Seleccione Edição
Entra no EL PAÍS
Login Não está cadastrado? Crie sua conta Assine

Lucas Silva e a busca pela perfeição

O volante do Madrid examina-se diariamente com uma consultora futbolística

Lucas Silva, na partida contra o Elche.
Lucas Silva, na partida contra o Elche. Getty Images

Lucas Silva permanece isolado. “Protegido”, dizem, utilizando a linguagem institucional. O Real Madrid por enquanto não o permite falar em público. Os seus representantes servem para isso. E eles afirmam que é um rapaz excelente. Um meio-campista obcecado com a ideia de aperfeiçoar-se. Um estudioso abnegado de si mesmo que a cada tarde, na intimidade, dedica seu tempo livre a autoanalisar-se. Pega o computador, abre o relatório enviado pela consultoria Sport Networking e examina, uma por uma, todas as ações que realizou na última partida com um método especialmente desenvolvido para auxiliar jogadores ambiciosos. Lucas, de acordo com sua equipe, ficou mais de uma semana estudando cada detalhe de suas ações nas partidas que jogou contra o Schalke 04 e o Elche. Seu propósito é adaptar-se à Europa saltando o tradicional período de ajuste que afeta os brasileiros.

O programa utilizado por Lucas discrimina cada fundamento do jogo e o mostra classificando-o em sequências de vídeo. Cada partida é dissecada em listas de vídeos compilados de coberturas, roubos de bola, ajudas, controles, passes ou desmarques. O jogador examina suas atuações em função de três elementos: situação da bola, situação dele em campo e situação dos rivais. O cálculo desses parâmetros deduz se a jogada foi ótima, melhorável ou simplesmente um erro. A operação acaba com um balanço percentual de acertos e falhas. O exercício tem um lado lúdico. A meta é conseguir com que Lucas se autoqualifique e no caminho entenda o jogo. Uma vez por mês tem uma reunião com um especialista em análise do jogo através do Skype. É o que os analistas chamam de “treinamento cognitivo”.

“Depois de avaliar 60 trechos de vídeo de suas desmarcações você se transforma em um especialista do desmarque”, diz o fundador da Sport Networking

A Sport Networking é uma consultoria futebolística de Barcelona. Seu diretor técnico é Albert Rudé, doutor em Ciências da Atividade Física do Esporte. Jaime Fortuño, um dos fundadores, afirma que os jogadores que praticam esse método adquirirem um conhecimento acadêmico de coisas que antes faziam por instinto: “Depois de analisar, por exemplo, 60 trechos de vídeo de desmarques próprios e confrontá-los com 60 trechos de desmarque de outros jogadores, para comparar os acertos e as falhas alheias, a autoavaliação acaba transformando-o em um especialista no desmarque”.

A empresa assessora clubes em dez países, incluindo o Cruzeiro, onde jogava a última contratação do Real. Contataram o jogador em outubro de 2013 e a primeira coisa que fizeram foi uma radiografia de seu jogo a partir de suas últimas quatro partidas. Com o perfil em mãos definiram prioridades. Sem alterar a técnica individual, a tática e o físico. Fortuño afirma que não pode revelar exatamente quais aspectos estão trabalhando com Lucas, porque assinou uma cláusula de confidencialidade. Acrescenta que não pretende interferir no trabalho do treinador. Pelo contrário.

“Esse serviço”, explica Fortuño, “é feito fora do clube, como o aluno que faz aulas particulares de matemática. A questão é que, por exemplo, o jogador saiba por que realiza um bom desmarque ou uma boa cobertura. Para que ele não o faça somente por instinto, mas por dominar os conceitos. Ou seja: que utilize o metaconhecimento. Assim poderá fazer bons desmarques e boas coberturas mais frequentemente”.

Acostumado a jogar como único meia centralizado no Cruzeiro, Lucas deve agora aprender a posicionar-se como volante no particularíssimo sistema 4-3-3 do Real. Com 22 anos deixou de armar toda a equipe para ocupar-se de um pedaço no lado direito do meio-campo que exige dele, sobretudo, cobrir as costas de Bale e Carvajal. Seu treinador, Carlo Ancelotti, resiste em trocar sua posição com Kroos. “Kroos”, alerta o técnico, “ocupa uma posição muito importante à frente dos meias centrais, e trocá-lo por outro que ainda não tem o costume de jogar conosco pode ser complicado para a equipe. Lucas demonstra uma grande inteligência no ataque e na defesa. Não faz jogadas de qualidade extraordinária, mas joga de forma simples, precisa, e é muito rápido no toque de bola”.

“Demonstra grande inteligência. Não faz jogadas de qualidade extraordinária, mas joga de maneira simples, precisa, e é muito rápido”, diz Ancelotti

Lucas está há um mês autoanalisando-se para se adaptar. “A grande diferença com o Brasil”, observa Fortuño, “é que aqui o futebol tem maior posicionamento. Lá, as transições ataque-defesa e vice-versa são vertiginosas. Os jogadores saem da posição. Aqui as transições são mais organizadas e permitem um balanço maior. Na Europa as equipes se preparam antes de fazer a transição, tanto para atacar como para defender. Isso demanda espaços e tempo. No Brasil você perde a bola e vai instintivamente pressionar. Aqui o jogador perde a bola e pensa: 'devo ir pressionar ou devo guardar a posição?'”.

Por enquanto, a conclusão a que Lucas chegou é que vale mais a pena guardar a posição e manter os passes do que ser atrevido. Pois ninguém espera que faça algo genial e essa pressão sai de seus ombros. A pressão que perturbou Illarra após sua contratação de 40 milhões de euros (127 milhões de reais). A pressão que ele começará a dissolver realizando a função de carregador de piano para Bale. Algo simples. Algo que a equipe precisa urgentemente para não rachar no meio.

MAIS INFORMAÇÕES