, min. 45), Arda Turan; Griezmann (Raúl García, min. 75) e Mandzukic. Não utilizados: Moya, Siqueira, Raúl Jiménez e Torres.

Gols: 1 x 0, min. 87, Chicharito.

Árbitro: Felix Brych, alemão. Advertiu Raúl García, Koke, Pepe e Arbeloa e expulsou Turan por duplo cartão amarelo.

81.000 espectadores no Santiago Bernabéu, lotado.

Nem as carências locais animaram o Atlético, mancomunado para defender, mas uma negação com a bola a seu dispor. A partida começou com uma reviravolta na escalação do Real. Avaliando o banco, Ancelotti optou por não desalinhar ainda mais o grupo. Melhor três jogadores confiáveis, como Pepe, Varane e Ramos, do que recrutar quem tantos receios despertou, por mais que o valor de Khedira, Illarramendi e Lucas Silva ronde os 200 milhões de reais. Com Ramos no meio, como no fracassado experimento da temporada passada no Camp Nou, o Real Madrid apostava em resistir ao jogo espacial e acrescentar um jogador de chegada, mas não inventivo. Por desesperada e compreensível que fosse a medida do técnico italiano, o teste não deu resultado, especialmente porque Ramos, longe de atuar como sentinela dos meio-campistas, se posicionou um degrau adiante de Kroos, mais sutil para criar, para harmonizar o último trecho do ataque. Diante de um Atlético com duas trincheiras pela frente de Oblak, não houve madridista que agitasse entre as linhas. Com James e Isco abertos, ninguém se infiltrava.

Mas o domínio era do Real, um Real precavido, é verdade, mas pelo menos com mais intenção de jogo, conversando com a bola. Nada a ver com o Atlético, para o qual a redonda parecia envenenada, para desespero de seu melhor domador, Arda. Nem um passe, nem dois. Os alvirrubros só se propunham a amarrar o jogo. Seu melhor antídoto: jogar para não deixar jogar. Para Griezmann e Mandzukic, também ocupados na varredura, Casillas estava em Marte. Com a bola tão hostil, os únicos caminhos vinham pelos arremessos laterais, a essa altura aplaudidos como se fossem escanteios. O Atlético se encolhia inteiro.

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Entre a pouca iniciativa do Real e a falta de jeito do seu adversário, o único motor da partida era o emocional. O confronto não tinha curvas, exceto por Chicharito, o mais aceso com seus giros rápidos. O mexicano e CR deixaram o roteiro de lado, aproximaram-se do gol e toparam com o mesmo ferrolho da ida: Oblak, a bandeira colchonera nestas quartas de final, o que revela o papel geral da equipe. Por motivos bem diferentes, o desafio tampouco será esquecido por Saúl, vencido desde o início, superado até ser sacado no intervalo. Pouco antes, uma distração sua deixou CR na cara do goleiro esloveno, outra vez lúcido.

Na volta do intervalo, o Real parecia mais solto. Contribuiu para isso uma maior participação de Isco, depois de passar todo o primeiro ato sumido. Uma assistência dele para Chicharito quase resolveu a partida, mas o centroavante arrematou cruzado demais. Foi outro sinal de que o único time com vocação ofensiva era o mandante. A intenção do visitante ficou ainda mais clara com a substituição promovida por Simeone logo depois dos 15 minutos. Saiu Griezmann, seu melhor goleador, o mais provocativo da equipe, para dar lugar a Raúl García. Para o Atlético, tudo estava sujeito à loteria do chuveirinho, a uma jogada espasmódica, por mais que no futebol o acaso às vezes seja a lógica. Mas não foi assim, porque o conjunto de Simeone estava inoperante, principalmente depois da expulsão de Arda, que já tinha um amarelo quando derrubou Sergio Ramos de forma extremamente imprudente.

Houve mais surpresas por parte do técnico argentino. Logo depois de o Atlético ficar com dez, e apesar de Mandzukic estar com o tornozelo dolorido, recém-atendido pela equipe médica, o zagueiro Giménez entrou no lugar de Tiago. A fé de Simeone no croata beirava o sobrenatural. Com essas duas substituições, o Atlético abria completamente mão do jogo.

Com duas substituições, a equipe alvirrubra já abria completamente mão do jogo

O fato de ter três zagueiros não garantiu mais proteção ao Atlético. Cristiano livrou-se pela direita, James seguiu a jogada com uma caneta em Godín. O português avançou, já dentro da área, e serviu Chicharito. O mexicano fez justiça ao time que se mostrou vastamente superior, seja no Calderón ou em Chamartín. Sem desfalques ou com eles. Há versões muito mais positivas do Atlético. Desta vez, o time abusou em dar as costas ao futebol. Venceu o melhor.

O rei da Europa

O Real Madrid não é apenas a equipe com mais títulos na principal competição europeia. Os merengues disputaram 13 finais – mais do que qualquer outra equipe – e alcançaram as semifinais em 26 ocasiões, contando a deste ano. Nas últimas cinco temporadas (desde a chegada de José Mourinho ao cargo de treinador) o Real sempre luta por uma vaga na finalíssima.

Além disso, dos quatro maiores artilheiros da história do torneio, três jogam ou jogaram no Real: Cristiano, o líder, com 76 gols, seguido da exceção Messi (75), e dos ex-madridistas Raúl (71) e Ruud Van Nistelrooy (60 gols).

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